Afirmação do único sacerdote indígena no Sínodo: «Eu deixaria o sacerdócio se entendesse que o celibato não serve mais para mim»


«Eu deixaria o sacerdócio se um dia entendesse que o celibato não serve mais para mim.» Quem o diz é o padre Justino Sarmento Rezende, o único sacerdote indígena no Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia em curso no Vaticano.  E acrescenta: «Eu penso que seja possível vivê-lo quando uma pessoa decide voluntariamente.»

Embora favorável à questão dos viri probati, como solução para a falta de padres em áreas remotas da floresta, o padre brasileiro da etnia tuyuca, especialista em espiritualidade indígena e pastoral inculturada, durante o resumo diário sobre os trabalhos sinodais refutou indiretamente as afirmações dos últimos dias do bispo austro-brasileiro Erwin Kräutler. «Não há outra possibilidade» que não os padres casados na Amazónia, afirmava o prelado emérito do Xingu, «os povos indígenas não entendem o celibato».

Como orador, o padre Justino abordou o celibato não como algo natural, mas porque é «dom de Deus», exige atitude, para «ser vivido em oração e com esforço».

«O celibato não nasceu com a pessoa humana», disse ele. «Ninguém entre nós está preparado para viver o celibato, mas estamos a falar de um dom de Deus. Eu penso que seja possível vivê-lo quando uma pessoa decide voluntariamente. É uma virtude que pode ser vivida por qualquer pessoa. Mas é necessário um esforço, porque estamos a falar de um dom de Deus. Se chegar um dia em que eu entender que o celibato não serve mais para mim, eu deixaria o sacerdócio.».

Questionado sobre isso, o padre Sarmento também contou como a sua vocação nasceu há cerca de trinta anos, quando ouvia os missionários europeus a ensinar em português o catecismo aos seus avós analfabetos: «Quando era adolescente, pensei que poderia tornar-me sacerdote e ensinar tais coisas na minha língua.»

Ao bispo, que pedia jovens padres para um novo seminário na sua terra, Justino, juntamente com outros quatro rapazes, expressou esse desejo, recebendo, no entanto, uma resposta cortante: «Não é para vocês, vão jogar futebol.»

Essa era a atitude da Igreja em relação às populações nativas na década de 1970.

«Em 1980, a Igreja começou a entender que nós indígenas evangelizados podemos ser evangelizadores. E eu sou padre há 25 anos», diz o sacerdote indígena.

A mãe de Justino chorou copiosamente com o anúncio da sua entrada no seminário: «Ela sonhava com netos. Ficou muito triste com a minha escolha. Para ela, os únicos aptos a serem padres na época eram os brancos. Até eu pensava o mesmo...» E também o avô, que lhe dizia que o celibato não era coisa de índios.

O padre Justino hoje, no sínodo, testemunha o contrário e é um exemplo de uma Igreja inculturada como aquela defendida pelo Papa Francisco e por muitos dos participantes da assembleia: «Um Evangelho que se incarna nas histórias e culturas dos povos torna-se algo interno. Nós somos Igreja, a Igreja não está fora de nós», disse ele.

As modalidades com que implementar esse trabalho de inculturação seguem o conceito básico expresso por Bento XVI e frequentemente citado por Francisco: «Não se evangeliza por proselitismo, mas por atração.»
É esse o ponto, afirmou o outro orador no resumo diário, Monsenhor Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (Brasil): «A inculturação respeita o processo de ambos os lados, a nossa ideia não é anular a cultura do outro, mas preservar sementes presentes em cada cultura. Esse compromisso não significa que a outra pessoa se torne um índio, mas que continue a permanecer uma pessoa do seu povo, mas recebendo a mensagem de Jesus Cristo, as boas novas.»

Salvatore Cernuzio, em LaStampa. Tradução: Luisa Rabolini

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