O quarto capítulo de "Querida Amazónia" não foi escrito pelas mesmas mãos que produziram os outros três?
Falta de abertura mais do que um cerramento. Esta é a interpretação, para
o historiador da Igreja Massimo Faggioli (na foto), da exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazónia, em que o Papa Francisco
prefere não enfrentar as propostas de diaconado feminino, de ordenação
sacerdotal de homens casados e da instituição de um rito amazónico específico,
saídas do Sínodo dos Bispos em outubro. Para o professor de Teologia e Estudos
Religiosos da Universidade Villanova de Filadélfia, nos Estados Unidos, a
situação, após a publicação do documento, «é fluida, muito dependerá dos
próximos passos das Igrejas locais da região: estamos no ponto de viragem do
papado bergogliano».
Professor, o senhor esperava uma
exortação tão aprofundada no diagnóstico da situação socioambiental da Amazónia
e, ao mesmo tempo, tão pobre sobre as soluções pastorais para o anúncio do
Evangelho na floresta?
A primeira parte, político-ecológica, vem na esteira da produção anterior
do papa, a começar com a Laudato si'.
Surpreende, por outro lado, o último capítulo, sobre os ministérios, porque não
acolhe as propostas votadas pelo Sínodo, mas também não as desaprova. Francisco
não anula o relatório final da assembleia, contorna-o.
O que acha da polémica sobre o
suposto valor magisterial do relatório?
Do ponto de vista formal, acho que apenas a exortação do papa é um ato de
magistério, não o documento final da assembleia que contém as propostas
silenciadas. Falta uma aprovação explícita desse texto, conforme exigido pela
constituição Episcopalis communio
sobre a disciplina da instituição sinodal. No entanto, Bergoglio quis
reconhecer um valor ao documento aprovado em plenário em outubro. Diz
claramente que não deseja substituí-lo e convida a lê-lo na íntegra.
O senhor teve a impressão de que
a exortação tenha sido escrita antes do debate sinodal?
Esta é uma boa pergunta. Provavelmente daqui a cem anos a génese da medida
será conhecida. A impressão é que o quarto capítulo não foi escrito pelas
mesmas mãos que produziram os outros três.
'Querida Amazónia' vai contra a
tendência das outras exortações pós-sinodais de Bergoglio, e não só, que à sua
maneira, respondem às solicitações das respetivas assembleias episcopais?
Sim, este é um texto que se posiciona de maneira diagonal, não paralela nem
frontal diante das propostas do Sínodo. O estilo do papa é diferente do dos
seus antecessores Paulo VI e João Paulo II, que se expressaram em termos
definitivos, quase infalíveis. Por sua parte, Francisco deixa em aberto o
processo sinodal, mesmo não estando claro como este se vai desenvolver no
futuro próximo.
Em suma, da exortação sai mais
uma falta de abertura do que um fechamento?
Isso mesmo. Acerca da introdução de um rito amazónico há vislumbres, não
ocorre o mesmo no que diz respeito aos viri
probati e ao diaconado feminino. É como se o papa quisesse dar uma pausa no
caminho das reformas na Amazónia. Muito vai depender de como reagirão as
Igrejas locais naquela área: se continuarem a chegar a Roma pedidos sobre os
ministérios, será difícil não dar respostas pontuais.
Dentro do episcopado brasileiro
há quem preveja que, nos próximos meses, possam sair documentos papais ‘ad hoc’
sobre as questões específicas em discussão.
É algo que pode acontecer. Bergoglio nos últimos anos acostumou-nos a
surpresas. O certo é que a diferença entre a sua exortação e o relatório final
do Sínodo sobre a Amazónia criou um vazio. Esse deve ser preenchido
imediatamente... Francisco não tem diante de si mais dez anos de pontificado e
depois dele tudo pode ser fechado em caráter definitivo. Estamos diante de um
ponto de viragem neste pontificado. No episcopado sul-americano, que apoia
Bergoglio e trabalhou duro antes e durante a assembleia de outubro, está a insinuar-se
certa deceção com as conclusões do papa.
Francisco teve medo de um cisma à
direita ou ele mesmo se opõe a qualquer hipótese de derrogação do celibato
obrigatório?
Acredito que o temor de uma rutura da unidade católica tenha tido o seu
peso. O certo é que a trégua com católicos conservadores, que hoje dão um
suspiro de alívio pelo perigo evitado, não vai durar muito. Assim que ele
começar a falar de novo sobre os pobres e os últimos da Terra, começarão a
criticá-lo novamente.
Mas o que pensa realmente o Papa
do celibato?
Com sua exortação, ele deu a entender que não considera prioritárias para a
Igreja as reformas estruturais que muitos na comunidade católica desejam. O
Concílio plenário da Igreja na Austrália e o processo sinodal na Alemanha estão
em andamento. A situação está em evolução.

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