«As diferenças de sensibilidade na Igreja nunca foram um problema. São uma riqueza» Entrevista a D. Tolentino Mendonça
É o quinto cardeal português e o terceiro eleitor, mas
Tolentino Mendonça vê-se como “mais um trabalhador” no colégio cardinalício.
“Não é uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo”.
“Aquilo que a igreja espera de mim com o cardinalato é um
recomeço”
Este sábado, D. Tolentino Mendonça é feito cardeal. Aos 53
anos, o arcebispo madeirense que o ano passado foi nomeado arquivista e
bibliotecário da Santa Sé torna-se um dos mais jovens do colégio cardinalício.
Em entrevista à Renascença, na residência onde vive em Roma, disse que na forma
de ser do Papa Francisco “há uma pulsão nítida do evangelho” e sublinhou que na
Igreja “o mais importante é convergir no essencial”
Consigo, Portugal passou a ter cinco cardeais, três deles
eleitores. Portugal fica em contracorrente num colégio cardinalício onde o Papa
tem reforçado a presença de cardeais não europeus?
Essas contabilidades são uma visão desinteressante do que é,
por exemplo, o ato da escolha de um Papa. O que é que um cardeal eleitor pode
fazer? Tem de escutar a sensibilidade da igreja. Tem de se abrir ao espírito
santo. Tem de fazer uma auscultação profunda do que são as necessidades. Não é
uma questão de peso político, de fazer lobby por isto ou por aquilo. É uma
coisa muito mais profunda e muito mais séria e comprometedora que é no fundo
descobrir aquilo que nos Atos dos Apóstolos é bem claro: o protagonista da
igreja em cada tempo é o espírito santo. Não são os homens. É o espírito santo
que conduz a igreja. E isso o que é que pede de nós? Uma humildade muito
grande, um desapego grande, uma capacidade de ler os sinais dos tempos, uma
capacidade de ouvir, uma dimensão comunitária da vida da igreja. Para mim um
dos mais belos elogios que se pode fazer a alguém é dizer que aquela pessoa é
mais um. É mais um trabalhador, mais um escritor, mais um filho, é mais um pai,
é mais um. É essa beleza da vida comum que pode ser o sal da terra, que pode
ser o fermento. Caso contrário, o perigo do mundanismo de que fala o Papa
Francisco torna-se de facto uma ameaça muito grande e contamina se as nossas
contabilidades se deixam levar por outros critérios.
A revolução de Francisco de que tanto se falou no início do
seu pontificado está em marcha?
Não sei se ele começou uma revolução. Ele começou um
ministério, uma missão de conduzir os irmãos, de manter a unidade, de ser o elo
de ligação, de ter múnus, de ter o poder de conduzir e de iluminar a igreja.
Isso não há dúvida que o Papa Francisco tem feito com um sentido de entrega
extraordinária. Ver como este homem se gasta, como ele procura à sua maneira,
porque cada um tem a sua maneira é belo. Na sua forma de ser, de estar, de
conduzir a igreja, de a abraçar, há uma pulsão do evangelho tão nítida, que
penso que a igreja do nosso tempo tem de estar muito grata a Deus por este
Pedro que lhe deu que é o Papa Francisco.
Nesse sentido pode dizer-se que é belo o Papa falar de um
risco de cisma referindo-se aos críticos?
O Papa disse que não tinha medo que é uma coisa diferente.
Um pai não tem medo. O que se espera de um pai ou de um guia é que ele não
tenha medo. É essa confiança que nos mantém unidos, mesmo no meio das
dificuldades, das incertezas, porque este momento da história é de enorme
transformação. No meio disto tudo, manter a confiança é uma coisa muito, muito
importante. O Papa Francisco é alguém que de facto inspira confiança. Quanto ao
resto ele é muito claro e repetindo as palavras de Jesus pede que todos sejam
um. A Igreja tem dois mil anos de história. É uma comunidade muito polifónica,
com sensibilidades espirituais muito diferentes. As diferenças de sensibilidade
nunca foram um problema. São uma riqueza, uma expressão pneumática da natureza
da igreja, da expressão do espírito santo. O importante é convergir naquilo que
é essencial sabendo que a igreja se mantém unida à volta de Pedro.
O Presidente da República convidou-o para presidir às
comemorações do 10 de Junho no próximo ano. Mais do que a pensar no que vai
dizer, já começou a fazer poesia sobre isso?
Como imagina estes últimos meses têm sido de uma intensidade
tão grande. Ainda tem de passar o Outono, o Inverno, a Primavera. Até lá há-de
surgir-me o fio essencial das palavras. Fiquei muito comovido com o convite
porque, no fundo, a tradição portuguesa é convidar um cidadão a tomar a palavra
e a falar aos outros concidadãos. Isso é um gesto democrático muito
significativo e que nos ajuda a criar coesão.
Falando de democracia, estamos em vésperas de eleições.
Gostava de ver mais cristãos empenhados na causa comum?
As eleições são um momento muito belo, muito vital da
democracia. É um momento de construção da vida comum. O importante é a participação
de todos na construção do país. Aí penso que os cristãos não podem ficar
ausentes. Têm de contribuir. Não podem estar ausentes na vida pública, na
participação política. Isso é muito importante. Percebe-se que hoje há uma
perceção de que não se pode simplesmente delegar nas mãos de outros o nosso
interesse pela causa pública, pela construção da história, pelo futuro da
humanidade. Uma certa crise da democracia, que é no fundo a escassa
participação dos cidadãos, vai ser superada, porque as gerações mais novas dão
todos os sinais de um empenho muito maior e isso há-de ter um reflexo da
participação dos cristãos no espectro democrático.
Texto e foto: Ana Catarina André, Rádio Renascença, 4 outubro 2019

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