De acordo com o Evangelho de Mateus, há uma palavra que
Jesus disse a nós, seus seguidores, que não a usássemos ao nos dirigirmos a
qualquer pessoa sobre a terra: essa palavra é “pai” (Mateus 23, 9). No entanto,
atualmente, usamos “padre”, que, no português, vem do latim «pater», que
significa «pai», como uma forma de nos dirigirmos a todos os padres ordenados, e
o papa é chamado Santo Padre.
Embora a advertência de Jesus sobre essa forma de tratamento
nunca tenha tido a intenção de ser uma proibição generalizada, ela também não
deveria ser ignorada. A partir de Mateus 23, 9, fica claro que o
propósito de Jesus era advertir os seus próprios discípulos contra três
tendências que ele identificou em alguns líderes judeus da sua época: eles não
deveriam ceder à autoimportância; não se deveriam colocar acima de outras
pessoas; não deveriam colocar sobre os outros fardos que fossem muito difíceis
de carregar.
Assim como o Papa Francisco adverte repetidamente contra os
perigos do clericalismo, talvez seja hora de levar a sério os perigos inerentes
ao uso da expressão “pai/padre” como forma de tratamento.
Desde a segunda metade do século xix, o uso da expressão “pai/padre” como um termo de
respeito para todos os sacerdotes ordenados serviu como um dos principais
pilares do clericalismo. Ao mesmo tempo em que estimula a autoimportância
sacerdotal, ela também serviu para infantilizar os leigos, proporcionando,
assim, um cenário perfeito para certos abusos dos sacerdotes, entre os quais
que os depravados molestassem crianças impunemente.
Assim, quando os sacerdotes, debaixo da cobertura do seu
status exaltado, eram capazes de cometer os crimes mais indescritíveis contra
crianças, os próprios pais das crianças, seus protetores naturais, eram
incapazes de protegê-las, pois eles mesmos, na sua relação com o padre,
assumiram o papel não de pais em relação aos seus filhos, mas sim de filhos em
relação ao “pai/padre” abusador.
Os padres nem sempre foram chamados de “pais/padres”,
embora, desde o início, os cristãos tenham começado a chamar os seus mentores
espirituais de “pais/padres” e “mães/madres”.
O termo “pai/padre” continuou a ser usado como uma forma de
se dirigir àqueles homens que os cristãos procuravam como mentores espirituais,
enquanto a própria presença das “mães/madres” da Igreja primitiva foi em grande
parte apagada da história. Pensamos principalmente nos Padres do deserto;
diretores espirituais, mas que geralmente não eram sacerdotes ordenados. O
confessor homem era reverenciado como um pai espiritual e tratado como tal. Ele
era procurado pela sua santidade.
Quando os padres começaram a assumir o papel de confessores,
eles passaram a ser chamados de “pais/padres” quando atuavam nessa função, mas
“pai/padre” ainda não era o título formal para o sacerdote ordenado. Ao longo
da Reforma, os padres católicos na Inglaterra eram chamados de “Sir”. Assim,
por exemplo, Eamon Duffy, em “The Voices of Morebath”, escreve que o sacerdote
que serviu à paróquia de Morebath na época da Reforma inglesa era “Sir”
Christopher Trychay.
Foi somente na segunda metade do século xix que “pai/padre” se tornou a forma de
tratamento de todos os sacerdotes ordenados, em grande parte graças ao cardeal
Manning, arcebispo de Westminster (1865-1892). No seu livro “The Eternal
Priesthood” (1883), Manning descreve o título de “pai/padre” como “o primeiro,
o principal, o mais elevado, o mais poderoso, o mais persuasivo, o mais honrado
de todos os títulos de um sacerdote” (p.22). O livro de Manning foi
extremamente influente no mundo de língua inglesa.
A restauração da hierarquia inglesa ocorreu em 1850, e, sem
dúvida, o uso do título “pai/padre” para os sacerdotes católicos romanos ajudou
a diferenciá-los dos anglicanos. Mas, para Manning, era muito mais que isso.
Manning tinha uma noção altamente exaltada da santidade que um sacerdote
deveria e poderia alcançar. O padre deveria colocar-se acima dos outros em termos
de perfeição espiritual. Manning diz que o papel do padre como professor, guia
e juiz dos homens (sic) exige perfeição espiritual.
Em retrospetiva, fica claro que Manning colocou sobre os
sacerdotes um fardo que, para a maioria, era muito difícil de carregar. Ao se
esforçarem pela perfeição, eles podem tomar consciência dolorosamente de que
ficaram aquém do esperado. Estabelecidos como modelos de santidade, era quase
como se tivessem uma hipocrisia forçada sobre eles. A discrepância entre a luz
sob a qual foram retratados e a realidade das suas vidas era um pesado fardo
colocado sobre eles. E, para manter a ilusão, era necessário focar nas vidas de
sacerdotes muito santos (dos quais, é claro, havia muitos), mas manter ocultos
os pecados dos outros.
Nessa atmosfera, um século depois do livro de Manning,
quando os bispos estavam a tomar consciência do abuso sexual de crianças por
padres, muitos sucumbiram à tentação de encobrir os abusos.
Talvez seja hora de todos os católicos adultos refletirem
sobre Mateus 23, 9 e pensar sobre os perigos de chamar os padres de “padres”, e
de todos os padres católicos pensarem sobre os perigos de aceitar o título por
parte de outros adultos.
Em fevereiro deste ano, a irmã nigeriana Verônica Openibo,
superiora da Sociedade do Santo Menino Jesus, dirigiu-se à cúpula vaticana
sobre a proteção de menores. No fim da sua apresentação, ela dirigiu-se
diretamente ao papa e chamou-lhe “Irmão Francisco”. Como uma “Irmã” e como
alguém preocupada com a proteção de menores, parece-me que “Irmão” era uma
forma de tratamento totalmente apropriada para usar, em vez do habitual “Santo
Padre”.
Talvez seja hora de todos nós trabalharmos no sentido de que
formas de tratamento para os nossos sacerdotes que, embora demonstrem o devido respeito,
não sirvam, ao mesmo tempo, para minar as nossas próprias responsabilidades
como cristãos adultos.
Anne Inman, teóloga inglesa,
professora da Universidade de Notre Dame, em Londres,
em The Tablet. Tradução: Moisés Sbardelotto

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