“Quando os bispos são ordenados, uma das perguntas que fazem é ‘queres ser pai dos pobres?’ Na catedral todos dizem que sim, mas na rua...

1. O Cardeal catalão, arcebispo de Barcelona, Juan José Omella, passou por Lisboa e, desassombrado, disse isto: “Quando os bispos são ordenados, uma das perguntas que fazem é ‘queres ser pai dos pobres?’ Na catedral todos dizem que sim, mas na rua, quando encontram um pobre, dizem 'deixa-me'. O pobre incomoda. A terra é de todos e é uma injustiça que se passe fome. É uma injustiça que se passe fome quando tantos fazem curas de emagrecimento”.

[«Com os pobres», foi o tema da Conferência que a Comissão Nacional Justiça e Paz promoveu no Centro Cultural Franciscano, na capital portuguesa, no âmbito do Dia Mundial dos Pobres.]

2. O Cardeal Omella foi nomeado pelo Papa Francisco e segue-o sem reservas. É verdade o que diz. E é corajoso o que diz. Não há palavras para a pobreza. E as palavras do padre ferem porque também falam de nós.

3. Na semana passada estava numa esplanada a comer uma torrada e apareceu-me uma mulher de mão estendida, cheirava mal. Dei um salto e a moeda. No meu íntimo queria que saísse dali para fora. E quando saiu senti-me uma merda. Sem a certeza de conseguir fazer diferente quando alguém como ela voltar a aparecer.

4. Quem de nós quer ver indigentes a morar no mesmo prédio? Ou a privar com os nossos filhos na mesma escola? Indignamo-nos como as promessas dos bispos de que fala Omella, viramos-lhes as costas e rezamos uns pai-nossos e uns terços para suavizar.

5. Há muito tempo, tinha 17 anos, tive de sair de casa da minha mãe porque ela já não sabia como fazer para que tivéssemos o mínimo. Percebi que alguma coisa mudara quando, no dia anterior, abriu a porta da rua com as lágrimas nos olhos. Humilhara-se num pedido que fizera a uma vizinha (uns ovos para que eu e a minha irmã pudéssemos comer alguma coisa), senti-me também humilhado.

6. Mas eu sou um privilegiado. Tinha à minha espera uma outra casa com comida, roupa lavada e uma cama com lençóis de rico.

7. Agora imaginem em permanência. Uma miséria em permanência. Um cheiro que já não sabemos a que cheira. Uma fome que já não sabemos que é fome. Uma humanidade que não sabemos se ainda é humana.

8. Omolla tem razão, os pobres incomodam. Agradeço-lhe muito por nos ter dito assim. E vem-me à cabeça o trabalho de tantos no terreno. Gente da igreja. Gente que não acredita em Deus. Gente que faz o que é preciso pelo outro. Gente grande. Gente que vale a pena e que é admirável. Gente anónima que é tão maior do que eu mais as minhas torradas em esplanadas onde não quero que me chateiem.

Luís Osório, em Facebook

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