Trago à memória um debate em que participaram Bernardino Soares (PCP, presidente da CM de Loures); Joaquim Franco (moderador); Idália Serrão (PS); José Manuel Pureza (BE); Ana Rita Bessa (CDS); e Luís Albuquerque (PSD e presidente da Câmara Municipal de Ourém).
Duas deputadas, um deputado e dois autarcas debateram na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora, em maio de 2018, o tema Religião e Política: Entre a convivência, a tensão e a indiferença. Foi o terceiro de um ciclo de debates no âmbito do projeto O Mundo na Amadora – Religiões e Culturas em Diálogo, numa parceria entre a autarquia e a Área de Ciência das Religiões da Lusófona.
A religião é como uma mochila
«A religião está sempre presente na sociedade, é como uma mochila que trazemos às costas», afirmou, a propósito, o comunista Bernardino Soares, presidente da Câmara Municipal de Loures. E assinalou que a religião aparece como produtora de ideias e de uma ética de convivência para o bem comum, ferramentas imprescindíveis da acção política. Esta, por seu lado, é o exercício de uma reflexão pragmática sobre o bem comum. Assim, é nesse terreno comum que se jogam sintonias e desentendimentos, tornando impossível a negação mútua, lembrando «não é a religião que vai resolver os problemas da humanidade, mas a política».
Em Loures houve a necessidade de criar um gabinete autárquico para Assuntos Religiosos. O concelho tem mais de 120 nacionalidades e uma das maiores, senão a maior, diversidade étnica e religiosa em Portugal. Neste contexto, o edil Bernardino Soares falou da religião como importante «instrumento da política», sendo as organizações religiosas parceiras «preciosas» para auxiliar a ação, por exemplo, nas políticas sociais.
A religião é como uma mochila
«A religião está sempre presente na sociedade, é como uma mochila que trazemos às costas», afirmou, a propósito, o comunista Bernardino Soares, presidente da Câmara Municipal de Loures. E assinalou que a religião aparece como produtora de ideias e de uma ética de convivência para o bem comum, ferramentas imprescindíveis da acção política. Esta, por seu lado, é o exercício de uma reflexão pragmática sobre o bem comum. Assim, é nesse terreno comum que se jogam sintonias e desentendimentos, tornando impossível a negação mútua, lembrando «não é a religião que vai resolver os problemas da humanidade, mas a política».
Em Loures houve a necessidade de criar um gabinete autárquico para Assuntos Religiosos. O concelho tem mais de 120 nacionalidades e uma das maiores, senão a maior, diversidade étnica e religiosa em Portugal. Neste contexto, o edil Bernardino Soares falou da religião como importante «instrumento da política», sendo as organizações religiosas parceiras «preciosas» para auxiliar a ação, por exemplo, nas políticas sociais.
Para José Manuel Pureza, o desafio das religiões também é político, pois «é o desafio da desigualdade e da discriminação». O professor universitário e deputado do Bloco de Esquerda defendeu a criação de «pontes e diálogo entre estruturas políticas e estruturas religiosas», para valorizar a «centralidade do empenhamento político» e olhar a política «como espaço virtuoso de intervenção».
Assumindo-se como católico “desalinhado”, Pureza admitiu ter um «encontro e desencontro diário entre política e fé» e levou ao debate uma pergunta que ouvia do sociólogo Alfredo Bruto da Costa, antigo governante e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja, que morreu em 2016: «Como é possível um país católico chegar ao século XXI ainda com dois milhões e meio de pobres?»
As mediações políticas para a intervenção dos crentes são variadas e estão por todo o espectro partidário, defende Pureza, para quem «não há um entendimento cristão sobre a sexualidade, ou a forma de assegurar a saúde pública ou o ensino». Há sim, defendeu, uma via de pluralidade, sublinhando o deputado os apelos do papa à participação dos cristãos na política, mas advertindo que «a pior das coisas é o sindicato dos crentes, o partido dos crentes ou a política dos crentes».
Assumindo-se como católico “desalinhado”, Pureza admitiu ter um «encontro e desencontro diário entre política e fé» e levou ao debate uma pergunta que ouvia do sociólogo Alfredo Bruto da Costa, antigo governante e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja, que morreu em 2016: «Como é possível um país católico chegar ao século XXI ainda com dois milhões e meio de pobres?»
As mediações políticas para a intervenção dos crentes são variadas e estão por todo o espectro partidário, defende Pureza, para quem «não há um entendimento cristão sobre a sexualidade, ou a forma de assegurar a saúde pública ou o ensino». Há sim, defendeu, uma via de pluralidade, sublinhando o deputado os apelos do papa à participação dos cristãos na política, mas advertindo que «a pior das coisas é o sindicato dos crentes, o partido dos crentes ou a política dos crentes».
