As mais importantes exigências do Cristianismo em âmbito político

A propósito de mais um Dia Mundial do Pobre instituído por Papa Francisco, recordo mais uma vez o que Giorgio La Pira escreveu durante o seu tempo de refugiado de guerra na cidade de Roma, um texto intitulado «A nossa vocação social» [“La nostra vocazione sociale”, publicado em 1945] e onde se pode ler o seguinte:

«Ninguém diga aquela conhecida frase segundo a qual a política é uma coisa muito feia! Não: o empenho político, ou seja, o empenho direto na construção cristãmente inspirada da sociedade em todos os seus aspetos e ordenamentos, a começar pelo económico, constitui um empenho de humanidade e de santidade: trata-se de um empenho em que tudo se orienta em função dos esforços de uma vida toda tecida de oração, de meditação, de prudência, de fortaleza, de justiça e de caridade.»

Infelizmente, todos sabemos do descrédito em que a política, tragicamente, tem vindo a cair, na Europa e não só. Contudo, julgo que a “moda” de fazer da política apenas coisa feia, ou simplesmente suja, como tantas vezes ao cidadão impotente é dado ver, é coisa a que os cristãos não podem deixar de, por todos os meios possíveis, resistir.

De facto, e com Giorgio La Pira o digo, uma das mais importantes exigências do Cristianismo em âmbito político passa pela tarefa, hoje talvez mais urgente do que nunca, de proceder à construção “cristãmente inspirada” da sociedade em todas as suas esferas e dimensões, a começar pela económica; de facto, o empenho do político, homem ou mulher, na sociedade não deveria ser caracterizado por nada que colida com a “humanidade” e a “santidade”, pelo que, escreve o Prof. La Pira, a vida política não pode senão fazer convergir em si os “esforços de uma vida toda ela tecida de oração, de meditação, de coragem, de justiça e de caridade”.

Giorgio La Pira deixou este mundo em a 5 de novembro de 1977, mas o seu exemplo continua a ser de grande atualidade. Na verdade, o mundo continua a ter urgência de homens e mulheres que afrontem o debate e o trabalho político não primariamente movidos pelos seus interesses, ou os interesses dos grupos que representam, mas sim pelo sentido de uma vocação de integridade e de serviço, de dedicação ao Bem Comum e de esforço pela transformação da sociedade num todo assinalado por progresso humano, pela decência e pela paz.

Mais do que nunca, os agentes da vida política, hoje mais do que nunca, precisam de ser sérios e competentes, honestos e rigorosos, não-indiferentes ao que acontece na vida dos outros, especialmente no que toca às inevitáveis consequências de toda e qualquer política levada a cabo na esfera económica.

João Vila-Chã, professor na Universidade Gregoriana,

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