Realizou-se um encontro de reflexão na biblioteca da
Pontifícia Faculdade Teológica de São Boaventura "Seraphicum", na
tarde de 31 de outubro 2019, sobre o tema «A fraternidade humana nos passos do
irmão Francisco e do sultão al-Kamil». Foi uma oportunidade para discussão e
aprofundamento do valor do diálogo e do acolhimento recíproco à luz do «Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da convivência comum», assinado em fevereiro passado pelo Papa Francisco e pelo grande imã Ahmad
Al- Tayyeb. Durante o encontro, moderado pelo padre Emanuele Rimoli, professor
de antropologia cristã, foram abordados quatro temas principais – paz, beleza,
bondade e coexistência – acerca dos quais apresentaram palestras, entre outros,
o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura,
cuja intervenção estamos publicando, e o imã Yahya Pallavicini, presidente da
Comunidade Religiosa Islâmica Italiana (Coreis).
Eis a intervenção do cardeal Ravasi
«A cada um de vós temos ditado uma lei e uma norma, e
se Deus quisesse, teria feito de vós uma só nação. Porém, fez-vos como sois
para testar-vos quanto aquilo que vos concedeu. Emulai-vos, pois, na
benevolência, porque todos vós retornareis a Deus, o Qual vos inteirará das
vossas divergências”. Essa é uma passagem sugestiva no Alcorão (V, 48), na qual
se reconhece que a diversidade de "leis" e "normas", isto
é, dos ritos, das doutrinas e das normas morais, é contemplada por Deus em seu
projeto sobre a humanidade. E afirma-se que será somente no final dos tempos,
isto é, na escatologia, que todos encontrarão uma unidade através de uma
iluminação divina.
Partimos do Alcorão - que aos olhos de muitos aparece como o
texto sagrado mais integralista - para afirmar que o diálogo inter-religioso na
realidade pertence à alma profunda de todas as religiões, em particular das
três monoteístas. Para nós, católicos, na base, existe o Concílio Vaticano II,
com a declaração fundamental Nostra aetate, promulgada em 28 de outubro
de 1965. Nela, como é sabido, não apenas eram tomadas em consideração as várias
religiões não-cristãs, mas também se reservava uma atenção particular ao Islão
(n. 3) e ao judaísmo (n. 4) e se reafirmava firmemente que "não podemos
invocar Deus Pai de todos os homens, se nos recusamos a nos comportar como
irmãos em relação a outros homens, criados à imagem de Deus" (n. 5).
É nesse espírito que já no ano anterior, em 19 de maio de
1964, Paulo VI instituía um Secretariado para os não-cristãos que João Paulo
II, com a Constituição Pastor bonus de 28 de junho de 1988, havia
transformado no atual Conselho Pontifício para o diálogo inter-religioso. Nessa
delicada, embora necessária e fascinante experiência de diálogo, é
indispensável navegar evitando duas rochas opostas que se apresentam
continuamente diante dos crentes das diferentes religiões.
Por um lado, de facto, há a Cila (na mitologia grega, era um monstro que atormentava os marinheiros) do integralismo identitário
exclusivo que tem justamente no fundamentalismo a sua bandeira frequentemente
ensanguentada: a trágica crónica de alguns países da Ásia e da África, mas
também as inesperadas explosões dessas degenerações religiosas no próprio
Ocidente, são uma sua terrível testemunha. Estava certo o escritor Jorge Luis
Borges quando, em 1962, em seus Labirintos, observava que «é mais fácil
morrer por uma religião do que vive-la absolutamente». Do outro lado, no entanto,
existe a enevoada Caribdis (na mitologia grega, era uma criatura marinha
protetora de limites territoriais no mar, diz a wikipédia) do sincretismo
incolor que relativiza cada Credo, diluindo-o em uma insossa calda espiritual.
De fato, o autêntico diálogo é o encontro atento e respeitoso (dià-) entre dois
logoi religiosos dotados de sua própria identidade teológica e cultural.
