A pan-amazónia é uma região, em que, mais do que em outros biomas do mundo, a Ecologia integral é um desafio indispensável para a proteção da Vida e o equilíbrio do ecossistema. Atualmente, os cientistas do clima conseguem provar que, tanto pela sua dimensão, quanto pela riqueza da sua diversidade, a sua destruição é a que mais pode afetar o equilíbrio de toda a Terra.
Um olhar sobre a Amazónia
A Amazónia é um território que se espalha por nove países. Tem quase 8.000.000 de Km2 que formam um bioma, isso é, um sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta.
A Amazónia é um território que se espalha por nove países. Tem quase 8.000.000 de Km2 que formam um bioma, isso é, um sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta.
Além da grande bacia de rios imensos que irrigam a superfície e do mar de águas doces e transparentes que forma o aquífero subterrâneo, a grande quantidade de água em forma de vapor cria o que, na Amazónia, se chamam de rios voadores, imensos lençóis de água doce que se depositam sobre as nuvens e são levados pelos ventos até mesmo outros países. Esse bioma regula a distribuição de chuvas por todo o território brasileiro e por Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia. Alguns cientistas acreditam que esse bioma é responsável pelo equilíbrio do clima de toda a Terra.
Essa região que chamamos pan-amazónia tem 35 milhões de habitantes, espalhados pela floresta, pelas margens dos rios, campos e grandes cidades. Quase três milhões pertencem a povos originários que falam 340 línguas diversas. Eles se relacionam harmoniosamente com a Natureza, com os outros humanos e com Deus.
Na conjuntura atual, todos esses povos (como indígenas, ribeirinhos, comunidades negras remanescentes de quilombos e colhedoras de coco) se sentem agredidas em sua relação vital com a mãe Terra, em sua ligação amorosa com as águas. O modelo de desenvolvimento depredador instalado na região os destrói, assim como destrói o próprio sistema de Vida no planeta. Agride as comunidades tradicionais, em seus valores culturais e espirituais.
Os povos na sua sabedoria, criaram sistemas produtivos rentáveis, sem derrubar a floresta (açaí, cupuaçu, castanha, peixes, etc). O Capitalismo vem e com a monocultura da soja, com a implantação de gado (pecuária) e com projetos de mineração e madeireiras destroem a Natureza, tiram dos povos tradicionais os seus meios e instrumentos de sobrevivência e criam uma desigualdade social e humana cada vez mais grave e danosa.
A sobrevivência dos povos amazónicos na sua diversidade depende de que se detenha o modelo de desenvolvimento depredador. O que destrói o bioma é a monocultura (soja, gado, mineração). Também não serve o chamado “Capitalismo verde” que se rege pelas leis do mercado e transforma em mercadoria o que a natureza nos dá de graça.
2 – Amazónia, santuário de espiritualidades originárias
A principal novidade do Sínodo sobre a Amazónia convocado pelo papa Francisco é o processo sinodal que ele provocou. Em sínodos anteriores, havia um questionário que as dioceses recebiam e, em princípio, as bases respondiam. Desta vez, criou-se verdadeiramente em toda a região pan-amazónica um processo de escuta e diálogo das comunidades tradicionais (índios, ribeirinhos, comunidades de periferia urbana, seringueiros e outras) e esse processo constituiu-se como um novo modo de missão e de mobilização das bases. Os missionários/as viveram a sua missão como processo de escuta atenta e de valorização das culturas tradicionais da Amazónia e mesmo ou até principalmente das suas expressões espirituais e religiosas.
De facto, é um novo modo de viver a missão cristã. Não se trata da Igreja converter a Amazónia (no sentido tradicional que se dava a esse termo) e sim dela se converter à Amazónia.
As tradições espirituais indígenas e tradicionais são tantas e tão diversas que nenhum nome como Xamanismo ou Pajelança são capazes de definir ou caracterizar. Todas têm em comum a fé na presença do Mistério Divino na terra, nas águas e em toda a natureza. Tudo é vivo, tudo tem Espírito e tudo é interligado. Essa visão insere o ser humano na sua comunidade de vida, grupo humano e comunidade mais ampla com todos os seres vivos. Atualmente, essa harmonia está a ser violada pelo Capitalismo e é preciso defender essas culturas originárias e suas expressões espirituais.
A Fundação Pueblos Indios no Equador, iniciativa criada por Leónidas Proaño, saudoso bispo e profeta de Riobamba, propõe ao Papa Francisco nesse sínodo que proclame a Amazónia como “santuario intangible de la Madre Tierra”. De um lado, é claro que tem de proclamar a Amazónia como santuário intocável da mãe Terra não é o papa. Isso compete aos irmãos e irmãs das tradições religiosas indígenas. O que o papa e a Igreja Católica podem e devem fazer é reconhecer essa proclamação indígena.
