Alejandro Labaka Ugarte (1920-1987; mártir da Amazónia),
e com um amigo passionista, missionário na Amazónia durante 40 anos,
sem "batizar" para uma Igreja de "poder externo", mas antes
aprendendo com os "sábios" do grande rio (deixando-se batizar por
eles),
dizia-me que uma Igreja que vem para a Amazónia
com rituais, vestes, poderes e pecados de imposição colonial, com vinte séculos
de cristianismo dominador, não tem o direito de batizar e impor-se na Amazónia.
Dizia-me já então (por volta de 1998) que o problema não era converter a Amazónia, mas sim Roma... Roma
não pode impor uma lei à Amazónia, mas apenas oferecer o evangelho encarnado de
Jesus... Pelo contrário, a Amazónia pode e deve oferecer suas novas
águas de cultura originária a Roma.
Labaka,
capuchinho e bispo na Amazónia, natural de Beizama, morreu mártir do seu intento,
assassinado (direta ou indiretamente) pelas multinacionais do progresso
petroleiro que mata as pessoas.
O meu
amigo passionista de Ezkio morreu sem ver realizado o desejo do
evangelho. Ele dizia-me: "Vão matar a Amazónia, e morrerá com ela o ser
humano, o último amanhecer do Evangelho". Com os últimos rios limpos da Amazónia,
quando suas últimas florestas forem derrubadas para o Capital, a humanidade se
suicidará, restando apenas um dinheiro de morte.
O meu
amigo de Ezkio era pessimista, mas as coisas podem estar a mudar, com o
Papa Francisco e com o Sínodo, se mudar o atual paradigma anti-ecológico, e se
a Igreja voltar ao seu princípio do Sermão da Montanha, a partir deste “novo
Jordão” da Amazónia, o coração do
continente sul-americano, com terras e povos repartidos por vários estados
coloniais, do Brasil ao Peru, do Equador à Bolívia, etc.
Nessa
linha, as notícias que vêm do Sínodo são consoladoras (sem deixar de ser
inquietantes, pela rejeição que causam em alguns lugares); nessa
linha, elas podem marcar o início de uma nova visão do catolicismo (isto é, da
real universalidade da Igreja), mas também podem marcar o triunfo (pelo menos
temporário) da Igreja do poder, aliada com o imperialismo ontológico grego, com
o feudalismo germânico, com o capitalismo ilustrado, a partir de um
clericalismo que se crê "o messias de Deus".
Seja como for, este Sínodo propõe, pela primeira vez em mais de dez séculos, desde a chamada
"reforma gregoriana", uns temas em que se joga não só a vida da
Igreja, mas o caminho da nova humanidade.
Um
decálogo do Sínodo para a Amazónia
1.
Trata-se de retornar ao Jesus da Galileia, que vem do rio
Jordão, sem templos como o de Jerusalém,
sem estruturas sacerdotais, sem diferença hierárquica de homens e mulheres,
o Jesus da vida, da cura dos enfermos e excluídos, de reino.
2. Trata-se de superar o Jesus da ontologia helenista, que acabou por ser um Jesus
da grande racionalidade impositiva, da verdade que se demonstra e se prova com
argumentos de “gente superior”, contrariamente aos bárbaros (como seriam os
habitantes da Amazónia)... Trata-se de retornar ao Jesus de Gálatas 3, 28, onde
não há judeus nem gregos, nem livres e escravos, nem homens e mulheres, mas a
humanidade aberta à admiração e à busca do amor em liberdade.
3. Trata-se de superar o Jesus romano do império religioso, que começa por
estabelecer-se em fraternidade, mas depois se impõe com poder. Trata-se de
vencer o Jesus hierárquico (contrário a Filipenses 2, 6 e 11), o Jesus feudal
que ensina e impõe de cima, numa Igreja que acaba a colonizar os povos em vez
de abrir com e para eles espaços de liberdade fraterna.
4. Trata-se de superar uma loucura progressista do poder que cria
bombas atómicas, mas destrói a terra, o húmus ou substrato da vida. A Amazónia
é sinal de sustentabilidade humana, em equilíbrio com a natureza, o ar, o rio,
os animais... Não se trata de nos tornarmos todos Amazónia no sentido externo,
mas que aprendamos com a Amazónia, renunciando a um tipo de progresso que leva
ao inferno da morte ecológica, da destruição do sistema de vida da Terra. Nesse
sentido, a Amazónia tem mais verdade do que a filosofia do lógos-poder da
Grécia e que o direito do império hierárquico de Roma.
