A gratidão é a mais agradável das virtudes, é a memória do coração - comentário ao Evangelho da cura dos dez leprosos
No Evangelho segundo São Lucas, no relato da cura dos dez leprosos (Lucas 17, 11-19), há uma pedagogia em cinco passos para a nossa oração:
1. Apresentação da situação - neste caso, a enfermidade: «Dez leprosos foram ao encontro de Jesus.»;
2. Petição - neste episódio, da cura. Eles disseram: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!»;
3. Intervenção de Jesus, que lhes diz: «Ide e mostrai-vos aos sacerdotes.» Estas palavras significam duas coisas. Uma é cumprir o que é dito pela Palavra de Deus, segundo a qual era o sacerdote que devia verificar a cura e dar o atestado de pureza (livro do Levítico 14, 1-32). A outra, é que os leprosos deviam ter fé e agir em consonância. Eles devem ir ao sacerdote como se já estivessem curados, quando, na realidade, o corpo deles continuava coberto de lepra. No Reino de Deus, quem crê move-se, não fica parado. E a fé não move Deus, mas quem a tem.
4. Acontece a graça pedida, a cura neste caso: «Enquanto iam a caminho, ficaram purificados»).
5. Reação perante o milagre. Jesus dá ênfase à gratidão, demonstrando o paradoxo de que esta virtude não é uma característica da maioria: Dos dez curados, apenas um voltou para agradecer. Esse é, precisamente, um desafio para o ser humano geralmente marcado pelo orgulho e pela dificuldade de reconhecer os benefícios que lhes são dados (orgulho e ingratidão caminham juntos).
A virtude da gratidão
Viver como agradecidos é reconhecer que tudo é dom, que nada nos é devido, que tudo parte de um Deus Misericórdia, e reconhecer que só podemos viver diante d’Ele dando-lhe graças. Isto provoca um modo novo de nos situar não só diante de Deus, mas também diante dos outros e de nós mesmos.
Na experiência bíblica, a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações humildes, para quem a gratidão não pode ser só sentida, mas precisa de ser demonstrada. No Evangelho, não há dúvida que todos tinham fé, pois puderam-se a caminho, e todos estavam gratos. Todavia, apenas um se preocupou em demonstrar a sua gratidão de maneira concreta.
A gratidão abre a porta para bênçãos e milagres maiores. Os nove que não agradeceram, poder-se-á dizer, receberam apenas a cura física, mas o que voltou recebeu a cura integral. Os outros seguiram pela vida limpos do lado de fora, e leprosos por dentro.
Ora, a gratidão é uma atitude fundamental para a integridade, para a maturidade. Constata-se que as pessoas agradecidas apreciam as pequenas satisfações e prazeres que costumam estar ao alcance de todos, e que muitos não percebem.
«A gratidão é a lente que amplia nossa visão da felicidade», enunciou Paulo Valzacchi, biomédico, especialista em saúde emocional.
Uma pessoa ingrata é uma pessoa doente, incapaz de reconhecer-se cercada de tantos dons e cuidados.
A partir desta leitura e da frase de Jesus «Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?», Santo Inácio de Loyola afirmou: «A ingratidão é o maior de todos os pecados.»
Para meditar na oração:
- Fazer memória de tantos dons e bens recebidos, e deixar brotar naturalmente do interior, o desejo de uma resposta generosa e radical o Deus que é Fonte de tudo.

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