Comoveu muito ver o Papa Francisco chorar. Chorou no momento em que fazia cardeal a D. Sigitas Tamkevicius, arcebispo de Kaunas (segunda maior cidade da Lituânia), que foi feito prisioneiro pelo regime comunista, enviado para um gulag (campo de concentração) e condenado a trabalhos forçados. A sua culpa era a de ser cristão e defender a liberdade contra a opressão de um regime injusto.
Não é novo vermos o Papa Francisco chorar. Sobretudo quando está perante situações de sofrimento humano. Chorou em Santa Marta por um grupo de cristãos que tinham sido crucificados, chorou pelos rohingyas quando esteve de visita a Myanmar, chorou perante as vítimas de abuso sexual...
Estas são as lágrimas que vimos e cujos motivos conhecemos. Quantas lágrimas chorará silenciosamente o papa, pelo mundo e pela Igreja, sem que as conheçamos.
Decidamo-nos a rezar pelo papa.
P.e Hugo Gonçalves, do patriarcado de Lisboa
As lágrimas de Francisco
As lágrimas de Francisco são o preço da fidelidade ao
Evangelho, que requer entrega corajosa para remar contra a corrente. Quem chora
neste caso leva uma vida de sobressalto abalada quotidianamente por quem não se
interessa com o Evangelho e o exemplo sofrido do Mestre, mas com a vida da
chocadeira das mordomias que os tachos, os cargos, os títulos, o poder sempre
conferem.
As lágrimas de Francisco são o sinal das chagas da alma, que
a teimosia dos perseguidores que se matam pela forma e não pelo conteúdo. Não
querem saber das vítimas injustiçadas deste mundo desigual, antes preferem a
mentira das fachadas requintadas pelo ouro comprado com o sangue dos indefesos.
O Papa chora por causa deste mundo cruel, desumanizado,
carregado de violência contra a vida inteira. E que a sua/nossa Igreja tantas
vezes assobia para o lado.
As lágrimas do Papa refletem todo o sofrimento de um ancião
que aceitou carregar a cruz de uma Igreja Católica cada vez mais remetida para
dentro de si mesma. Parece preferir ser para sempre imutável, pois, cheia de
si, despreza singelamente o pulsar da constante novidade que o Espírito de Deus
não para de fazer germinar na vida multicolorida da humanidade.
As lágrimas de Francisco são o sinal fortíssimo de alguém
que sente o peso da Cruz, quando podia estar sossegado no eldorado da sua
reforma como fazem a maioria dos altos dignatários da Igreja.
Ele chora as suas derrotas, os insucessos porque a teimosia
gelou os corações da maioria, que se organiza em grupos de guerrilheiros para
minarem, achincalhar e destruíram a abertura das portas e janelas da Igreja
Católica aos pobres, aos refugiados, aos habitantes da Amazónia, aos
divorciamos, aos recasados, aos sacerdotes proscritos e a todos os que estão
nas periferias do mundo.
O Papa chora por cada um de nós, que diante da verdade
preferimos o engano e a mentira porque é mais cómodo. A conversão constante dá
trabalho e lança-nos no caminho da ação, por isso, estar quieto e contentar-se
com o que há é suficiente. As lágrimas deste ancião valem mais do que todos os
discursos do mundo. É o sinal do grito/alerta para a transformação da vida,
porque o tempo e o modo da nossa existência gemem agoniados por cura e
salvação.
Padre José Luís Rodrigues, em https://funchalnoticias.net

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