Também Ana Rita Bessa falou da «condição de política e crente», reconhecendo ser uma relação “umas vezes com ânimo e outras vezes com dúvidas”. A deputada do CDS disse ser católica e “estar na política”, mas “fiel a uma ética de construção do bem comum, mais do que a uma moral”. Até porque, entende, a “política é o sítio mais extraordinário para cumprir o bem comum”.
Confessando-se católica, a deputada socialista Idália Serrão esclareceu não ter «uma boa relação com a Igreja, embora o balanço seja positivo». E explicou: «Oiço representantes políticos e religiosos numa tentativa de mostrarem que são o que não são, porque depois os comportamentos não correspondem às ideias». E acrescentou que religião e política não podem ser «tolerantes com o ódio e o fundamentalismo».
A laicidade foi referida por Ana Rita Bessa como um bem a defender se comparada a «uma tela branca» que pode ser o «ponto de encontro» de várias visões da política e da religião. «Vivo bem com esta laicidade, vivo mal com o extremo de uma religião que quer impor-se e com políticos que querem "apagar" o sentimento religioso», afirmou a deputada centrista.
O fenómeno de Fátima foi também levado ao debate, através do social-democrata e presidente da Câmara Municipal de Ourém. Luís Albuquerque garantiu que as relações entre a autarquia e o santuário «estão bem, mas há uma história de tensões» ocasionais. Deu o exemplo de um recente diferendo entre a autarquia e o santuário por causa de um terreno. A autarquia perdeu o caso nos tribunais e tem de pagar agora os respetivos custos.
A laicidade foi referida por Ana Rita Bessa como um bem a defender se comparada a «uma tela branca» que pode ser o «ponto de encontro» de várias visões da política e da religião. «Vivo bem com esta laicidade, vivo mal com o extremo de uma religião que quer impor-se e com políticos que querem "apagar" o sentimento religioso», afirmou a deputada centrista.
O fenómeno de Fátima foi também levado ao debate, através do social-democrata e presidente da Câmara Municipal de Ourém. Luís Albuquerque garantiu que as relações entre a autarquia e o santuário «estão bem, mas há uma história de tensões» ocasionais. Deu o exemplo de um recente diferendo entre a autarquia e o santuário por causa de um terreno. A autarquia perdeu o caso nos tribunais e tem de pagar agora os respetivos custos.
O espaço de ação dos poderes públicos locais está preservado, assegurou, e o santuário tem atuado no âmbito da sua legitimidade.
Fátima, que tem cerca de dez milhões de visitantes, é um «espaço de diversidade e liberdade, nos antípodas do radicalismo e da intolerância», representando assim uma oportunidade politicamente rica para promover «a paz e a tranquilidade com espírito aberto ao diálogo», defendeu o autarca. «Há lugar para todos», disse, revelando que o turismo local está a desenvolver estratégias de promoção da "marca" Fátima também em países e mercados turísticos de cultura religiosa não-católica, sobretudo na Ásia e América do Sul.
Alguns representantes de confissões religiosas presentes na assistência questionaram os políticos sobre a Liberdade Religiosa e a utilização de textos sagrados na narrativa política. Os oradores defenderam que os textos sagrados, por princípio, são também cultura e por isso «não são interditos» ao discurso político, desde que essa utilização não represente uma tentativa de influência no exercício do poder, podendo manipular a opinião dos crentes.
Alguns representantes de confissões religiosas presentes na assistência questionaram os políticos sobre a Liberdade Religiosa e a utilização de textos sagrados na narrativa política. Os oradores defenderam que os textos sagrados, por princípio, são também cultura e por isso «não são interditos» ao discurso político, desde que essa utilização não represente uma tentativa de influência no exercício do poder, podendo manipular a opinião dos crentes.
Já quanto à Liberdade Religiosa, foram unânimes em considerar que ela não pode ser dada como adquirida e que a Assembleia da República – que recentemente recusou uma petição que pedia a ilegalização das Testemunhas de Jeová – deveria porventura reforçar a atenção ao tema.
Num comentário conclusivo, Paulo Mendes Pinto reafirmou a «importância vital» das religiões no espaço da cidadania. O coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona lamentou que a Assembleia da República não seja o reflexo, na sua composição, «da diversidade religiosa e étnica da sociedade portuguesa».
Joaquim Franco, em Religionline.blogspot.com

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