A literatura é um grande telescópio voltado para a vida, uma ferramenta prodigiosa para a leitura da experiência individual e coletiva, histórica e interior, tanto na dimensão particular quanto na universal.
Quem ignora a sua literatura não entende verdadeiramente uma determinada tradição cultural.
Não entende o ser humano, na sua universalidade, quem ignora os testemunhos poéticos pelos quais passou ao longo dos milénios.
Precisamos de literatura, não como um ornamento agradável porém, no final das contas, supérfluo, mas como uma estrutura de sustentação, um código de sobrevivência do nosso estar no mundo.
Um dos dramas do cristianismo e das religiões do nosso tempo, é o crescente deslocamento de sua autocompreensão fora do horizonte da literatura: cada vez menos a prática religiosa contemporânea recorre à literatura para articular as suas representações de fé, e cada vez menos a literatura recorre ao seu discurso como recurso de sentido.
Portanto, é uma responsabilidade urgente e muito séria da Igreja, de todos os crentes, reativar processos culturais que desemboquem na criação de códigos e chaves de leitura do presente, hermenêutica e simbolicamente consistentes e vitais, que respondam às sofisticadas solicitações feitas pela história contemporânea. É um problema de conteúdo, mas antes mesmo de racionalidade, de linguagens. E é um problema de discernimento, mas antes mesmo da maternidade.
Somente se a Igreja conseguir recuperar a capacidade de ser uma fonte, em todos os campos da racionalidade humana, começando por aquela artística, será posta novamente em movimento a indispensável dinâmica criativa entre fé e cultura.
Com muita frequência, no passado, a Igreja concebeu defensivamente a relação entre fé e cultura como a de uma hegemonia, de um direito de controlo e sanção em nome de uma verdade de fé simplificada como verdade cultural. Recuperar a dinâmica generativa e não mecanicamente judicial dessa relação, restaurar a maternidade da Igreja, significa acolher incondicionalmente não apenas a reciprocidade dialógica, mas a assimetria do serviço, da iniciativa gratuita e eventualmente não correspondida, própria do amor.
Discernimento, escuta, proposta são todos momentos essenciais do diálogo entre fé e cultura, entre fé e literatura, que, para serem frutíferos, devem ser conjugados numa disposição mais fundamental de amor, numa vontade incondicional de encontro.
Quem ama busca a proximidade do outro, busca a sua presença. Amar a cultura, a criação artística, a literatura significa procurá-las lá onde estão, correr o risco do contacto. Os textos são o corpo da literatura e, sem a presença direta e sem mediação, o diálogo permanece estéril e irreal.
O grande empenho é fazer nascer algo de que não apenas a Igreja, mas toda a sociedade, desesperadamente precisa: não uma literatura cristã, que pertença a um modelo de civilização do passado, mas uma literatura que faça da fé cristã, na sua articulação eclesial - de fontes, de tradição e de comunidade - um recurso de sentido para a humanidade do nosso tempo.
Cardeal José Tolentino de Mendonça, em Avvenire, 31-12-2019
Texto original, em italiano, e na íntegra:
https://francescomacri.wordpress.com/2020/01/01/grazie-alla-letteratura-la-fede-amplifica-la-voce
Texto original, em italiano, e na íntegra:
https://francescomacri.wordpress.com/2020/01/01/grazie-alla-letteratura-la-fede-amplifica-la-voce

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