Há muitos, muitos anos havia um rapazinho que vivia nos arredores de uma cidade chamada Nazaré.
O seu pai era dono de quatro burros. Três deles eram jovens e fortes, o quarto era velho e fraco. Mas o rapazinho gostava mais deste que dos outros. O burro chamava-se Pequenino e todos os dias o rapazinho ao levar a comida e a água para todos, brincava com ele. Era seu amigo.
Certo dia, o menino e o pai levaram os quatro burros para o monte à procura de lenha. O pai ia à frente com os mais fortes e o rapazinho seguia atrás levando o Pequenino.
Entretanto, o pai punha grossos bocados de madeira em cima do lombo dos três burros. Via que o filho apenas colocava pequenos pauzinhos no lombo do Pequenino. Não gostou disso, mas não disse nada.
De repente o Pequenino escorregou ladeira abaixo e deixou cair toda a lenha. O rapazinho apressou-se a apanhá-la. Pôs apenas alguns pedacinhos no lombo do Pequenino e carregou ele com o resto.
No caminho para casa o pai disse:
- Filho, o Pequenino não pode fazer mais cargas que cheguem para pagar a comida que come.
- Ele só está um bocadinho cansado hoje, pai. As suas forças voltarão – disse a criança pondo os seus bracitos à volta do pescoço do animal.
- Tenho muita pena, filho, mas amanhã tenho de levá-lo à cidade para o vender. Ele vale uns euros.
O rapazinho começou a chorar.
- Não, pai, não. Não pode vendê-lo…
O pai, enternecido, pôs os braços à volta dos ombros do garoto e disse-lhe:
- Por favor, filho, tenta compreender. O Pequenino está velho. Ele não deve trabalhar. Na cidade terá uma vida mais fácil. Tens de ser valente, filho.
O rapazinho pediu então, serenamente.
- Posso ser eu a levá-lo à cidade?
- Sim. Podes partir de manhã e regressar antes da noite cair. Mas entende bem… o Pequenino tem de ser vendido!
- Está bem, pai – respondeu o rapazinho tristemente – e virou-se para o burrinho: “Não te preocupes, Pequenino, tu não terás de carregar mais com esses pesados paus. E eu não te vendo a uma pessoa qualquer. Terá de ser alguém especial… alguém que te alimente como eu… que escove o teu pêlo como eu… que goste de ti, como eu gosto.”
O pequeno burrinho estava muito triste.
“Nalgum lugar haverá um amigo especial e teremos que encontrá-lo” – acrescentou o menino.
O burrico lambeu-lhe o nariz.
“Boa noite, Pequenino” – disse o rapazito enquanto o cobria por causa do frio da noite.
No dia seguinte o rapazinho e o burro atravessaram as colinas a caminho da cidade. Depressa lá chegaram. A cidade era um sítio muito movimentado. Um guarda fê-los parar.
- O que é que tu queres, rapaz? – perguntou ele.
- Eu vim vender o meu burrinho, Senhor.
O guarda olhou para o garoto e riu.
- Eu conheço um homem que precisa de um animal como esse. Vai à terceira loja a contar desta porta.
- Muito obrigado, Senhor, disse o rapazinho.
Chegaram ao sítio indicado e entraram. Estava muito escuro e cheirava mal. Alguns outros animais estavam presos e pareciam assustados.
“Não tenhas medo, Pequenino!”- disse o rapazinho olhando em volta.
Viu então um homem a afiar uma faca.
- Olá – cumprimentou o garoto.
- Sim? – disse ele e continuou - Tens um burro para vender?
- Tenho… e o seu nome é Pequenino.
- Dou-te 300 euros por ele.
-E… tomará bem conta dele?- perguntou .
O homem estava surpreendido:
-Eu só quero a pele dele, rapaz, eu sou curtidor de peles.
- Quer fazer sola da pele dele? – gritou o rapazinho.
Agarrando o burro, atravessaram as ruas a correr e só pararam para tomar fôlego quando estavam longe da loja do curtidor.
“Desculpa, Pequenino”- disse o rapaz, enquanto o burrito lhe lambia as mãos.
Continuaram a percorrer a cidade e atravessaram o mercado. Ali se encontrava um oleiro a trabalhar na sua roda.
- Quer comprar o meu burrinho? - perguntou.
- Esse triste saco de ossos? Não! - disse o oleiro.
O rapazinho viu um padeiro.
- Quer comprar o meu burrinho?- perguntou-lhe.
- Esse animalzinho, magricela? Não! Como a minha mulher é muito gorda estava a pensas comprar antes, um cavalo.
Três mercadores que assistiam àquela cena chegaram junto do rapazito e disseram-lhe:
- Aceita o nosso conselho! Por aqui nunca encontrarás um comprador. Vai ver o comerciante de cavalos, três quarteirões adiante.
O rapazinho levou o Pequenino até à barraca do comerciante. Este estava a vender um lindo cavalo por 1500 euros.
- Por favor, Senhor, quer vender o meu burrinho?
O homem deitou o olhar ao Pequenino e decidiu divertir-se à custa do velho animal.
- Olhem para este belo animal! Vejam como ele é forte como um boi! Quem paga 1000 euros por ele? - e saltou com toda a força para cima do pobre animal que quase desmaiava por causa do peso.
O Pequenino juntou todas as suas forças e, com um valente coice, atirou o homem ao ar.
Foram andando lentamente através das ruas. Estavam muito tristes. O rapazinho sentou-se no chão a chorar. De repente, ouviu a voz de um homem.
- Diz-me, meu filho, és tu o dono desse pequeno burrinho? Eu preciso de um animal para levar a minha mulher, Maria, até Belém. Queres vendê-lo?
O rapazinho deu um último abraço ao amigo.
“Adeus, Pequenino. Sê forte e confiante e vai com o teu novo dono”.
- Vem comigo, Pequenino – disse o homem que se virou e se foi embora.
Então o rapazinho trepou a um muro da cidade e disse adeus ao homem, à sua mulher e ao Pequenino, que iniciaram a sua jornada até Belém. O menino sentiu-se, ao mesmo tempo, triste e confiante. Ele tinha a certeza que o Pequenino teria motivos de que se alegrar com a sua nova família.
(Publicado em Revista da Catequese A Sementinha. Missionários Passionistas de Santa Maria da Feira)

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