5. Trata-se de aceitar a vida com a sua fraqueza, com a sua fragilidade ... mas nas
mãos da Grande Vida, do Deus Vivo, em linha de comunhão com a terra, de
comunicação em amor de uns com os outros. Não se trata de retornar às pequenas
tribos, muitas vezes em guerra, mas à comunicação fraterna e amorosa, de homens
e mulheres, em comunhão de vida, com a terra/divina da qual nascemos, com a
Terra que nos abre à Ressurreição, que é a fraternidade de todos os que vivem
no Deus em que vivemos, nos movemos e existimos.
6. Trata-se de superar o celibato de poder dos clérigos,
vinculado à hierarquia estamental de homens e mulheres que se crêem/sentem
superiores por renunciar a um tipo de sexo. Esse celibato do poder é uma
perversão do celibato pelo reino que Jesus admite em Mateus 29, celibato que
vincula os homens e mulheres que o aceitam com os menos favorecidos do mundo,
com um tipo de eunucos [?! sic no
texto original]. Esse celibato, imposto como sinal de poder para certos
hierarcas eclesiásticos tem sido uma das desgraças eclesiais, e deve ser
superado em toda a Igreja, a começar pela Amazónia.
7. Trata-se de superar um tipo de unidade/uniformidade da Igreja, na linha de
poder romano-feudal, vinculada até agora à cultura/poder dominante, na
linha de colonização religiosa. No espelho da Amazónia, a Igreja descobre os
valores, mas também os grandes riscos de uma missão colonizadora, na linha da
extensão dos impérios coloniais (de Portugal e Espanha, de Holanda, Inglaterra,
França, EUA, etc.). Uma Igreja colonizadora não é cristã. Colonizar a Amazónia...
significaria destruir um dos últimos remanescentes de humanidade autónoma,
apelando para isso a um progresso que é anti-cristão.
8. Trata-se de aceitar a constituição de Igrejas autónomas e
distintas, que podem, e na minha opinião "deveriam", permanecer em
unidade católica, com Roma e com o resto das Igrejas... Pois bem, nessa linha, a que mais deve
mudar é Roma, com a sua estrutura de poder religioso, que quer ter tudo
amarrado e bem amarrado ao seu poder (mas não ao evangelho, que não amarra, mas
liberta povos e pessoas).
9. A partir desse fundamento, de acordo
com ele, o centro da Igreja não está em
Roma com a sua “cúria” (que é a casa do kyrios,
que aqui não é Jesus, mas um tipo de papa-imperador), pois não há outro centro
que Cristo e os pobres. Assim sendo, é mais centro da Igreja a Amazónica do
que Roma, porque o centro está na periferia... Dito isto, a partir da Amazónia
(dos pobres e vencidos) poderemos buscar uma Igreja em Unidade, onde Roma (a antiga ou a nova) , possa ser
sinal de primazia do amor, como dizia Inácio de Antioquia na sua carta aos
Romanos, o mais alto documento do que se poderia chamar de "primado do
amor", que é o próprio de Roma (um primado que ratifica a primazia dos
pobres e humilhados da terra, não para continuar a mergulhá-los na sua
humilhação, mas para ascender com eles, a partir deles, ao encontro de amor
universal, do Deus de Jesus, que se revela assim Todo em Todos (Romanos 15, 28)
10. Nesse sentido, é preciso dizer good
bye Roma ou, de uma maneira mais tradicional e eclesial, arrivederci
Roma, um adeus que não é para negar ou romper, mas para que em Roma as
coisas corram bem (mudando muito, mas não para que tudo continue igual, como
dizia M. de Lampedusa, no ‘Gatopardo’),
mas para que todos possamos encontrar com ela novos vínculos de unidade na
diversidade (para assim nos vermos novamente, arrivederci), dentro de um mundo entrelaçado, onde a água e o ar, a
saúde e a liberdade são fundamentais para o ser cristão, na esperança da
ressurreição. Arrivederci, nos vemos,
nos olhamos, nos amamos... da Amazónia.
Xavier Pikaza, em religiondigital.org

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