O Sínodo é mais do que tudo um instrumento de escuta e valorização das culturas tradicionais amazónicas. E a proposta é que a universalidade das culturas e a liberdade de expressões da fé sejam vividas sempre a partir da comunhão com os povos tradicionais e na perspectiva de uma Ecologia integral.
3 – A escuta da palavra indígena
Entre as lideranças indígenas que o papa Francisco recebeu em preparação ao Sínodo, uma das mais importantes foi o cacique Raoni Metuktire. Trata-se de um líder indígena brasileiro da etnia caiapó. Vive no Xingu e tem 89 anos e é conhecido internacionalmente pela sua luta pela preservação da Amazónia e dos povos indígenas. Nesses dias, o cacique Raoni assim se tem pronunciado:
«Por muitos anos, nós, os líderes indígenas e os povos da Amazónia, temos avisado vocês, nossos irmãos que causaram tantos danos às nossas florestas. O que vocês estão fazer mudará o mundo inteiro e destruirá a nossa casa – e destruirá a sua casa também.
Temos deixado de lado a nossa história dividida para nos unirmos. Há apenas uma geração, muitos dos nossos povos lutavam entre si, mas agora estamos juntos, lutando juntos contra o nosso inimigo comum. E esse inimigo comum são vocês, os povos não-indígenas que invadiram as nossas terras e agora estão a queimar até mesmo aquelas pequenas partes das florestas onde vivemos que vocês deixaram para nós.
Pedimos que vocês parem o que estão a fazer, parem a destruição, parem os seus ataques aos espíritos da Terra. Quando vocês cortam as árvores, agridem os espíritos dos nossos ancestrais. Quando vocês procuram minerais, empalam o coração da Terra. E quando vocês derramam venenos na terra e nos rios – produtos químicos da agricultura e mercúrio das minas de ouro – vocês enfraquecem os espíritos, as plantas, os animais e a própria Terra. Quando vocês enfraquecem a Terra, assim ela começa a morrer. Se a Terra morrer, se nossa Terra morrer, nenhum de nós será capaz de viver, e todos nós também morreremos.
Porque fazem isso? Vocês dizem que é para o desenvolvimento – mas que tipo de desenvolvimento tira a riqueza da floresta e a substitui por apenas um tipo de planta ou um tipo de animal? Onde os espíritos nos deram tudo o que precisávamos para uma vida feliz – toda a nossa comida, as nossas casas, os nossos remédios – agora só há soja ou gado. Para quem é esse desenvolvimento? Apenas algumas pessoas vivem nas terras agrícolas; elas não podem apoiar muitas pessoas e são estéreis.
Vocês destroem as nossas terras, envenenam o planeta e semeiam a morte, porque estão perdidos. E logo será tarde demais para mudar.
Então, porque fazem isso? Podemos ver que é para que alguns de vocês possam obter uma grande quantia de dinheiro. Na língua Kayapó, chamamos ao seu dinheiro piu caprim, “folhas tristes”, porque é uma coisa morta e inútil, e traz apenas danos e tristeza.
Quando o seu dinheiro entra nas nossas comunidades, muitas vezes causa grandes problemas, separando o nosso pessoal. E podemos ver que faz o mesmo nas suas cidades, onde o que vocês chamam gente rica vive isolada de todos os outros, com medo que outras pessoas venham tirar o seu piu caprim. Enquanto isso, outras pessoas passam fome ou vivem na miséria porque não têm dinheiro suficiente para conseguir comida para si e para os seus filhos.
Mas essas pessoas ricas vão morrer, como todos nós vamos morrer. E quando os seus espíritos forem separados dos seus corpos, os seus espíritos ficarão tristes e vão sofrer, porque enquanto vivos fizeram com que muitas outras pessoas sofressem em vez de as ajudar, em vez de garantir que todos os outros tivessem o suficiente para comer, antes de se alimentar a si próprio, como é o nosso caminho, o caminho dos Kayapó, o caminho dos povos indígenas.
Vocês têm de mudar a sua maneira de viver porque estão perdidos, vocês perderam-se. Para onde vocês estão a ir é apenas o caminho da destruição e da morte. Para viver, vocês devem respeitar o mundo, as árvores, as plantas, os animais, os rios e até a própria Terra. Porque todas essas coisas têm espíritos, todas elas são espíritos, e sem os espíritos a Terra morrerá, a chuva irá parar e as plantas alimentares murcharão e morrerão também.
Todos nós respiramos o mesmo ar, todos bebemos a mesma água. Vivemos neste planeta. Precisamos de proteger a Terra. Se não o fizermos, os grandes ventos virão e destruirão a floresta. Então vocês sentirão o medo que nós sentimos.»

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