A difícil arte de amar

É inegável que cada um de nós sente carência de ser amado de forma inteira e incondicional. Ninguém sobrevive à aterradora sensação de não ter quem o espere quando regressa a casa, console as lágrimas mais sentidas e rejubile consigo nas maiores vitórias.

“A medida do amor é amar sem medida”, escrevia Santo Agostinho. Este axioma é citado vezes sem conta em livros, homilias e até em banais publicações de autoajuda, utilizado como descrição do amor de Deus e também como propósito de vida. 

Séculos mais tarde, Santa Teresa de Lisieux escreveria na História de uma alma: “A minha vocação é o amor, e assim serei tudo.” Perante o desejo que sentia de cumprir todas as vocações existentes para melhor servir Cristo, ela percebeu que todas eram formadas da mesma matéria: o amor.

Na espiritualidade inaciana, é apontado como caminho para alcançar essa plenitude um estado de “indiferença” perante as coisas do mundo, de modo que, livres de “afeições desordenadas”, possamos trilhar o caminho da verdadeira liberdade. O mesmo é dizer que só em pleno estado de liberdade se torna possível amar sem medida e seguir o caminho proposto por Deus.

Contudo, este apelo a uma tal radicalidade de vida suscita em nós fortes resistências. Na sua maioria totalmente legítimas, de acordo com a lógica corrente.

Para amar a Deus tem de ser indiferente o meu estado de saúde, emprego, filhos, marido ou o simples prazer de apreciar um bom filme? 

Não veio Cristo para que tivéssemos vida e vida em abundância? 

Importa para isso focar a atenção na essência deste ensinamento: indiferença surge, neste conceito, como sinónimo de liberdade. Qualquer relação, para que seja sã, implica que não queiramos moldar o outro à nossa medida. Dessa forma, construiríamos ídolos mais frágeis que o barro, que se desmoronarão no primeiro choque com as diferenças existentes.

A necessidade humana de amor reveste-se de múltiplas formas, desde o desejo de um amor em plena comunhão de vida, ao amor a um novo ser gerado, à necessidade do fraterno companheirismo de amigos que nos sustentam nas horas de êxito e fracasso, até ao amor pelos valores que escolhemos. Quanto mais vasto se torna um coração na amplitude de relações que o compõem, tanto mais rica se torna cada uma delas na sua singularidade.

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A autora, Sofia Távora, é estudante de Direito e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia (Lisboa).

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