"Querida Amazónia”: As portas não estão fechadas, mas não dependem só do Papa


«Sou dos que teriam gostado de ver na exortação apostólica Querida Amazónia, publicada no passado dia 12, um gesto do Papa Francisco de abertura à revisão da disciplina do celibato obrigatório», começa por escrever Manuel Pinho,  professor da Universidade do Minho, no jornal digital https://setemargens.com, no artigo de opinião “Querida Amazónia”: as portas não estão fechadas, mas não dependem só do Papa

E prossegue: «Assim como de ver a possibilidade de as mulheres poderem assumir ministérios ordenados, no quadro de dinâmicas comunitárias que tal requeressem.

Mas não tenho dúvidas de que, se o Papa assim tivesse decidido, se teria levantado um tal alvoroço, que pouco mais restaria do documento papal do que esse tema. O Sínodo da Amazónia eclipsar-se-ia, no meio do rebuliço e das consequências das portas assim abertas.

É verdade que a cobertura mediática que foi feita acabou por deixar o conteúdo de Querida Amazónia na sombra. Os media escolheram com antecedência o enquadramento que lhes interessava e, como o que procuravam lá não vinha, cobriram aquilo que era a sua própria agenda: Papa fecha a portanão abre mão do celibato obrigatório, cede à pressão dos conservadores, perde oportunidade histórica, etc. Ou seja, ficamos sem fazer ideia do que diz, de facto, o documento que era suposto ser noticiado.

Ora, se se ler a exortação atentamente, o Papa mostra bem que não quer fechar portas. Diria mesmo, não quer fechar quaisquer portas. Como o faz? Adotando um caminho original, sublinha desde o início, que a exortação não está só: acompanha e é acompanhada pelo documento Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para Uma Ecologia Integral, aprovado por esmagadora maioria no recente Sínodo.

Depois de referir que ouviu as intervenções na assembleia sinodal e leu os resultados dos trabalhos de cada um dos grupos sinodais, Francisco afirma que não pretende “nem substituir nem repetir” o que consta do documento do Sínodo, para não correr o risco de valorizar mais este aspeto do que aquele. Frisa, depois, num ponto destacado, que “quer apresentar de maneira oficial esse documento”, convidando todos “a lê-lo integralmente”. E termina esta parte dizendo, ainda sobre as conclusões do Sínodo: “Deus queira que toda a Igreja se deixe enriquecer e interpelar por este trabalho, que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazónia se empenhem na sua aplicação e que, de alguma forma, possa inspirar todas as pessoas de boa vontade” (sublinhados meus). Com esta assunção explícita e reiterada do Papa, num documento do magistério da Igreja como é a exortação apostólica, é legítimo tomar as conclusões do Sínodo como anexo integrante da Exortação. É daí que o Papa parte, para olhar para o futuro da Igreja. Não é daí que foge ou se distancia.

De resto, importa ter presente que o Papa se dirige não apenas aos bispos ou sequer à Igreja. A exortação é dirigida “ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade”. A ecologia integral de que trata, com as inerentes decorrências pastorais, tem o planeta como cenário e como destinatário, com todos os impasses e desafios que vemos de forma cada mais aguda, a cada dia que passa. Podia o Papa – a partir da reflexão e discernimento que foram centrais no processo sinodal – correr o risco de lançar uma polémica, de si própria fraturante, que apagaria em grande medida esse mesmo processo? Seriam esta a forma e o momento adequados para o fazer?

Importa sublinhar que, logo no dia em que a exortação foi apresentada e nos dias posteriores se multiplicaram os sinais não apenas de altos responsáveis da Cúria como do próprio Papa, tendentes a alertar que aquilo que se vai seguir é muito o que a Igreja da Amazónia, bem como outras Igrejas locais, quiserem. As conclusões do Sínodo, integralmente amadurecidas, incluindo a ordenação dos viri probati e ao diaconado feminino “permanecem sobre a mesa como propostas feitas pelo Sínodo que o Papa incentiva a Igreja na Amazónia a ler e a apreciar”, referiu aos jornalistas o cardeal Michael Czerny.

Por sua vez, o relator-geral do Sínodo e presidente da Repam (Rede Eclesial Pan-Amazónica), o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, mostrou-se convencido de que todas estes pontos irão ser retomados, nesta fase pós-sinodal, que será de concretização do Sínodo. E o próprio Papa Francisco corroborava, de algum modo, esta ideia, ao confiar a um grupo de bispos norte-americanos em visita ad limina, na semana passada: “A sinodalidade e o discernimento são processos que continuam mesmo depois do Sínodo e dos documentos publicados. Não é reunir e dizer: “Temos todas as respostas (…) O que fizemos foi levantar os assuntos; agora temos de pegar neles”, continuando a invocar o Espírito Santo e a discernir o caminho para o futuro».[In National Catholic Reporter, 13.2.2020.  Acesso: http://bit.ly/3bJCBNu]


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