O Papa Francisco não se opôs totalmente à ideia. Ele afirmou que não pode ordenar mulheres como diaconisas sem um fundamento histórico e teológico.
O pontífice criou uma comissão no Vaticano, em 2016, para estudar a tradição de mulheres diaconisas na Igreja Católica, por um pedido da União Internacional de Superiores Gerais. Todavia, a Comissão não conseguiu chegar a um consenso e foi-lhe dito para continuar os estudos individualmente.
Especialistas em teologia, na Índia, não estão otimistas com os resultados.
A teóloga feminista Kochurani Abraham, de Kerala disse, em entrevista por telefone, que as Escrituras apontam referências bíblicas e teológicas para mulheres diaconisas, particularmente na Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 16, na qual menciona Febe, uma mulher que serviu como diaconisa: «Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que também é diaconisa na igreja de Cêncreas: recebei-a no Senhor, de um modo digno dos santos, e assisti-a nas actividades em que precisar de vós. Pois também ela tem sido uma protectora para muitos e para mim pessoalmente» (Rm 16, 1-2).
Virigina Saldanha, de Mumbai, uma líder do Movimento de Mulheres Indianas Cristãs, questionou o porquê das mulheres não estarem prontas para serem ordenadas diaconisas.
«Porque não temos mulheres diaconisas quando a maioria das igrejas no Ocidente está a funcionar por causa de mulheres que fazem o trabalho de diáconos?» E citou o exemplo de Ludwien Mortier, uma assistente de pastoral que tem trabalhado na Paróquia Sagrada Família, em Liège, Bélgica, nas últimas duas décadas.
Mortier faz tudo o que o pároco deve fazer, exceto consagrar as hóstias e ouvir em confissão. Ela conduz funerais, liturgias eucarísticas, prepara as crianças para os sacramentos na catequese. O padre, com 80 anos, visita apenas em certas ocasiões para consagrar a Eucaristia.
As pessoas da paróquia estão felizes com o serviço de Mortier, mesmo não tendo sido ela ordenada diaconisa. Essa é uma “absoluta injustiça” contra as mulheres, diz Saldanha.
Esta pesquisa feita em 2018 pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado, na Georgetown University: https://cara.georgetown.edu/NewsRelease080218.pdf, relatou que 72 % dos superiores de ordens religiosas, femininas e masculinas, são a favor da ordenação de mulheres como diaconisas.
“As freiras estão a fazer o trabalho de diaconisas e muito mais. Com essa denominação, porém, serão mais exploradas e terão muito mais deveres sem reconhecimento», diz Virginia Saldanha.
O conceito é que, mesmo se mulheres forem ordenadas diaconisas permanentes, elas não estarão em posições de liderança ou envolvidas na tomada de decisões da Igreja, reflete Kochurani Abraham.
Por sua vez, a Dra. Astrid Lobo Gajiwala, de Mumbai, teóloga e ativista, assessora dos bispos indianos sobre a temática das mulheres e pesquisadora de ética médica, disse: «Nós não precisamos de diáconos de ambos os sexos. Isso somente levará ao clericalismo, que é um flagelo da Igreja.»
“Como diaconisas, as mulheres estariam no fundo da hierarquia e deveriam prestar contas ao clero. Isso pode ser desastroso para as mulheres, porque o serviço delas é frequentemente explorado e reduzido à servidão. O poder do espaço de trabalho aliado ao poder espiritual é uma combinação perigosa, como nós vimos em casos de abuso sexual do clero», diz Astrid.
A Irmã Rekha M. Chennattu, superiora-geral dos Religiosas da Assunção, no seu artigo “Women in the Mission of the Church – An Interpretation of John 4” [Mulheres na Missão da Igreja – Uma interpretação de João 4], afirma que «está a crescer uma consciência entre nós, hoje, de que as mulheres não recebem um lugar de direito pleno na exegese bíblica e na teologia, e na vida e missão da Igreja».
«Essa exclusão foi justificada habitualmente pelas Escrituras. É geralmente aceite que a leitura das Escrituras não é neutra, e as interpretações não são livres de pressuposições. Além disso, textos bíblicos foram ideologicamente enviesados contra as mulheres; alguns textos são traduzidos e interpretados erroneamente pelos exegetas. Assim, a Bíblia se tornou uma importante e legitimadora fonte de exclusão e alienação das mulheres da missão da Igreja.»
A mulher samaritana descrita em João 4 toma a iniciativa na missão de proclamar Jesus sem procurar a aprovação de ninguém e sem esperar a permissão de ninguém, afirma Rekha M. Chennattu.
Há paróquias onde as religiosas e paroquianas executam serviços do pároco, mas nenhuma é ordenada, afirma a Dra. Astrid Gajiwala. Jesus não ordenou padres. A teologia que sustenta a ordenação dos homens foi criada por homens ordenados no poder para «justificar e proteger o seu próprio poder sobre a Eucaristia e o perdão dos pecados e, portanto, sobre a congregação».
Curiosidade:
O Papa Sotero (166-175) escreveu aos bispos da Itália:
«Foi comunicado a esta Sé Apostólica que algumas mulheres consagradas a Deus e religiosas tomam a liberdade, nas vossas regiões, de tocar nos vasos sagrados e nas santas palas e de incensar o altar ao redor. Tal prática abusiva e digna de censura merece a rejeição de todo homem sábio.
Consequentemente, no exercício da autoridade desta Santa Sé ordenamos que essas coisas sejam radicalmente suprimidas dentro de um prazo mínimo e, a fim de que não se repitam, mandamos que quanto antes sejam banidas das vossas províncias»
(citado pelo pseudo-Isidoro, Coletânea de leis do século IV).
Afirma ainda a Dra. Astrid Gajiwala: «É ridículo estar preso a práticas patriarcais que consideravam as mulheres "pecadoras, sedutoras e cidadãos de segunda classe"», sustenta esta teóloga, que prossegue: «Uma das razões subjacentes à proibição da ordenação das mulheres é a noção de que as mulheres são impuras porque menstruam. As mulheres menstruadas não podiam aproximar-se do altar, muito menos segurar a Eucaristia.»
A Irmã Rekha M. Chennattu escreve no seu artigo: «As culturas patriarcais consideram as mulheres como psicologicamente sentimentais, intelectualmente inferiores, socialmente marginais, religiosamente impuras e culturalmente insignificantes e, portanto, incapazes de liderar.»
Talvez seja esta a premissa oculta do Vaticano para a ordenação de apenas homens como diáconos e do seu próximo Sínodo para considerar a ordenação de homens casados ao sacerdócio.
Rita Joseph, em National Catholic Reporter
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