O homem que fala com as árvores - confidências do monge Enzo Bianchi

Nos últimos dias de outono, os nossos olhares são atraídos pelas árvores, especialmente pelas cores diferentes das suas folhas e porque elas caem, às vezes dançando até o chão, às vezes arrancadas por arroubos de vento que as levam para longe.

As árvores constituem uma presença discreta da qual nem sempre estamos cientes, mas elas oferecem a sua companhia e falam connosco. 

Na primavera, procuramos os sinais do despertar nos seus galhos nus, no verão queremos a sua sombra e, no inverno, se pararmos para observá-las, vemo-las resistir ao frio sem reclamar, suportar as chuvas entediantes e o peso da neve que dobra e enverga os seus ramos.

Os camponeses da minha terra, Monferrato, ensinaram-me a amar as árvores como companheiras de vida, até a conversar com elas, principalmente com os carvalhos muito antigos, porque - eles diziam-me – «viram de tudo e sabem muito».

Infelizmente, ninguém se lembra das tradições, mas quando eu era garoto e se comemorava a manhã do sábado santo, ao som dos sinos, a gente corria da igreja até os riachos para enxaguar o rosto e abraçávamos as árvores frutíferas, porque diziam que, se fossem abraçadas naquela hora da ressurreição, iriam dar muitos frutos.

Assim, depois de abraçar a minha mãe e antes de abraçar as garotas, aprendi a abraçar as árvores.

Mesmo agora que estou velho, próximo ao meu eremitério vou até um carvalho com trezentos anos, tento ouvi-lo e às vezes abraçá-lo por um impulso espontâneo, talvez para expressar a minha gratidão: de facto, ele vigia ao meu lado como um sentinela e é um refúgio para os corvos durante o dia e para as corujas à noite.

Tive que cortar muitas árvores para tornar habitável o pedaço de terra escolhido como morada da minha vida e local de acolhimento, mas plantei muito mais: tílias, amoreiras, carvalhos e árvores frutíferas. E agora, quando passeio no bosque sob a álea das tílias que plantei, recebo das árvores não apenas perfumes e frutas, mas também lições, porque são verdadeiros "professores" no seu ciclo de estações e de vida: quando pingam na primavera e parecem chorar; quando no verão florescem e se cobrem de verde; quando no outono mudam a cor das folhas.

Uma cultura de árvores deveria ser incluída na educação: para que sejam conhecidas, respeitadas e amadas pelas novas gerações; para que o planeta se torne mais verde, as cidades mais saudáveis e o ar mais puro. Plantar árvores, especialmente na cidade, é um ato ecológico, político e estético: é dar vida à vida!

O grande abade e escritor Bernardo de Claraval, insuperável na Idade Média, deixou um testamento escrito. «Se você quiser encontrar verdadeiros mestres, procure-os nos bosques e nas árvores: elas lhe dirão coisas que nenhum mestre poderá ensinar.»

Enzo Bianchi, da Comunidade de Bose, em La Repubblica
Tradução: Luísa Rabolini, Unisinos

Comentários