Rezar o Evangelho de Lucas: «Designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois», descodificando os simbolismos presentes no texto

Do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc  10, 1-20)
Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. 

Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus». 

Comecemos por descodificar os simbolismos presente no texto
“SETENTA E DOIS DISCÍPULOS” evoca o elenco que se encontra no capítulo 10 do primeiro livro da Bíblia = Génesis 10. Ali apresenta-se o que se chamou Tabela das Nações ou simplesmente Filhos de Noé. Nela, os povos do mundo eram setenta e dois.
Ou seja, 72 discípulos significa que «a salvação oferecida por Jesus é destinada a todos os povos».

“ENVIO DOIS A DOIS” simboliza que a obra missionária é sempre COMUNITÁRIA. 

NÃO LEVAR BOLSA NEM ALFORGE NEM SANDÁLIAS significa a urgência da missão, que não se compadece com desculpas de atraso e exige despojamento.

SACUDIR O PÓ DOS PÉS é sacudir aquilo que sentimos quando somos rejeitados, é não procurar aplausos, porque a missão não é propaganda.

O “LOBO e o CORDEIRO” são símbolos, respectivamente, da violência e da mansidão. Os rabinos diziam que o povo de Israel era um cordeiro cercado por setenta lobos, que eram os povos pagãos. Jesus aplica esta comparação aos seus discípulos com o objectivo de lhes recomendar a vigilância contra os sentimentos dos lobos: o abuso do poder, as agressões, as violências, as mentiras, as ofensas, etc.

SATANÁS, SERPENTES E ESCORPIÕES são as forças do mal que urge vencer.

Para entender a MENSAGEM
Cada discípulo de Jesus é um enviado. 

A força da missão está na ORAÇÃO e não nos méritos humanos. 


Quem confia apenas em si, falha. Tampouco Jesus agia sozinho: «Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também», diz Jesus no Evangelho segundo S. João 5, 17.

A missão está sujeita à debilidade humana, mas a FORÇA vem de DEUS, que é Pessoa e Palavra desarmada, que pode ser aceite ou rejeitada.

A MANSIDÃO é o selo de identidade missionária.

A POBREZA é o estilo da missão. Não se rejeitam os meios humanos, as técnicas modernas, mas o poder da Palavra de Deus não depende nem do dinheiro nem do prestígio da instituição. 

Missão e espectáculo não combinam. A missão caracteriza-se pela testemunho do que se é, não do que se aparenta ser. Vaidades, aparências, ritualismos, cerimónias mundanas, honras, postos privilegiados, apego ao dinheiro, tornam a missão vazia e, portanto, contraproducente

A causa e o êxito do Evangelho é unicamente Jesus Cristo. «Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz - vida doada, entregue em bondade até ao extremo - de Nosso Senhor Jesus Cristo», escreve S. Paulo aos Gálatas (Gl 6, 14-18)

(Comunidade Paroquial de Espinho)

Rezemos:
Convosco, senhor!

A messe é grande e toda a terra Vos espera!
Onde entrais, Senhor, é sempre dia 
e o rosto da noite rendido se desvia.
Onde entrais, Senhor, o jardim da alegria 
enche o mundo da esperada harmonia.
Onde entrais, Senhor, nasce o sol da vida 
e a morte foge vencida.

A messe é grande e toda a terra Vos espera!
Espera-Vos a voz e a boca de tantos pobres 
vergados ao peso de uma cruz imposta e injusta.
Espera-Vos a inocência das crianças abandonadas 
a quem roubaram o viço de um futuro feliz. 
Espera-Vos a inquietude de tantos jovens enganados 
pelos cantos de vãs sereias que apodreceram as raízes.
Espera-Vos a angústia de tantos casais,
quebrados os vasos e secos os nós e os laços.
Espera-Vos a solidão de tantos doentes, 
os horizontes cobertos de nuvens escuras.

A messe é grande e toda a terra Vos espera!
Somos nós que Vos apresentamos na nossa debilidade, 
alimentados pela chama de uma fé inquebrantável, 
impelidos pela suma energia do Vosso Espírito protector.
Só Vós sois o Senhor e o Salvador.

Vós e nós, numa íntima comunhão e acção, 
ergueremos um mundo novo de paz e concórdia, 
deixaremos para trás a terra do materialismo vazio e estéril, 
iremos em frente na humildade e no despojamento 
abrir caminhos de verdade, justiça e transparência, 
anunciaremos que o Reino de Deus já começou 
e o tempo novo veste os corações das flores da salvação.
Iremos mostrar o rosto da misericórdia a todos 
quantos dela carecem como o deserto árido da fresca água.
Cantaremos a alegria do Evangelho:
a prenda que encherá de ouro a vida de todos os amargurados.

Convosco, Senhor! Para sempre!
Ámen!
                                                                                                            (João Guerra)

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