Na reflexão da semana passada - ver O Celibato Sacerdotal, partilhei convosco a
preocupação sobre a carência de sacerdotes para celebrarem a Eucaristia. Sem a
Eucaristia, não existe a Igreja. Cristo é quem nos congrega; quem nos chama;
quem nos alimenta; quem nos salva.
A Igreja Latina tem no celibato sacerdotal a sua marca
distintiva. Porém, também aludi que a Igreja Católica tem sacerdotes casados.
Hoje gostaria de explicar melhor esta questão.
Quando falamos de "padres casados", não nos
estamos a referir a que os padres possam casar, mas sim, a homens casados que
podem aceder ao Sacramento da Ordem.
A Igreja Católica é atualmente constituída por 24 Igrejas
autónomas “sui juris”. Todas são consideradas Igrejas “sui juris”, ou seja, são
autónomas para legislar de modo independente no que diz respeito ao seu rito e
á sua disciplina, mas não no que diz respeito aos dogmas, que são universais e
comuns a todas elas e garantem a sua unidade de fé, formando na essência, uma
única Igreja Católica obediente ao Santo Padre, que a todas preside na
caridade.
No Ocidente é muito comum, confundir a Igreja Católica com o
rito latino, um erro que já prejudicou os católicos de ritos orientais. O que é
preciso entender é que todos os católicos latinos são, obviamente, católicos;
mas nem todos os católicos são católicos latinos. E esta é mais uma das
tantíssimas riquezas do infinito tesouro da Igreja que é Una, Santa, Católica e
Apostólica.
Ora, só no rito latino é que os candidatos ao sacerdócio têm
que ser celibatários. Nos ritos orientais não. nestes, sempre se conservou a
possibilidade de homens casados acederem a este sacramento, exigindo ou não ao
longo dos séculos, a abstinência sexual depois de ordenados.
No rito latino, foi a partir do Concílio de Elvira, na
Espanha meridional (306) que apareceu pela primeira vez (pelo menos até agora
conhecido) um documento legislativo que prevê a abstinência dos ministros
sagrados sob pena de lhes ser retirado o exercício do ministério (Cânone 33).O
III Concílio de Latrão (1179) estabelece que o celibato eclesiástico não é de
natureza divina, mas apenas canónica, isto é, representa uma tradição que
pertence à disciplina da Igreja latina. Mas só no Concílio de Trento (1545-1563)
é que esta norma disciplinar foi imposta. Se é norma, é suscetível de
alteração.
Um dos textos fundamentais do magistério sobre o celibato
sacerdotal é a Encíclica do Papa Paulo VI, "Sacerdotalis Caelibatus"
de 1967 onde dá destaque ao significado escatológico do mesmo. Podem conferir
no n. 34. Porém, é este mesmo Papa que concedeu ao franciscano Carlo Travaglino
uma dispensa especial para poder casar, mantendo o múnus sacerdotal. É o único
caso que conheço de alguém sendo já sacerdote, pôde casar.
Carlo Travaglino conheceu Franca e partilhou com ela o
desejo de servir os leprosos na Eritreia: ler Il gigante della carità. Amava esta mulher e queria casar com
ela, mas sem renunciar aos sacerdócio missionário. O seu bispo, o cardeal Ursi,
percebendo aquela vontade, falou com o Papa Paulo VI, que depois de ter
refletido, concedeu essa dispensa especial. Carlo e Franca viveram uma vida
bela e plena, criando uma rede de solidariedade que construiu dispensários e
hospitais para curar estas pessoas, pobres e marginalizadas. O amor deste casal
nunca sufocou o amor ao próximo.
O meu objetivo não é defender o fim do celibato, mas o de
ajudar as pessoas de rito latino a perceberem que a catolicidade é muito maior
do que aquilo que vemos na nossa realidade. Além disso, o celibato foi, é e
continuará a ser um grande dom de Deus à Igreja e à humanidade. Não está em
causa essa opção radical pelos outros. E todos conhecemos os maravilhosos
testemunhos dados por tantos sacerdotes Diocesanos, das Ordens, Congregações e
Institutos de Vida Consagrada.
«Ele acrescentou. "Nem todos são capazes de compreender
essa palavra, mas só aqueles a quem é concedido. Com efeito, há eunucos que
nasceram assim desde o ventre materno. E há eunucos que foram feitos eunucos
pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus.
Quem tiver capacidade para compreender, compreenda."» (Mateus 19, 11-12)
Vale a pena pensar nisto!
Paulo J. A. Victória, professor e cronista em iMissio


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