Não é possível resumir em poucas linhas a multiplicidade das
experiências vividas e das expressões teológicas que esse diálogo realizou,
apesar da complexidade e das dificuldades registadas, elas também pertencentes
ao projeto de Deus que – como afirma a passagem do sura V – que Ele nos
"testou quanto ao que nos concedeu". Apenas queremos salientar, no
âmbito cristão, o surgimento de uma verdadeira "teologia das
religiões" que Heinz Robert Schlette, discípulo do famoso teólogo Karl Rahner,
definiu como "um terreno dogmaticamente novo, comparável às zonas em
branco dos atlas antigos". Dessa forma, vários itinerários de pesquisa
foram abertos, alguns ligados a rotas já percorridas nos últimos séculos. É o
caso da tradicional perspetiva "exclusivista": Cristo é o único
mediador da salvação, reconhecido implícita ou explicitamente, e a Igreja é
direta ou indiretamente a única instituição de salvação. Famoso é o lema Extra
Ecclesiam nulla salus, formulado pelo escritor cristão do século III
Orígenes e pelo bispo de Cartago Ciprião: a salvação é universalmente oferecida
pelo canal da Igreja que – para usar as imagens desses autores – é a
casa/cidade de refúgio, é a arca que subtrai ao dilúvio, é a mãe que dá vida. A
peremptoriedade da fórmula, adotada por vários Padres da Igreja e por algumas
afirmações do magistério eclesial medieval (em particular pelo Concílio de
Florença em 1442), foi posteriormente submetida a um complexo processo
interpretativo, sobretudo para a definição do conceito de "Igreja" e,
portanto, da amplitude de seu espaço salvífico.
Assim, uma visão mais "inclusiva" foi introduzida:
os valores positivos das religiões não-cristãs são destinados a serem cumpridos
no cristianismo (assim disse o teólogo cardeal Jean Daniélou); quem acolhe com
pura consciência a graça divina e vive com fidelidade seu compromisso moral e
espiritual, a qualquer religião (ou a nenhuma religião) a que pertença, é na
prática um "cristão anónimo" (o citado Karl Rahner). O encontro
inter-religioso em Assis (1986) foi o ícone vivo dessa nova atitude, já trazida
à luz pelo Concílio Vaticano II no documento mencionado Nostra aetate (n. 2).
Mas, nos últimos anos, apareceu um terceiro modelo de tipo
"pluralista" que substituiu ao paradigma "cristocêntrico"
anterior aquele paradigma mais geral "teocêntrico". A proposta foi
apresentada pelo teólogo presbiteriano John Hick, segundo o qual a salvação
emana de Deus, "Realidade suprema" e, portanto, toda religião com sua
verdade é um espaço de salvação. É evidente que essa perspetiva, colocando
entre parênteses a função específica de Cristo, relativizava a religião cristã,
reconduzindo-a a uma forma espiritual entre muitas, sem sua identidade
específica. É por isso que se chegou em 2000 à declaração do Vaticano Dominus
Iesus, na qual a Igreja Católica reafirmava a unicidade da salvação em
Cristo, pelo menos de maneira "inclusiva".
Enquanto isso, porém, outras propostas de viés “relacional”
foram elaboradas, num esforço para colocar a identidade cristã numa relação
criativa com as outras tradições religiosas: os nomes de teólogos como Jacques
Dupuis, Claude Geffré, Hans Küng, Michael Amaladoss ultrapassaram os limites
das faculdades teológicas, provocando um debate muito efervescente, mas também
algumas reações católicas oficiais negativas, por se tratar eventualmente de propostas
radicais, drásticas e, em alguns casos, provocativas. Quisemos descrever
sumariamente esse mapa teológico bastante articulado e variado para mostrar
quanto seja necessário, mas também complexo, o diálogo inter-religioso, tanto
entre os monoteísmos quanto no espectro mais amplo dos fenómenos religiosos.

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