Contributo para repensar a relação da Igreja com o corpo e com a sexualidade, as noções de vocação e santidade, o processo formativo

Presbíteros casados: qual é o problema? Precisamos de repensar a relação da Igreja com o corpo e com a sexualidade, as noções de vocação e santidade, o processo formativo. E os católicos não consideram os presbíteros mais santos por serem celibatários.

E se os presbíteros não fossem celibatários, o que mudaria para o povo? Substancialmente, nada. Há uma polémica grande entre os mais “igrejeiros” sobre a ordenação de casados, mas que é simplesmente desnecessária. As questões abalam mais aos apegados às tradições do que àqueles que conhecem a Tradição da Igreja, mais entre os piegas da instituição do que aos de fé católica autêntica.

Primeiro, vamos à realidade. As pessoas mais acostumadas à vida paroquial e de instituições ligadas à Igreja sabem separar bem a vida do clero da fé da Igreja. Elas conhecem quem são os presbíteros que guardam o celibato e os que têm casos (esporádicos ou fixos), inclusive os que têm mulher e filhos. Sim! Parece chocante, mas não para quem está na Igreja.

Lembro-me bem de um excelente padre que mantinha um relacionamento de longa data com a secretária de uma instituição de certa diocese. Ele trabalhava bem e feliz. Aliás, ela era muito rígida e o cobrava para que desempenhasse seu bom serviço. Todos os que eram mais próximos sabiam. Ninguém comentava o caso, só a excelência de ambos: disponíveis aos demais, disciplinados em seus compromissos, honestos em relação ao dinheiro.

As pessoas de fé separam bem o ministério ordenado dos pecados do ministro, sabem que a graça pressupõe, mas supera a natureza. Não é o padre, nas suas limitações que absolve pecados, mas Deus, tendo aquele homem como instrumento. A força dos sacramentos não diminui para os fiéis. Só os que estão no início de caminhada se espantam com algo, mas logo compreendem que nada altera na sua experiência de fé.

Está, inclusive, no imaginário popular a ideia de que os presbíteros não conseguem guardar totalmente a continência sexual que lhes é pedida. E ninguém deixa de ir à Igreja por isso, embora também se saiba que há inúmeros outros que não se envolvam com ninguém – e nem por isso são melhores ou piores. Além do mais, perdoa-se facilmente o sexo dos presbíteros, mas não corrupção. Comunidade alguma aceita desvio de dinheiro ou abuso de consciência. Pergunte-se às “beatas” da comunidade. Elas contarão tudo e de como protegem os seus presbíteros, vulneráveis afetivamente, de homens e mulheres que querem aproveitar-se de suas carências.

Se essas coisas são sabidas no interior da Igreja, onde está o problema? É que nela, ainda, vale muito o como um aparenta. Até pode fazer coisas não permitidas, mas deve manter a postura. Grande parte dos formadores sabem disso e aprovam ou demitem vocações com base nisso, na capacidade de alguém representar bem. Quer dizer que ninguém acredita no celibato? Não. O celibato é visto como valor sim e muitos tentam vive-lo porque assim se sentem chamados.

Em tese, a castidade é vivida de duas formas. No celibato, abre-se mão de um amor exclusivo para amar mais e estar livre para o serviço dos demais. No matrimónio, a castidade se manifesta no amor por uma pessoa que lhe abre ao amor e serviço do próximo. E aí é que está, de facto, o cerne da questão: o que abre mais uma pessoa ao amor, renunciar ou viver a intimidade com alguém? Isso tem que ver com a vida, a espiritualidade, a psique, a história de cada vocacionado. Outra coisa é o modo com o qual a pessoa se sente chamada a servir. Assim, celibato e presbiterado são duas vocações que podem encontrar-se ou não na mesma pessoa.

Alguém pode sentir-se chamado a ser presbítero, mas não celibatário. Outros sentem-se chamados ao celibato e não ao presbiterado, como acontece às freiras e aos irmãos religiosos que não se ordenam. Entretanto, a continência sexual passou a vir no «pacote» da ordenação e, por isso, o indivíduo tem de escolher o que lhe é mais crucial. Se opta por ser presbítero, deverá fazer um esforço para dar valor a algo que é obrigado a viver. Caso contrário, deverá assumir a expressão comum na boca de formadores de seminário: «És livre para viver o que aqui se manda ou para ir embora. Ninguém te obriga a ficar aqui» – uma redução simplista, marcada pela falta de argumentos convincentes, aplicada geralmente para imposição da própria vontade sobre o formando. Ou obedece ou sai.

É aí que entram os “escondidos” na formação presbiteral. No processo de incorporar um modo de proceder, o seminarista não tem no formador uma ajuda, mas alguém que vai aprová-lo ou reprová-lo. Importa mais responder à equipa de formação no seu imaginário vocacional do que resolver as próprias questões. Muitos seminaristas lutam bravamente pela sua integração psicoafetiva, apesar das estruturas neuróticas e neurotizantes em que alguns vivem. Sim, há instituições saudáveis e bons formadores, mas há muitos problemáticos. Pergunte-se aos bispos que exercem o cuidado pastoral dos formandos como é difícil nomear alguém para a reitoria dos seminários.

Um desafio encontra-se na concepção da santidade, algo que todos os cristão são chamados a viver. Essa, que deveria ser entendida como uma consagração da vida à Deus, dada no seguimento de Jesus, costuma ser confundida e lida dentro de categorias não cristãs. O dualismo que separa corpo e espírito fez imaginar tudo o que é carnal como sendo pecaminoso e mal. Assim, a santidade seria um desapego das realidades do mundo e um apego ao etéreo céu. Quem assim pensa não entendeu o que é ressurreição da carne, nem a bem-aventurança que promete a Terra como herança.

Com o Sínodo da Amazónia trouxe a expectativa de que homens casados possam ser presbíteros. Entretanto, precisamos de repensar a relação da Igreja com o corpo e com a sexualidade, as noções de vocação e santidade, o processo formativo. Ainda surgirão questões de ordem prática como as dos que deixaram o presbiterado para casar. Se casados podem ser presbíteros, porquê os que se casaram não poderiam voltar a exercer o ministério? Como seria a relação da Igreja com as mulheres e filhos dos presbíteros? E a mobilidade numa diocese? Apesar de tudo isso, o povo de Deus já está pronto para as mudanças.

Gilmar Pereira, em https://domtotal.com
mestre em Comunicação e Semiótica,
graduado em Filosofia e Teologia, professor de oratória,
mestre de cerimónias e fotógrafo

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