O secretário-geral da ONU, António Guterres, preocupado com aumento da intolerância religiosa

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, vai encontrar-se o Papa Francisco em Roma. Para o Secretário, o papa é uma voz forte de apoio ao multilateralismo e aos esforços humanitários. Repetiu várias vezes que devemos construir pontes ao invés de muros. Em entrevista a Vatican News, manifestou-se «profundamente preocupado» face ao aumento da intolerância religiosa no mundo.

O que pretende falar com o Papa Francisco e como é que o papa poderia ajudar os objetivos das Nações Unidas?
Desejo encontrar o Santo Padre para expressar a minha admiração pelo seu trabalho. É uma voz forte sobre a crise climática, sobre a pobreza e sobre a desigualdade, sobre o multilateralismo, sobre a proteção dos refugiados e migrantes, o desarmamento e sobre muitas outras questões importantes. Com o seu trabalho, o papa está a contribuir para alcançarmos muitos dos nossos objetivos, inclusive para o desenvolvimento sustentável, a luta contra as alterações climáticas e a promoção de uma nova cultura de paz. Construir pontes é uma boa analogia e, enquanto discutimos os problemas mencionados, espero descobrir como podemos aumentar a nossa colaboração para fazer exatamente isto: construir pontes para melhores resultados para as pessoas que mais necessitam.

A liberdade de religião está ameaçada em todo o mundo: quais são os impactos negativos desta ameaça e como deveria ser enfrentada?
A liberdade de religião é um outro assunto que espero discutir com o Papa Francisco. Estou profundamente preocupado pelo aumento da intolerância que inclui ataques diretos às pessoas baseados em nada mais do que a sua fé religiosa ou filiações. Os ataques mortais contra mesquitas na Nova Zelândia, sinagogas nos Estados Unidos e o bombardeamento das igrejas no Sri Lanka na Páscoa demonstram a urgência de agir para que todos independente da sua fé religiosa, possam desfrutar plenamente os seus direitos humanos.

A diversidade é uma riqueza, não uma ameaça. É chocante ver um número cada vez maior de indivíduos humilhados, molestados e atacados publicamente simplesmente por causa da sua religião ou fé. Os judeus foram assassinados nas sinagogas, tiveram os seus túmulos deturpados por suásticas; os muçulmanos são mortos nas mesquitas, e os seus locais religiosos vandalizados; os cristãos foram mortos em oração, as suas igrejas incendiadas. 

Nos últimos meses lancei duas iniciativas: um plano de ação para sustentar os esforços para salvaguardar os locais religiosos e defender o direito da liberdade religiosa; e uma estratégia a nível das Nações Unidas para enfrentar a questão do ódio. Em colaboração com o meu Alto Representante para a Aliança das civilizações, o plano de ação tem como objetivo sustentar os Estados membros garantindo que os seus fiéis possam praticar os seus ritos em paz. As casas de culto em todo o mundo devem ser paraísos seguros para a reflexão e a paz, não lugares de derramamento de sangue e terror. 

Também precisamos de muitos investimentos na coesão social para garantir que as várias comunidades sejam respeitadas na sua identidade, e que façam o mesmo pelos outros. A recente declaração do Papa Francisco e do Grão Imame de al-Azhar, o professor Mohamed Ahmed el-Tayeb, foi um contributo extremamente importante para a coexistência pacífica, o respeito recíproco e a compreensão entre as várias comunidades religiosas no mundo. A instrução deve ser uma parte fundamental dos nossos esforços para combater a difusão do ódio. Pretendo convocar uma conferência sobre o papel da educação ao enfrentar e construir a resiliência contra este fenómeno.

Na véspera da COP 25 em Madrid, o senhor disse que estamos próximos de um “ponto sem retorno” na questão das mudanças climáticas, mesmo assim importantes protagonistas mundiais como os Estados Unidos não reconhecem nem mesmo a emergência e a conferência se concluiu sem um acordo. Qual é o seu plano para superar esta oposição e convencer todos os países a fazer mais do que foi concordado em Paris em 2015?
Vamos ser claros. Fiquei desiludido com os resultados da 25.ª Conferência de Partes que recém se concluiu em Madrid. A comunidade internacional perdeu uma importante ocasião para afirmar uma ambição mais decidida sobre a mitigação, a adaptação e o financiamento para lutar contra a crise climática. Mas não devemos render-nos, eu não me rendo. Estou mais do que nunca determinado a trabalhar para que 2020 seja o ano em que todos os países se comprometam em fazer o que a ciência considera necessário para alcançar a neutralidade das emissões de carbono até 2050 e para que a temperatura não aumente mais do que 1,5 graus. 

A crise climática é uma corrida contra o tempo para a sobrevivência da nossa civilização. Infelizmente é uma competição que estamos a perder. E muitos já estão a enfrentar as terríveis consequências da crise climática, a realidade de um ambiente que está a tornar-se inabitável ainda não é óbvia para todos. Mas ainda podemos inverter esta tendência. As soluções existem. Temos a ciência da nossa parte, temos novos modelos de cooperação e um maior entusiasmo para a mudança. No ano que vem temos de fornecer aquilo que a comunidade científica definiu uma “obrigação”. Todos os países devem comprometer-se em reduzir, até 2030, 45 % das emissões de gás efeito estufa com relação a 2010, e a alcançar um nível zero de emissões de CO2 até 2050.  

Na sua opinião, o Conselho de Segurança da ONU deve ser reformado para representar melhor o mundo? E como?
Concordo plenamente com Kofi Annan quando afirmou que não é possível uma reforma completa das Nações Unidas sem uma reforma do Conselho de Segurança. O atual Conselho ainda reflete muito do mundo de 1945. Por isso, a Carta das Nações Unidas é clara: cabe aos Estados membros determinar o modo como será reformado o Conselho de Segurança e espero que façam isso.

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