Testemunho(s) de boa morte - relatos do padre João Aguiar Campos

Escreve o padre João Aguiar Campos, da diocese de Braga, que tem uma doença oncológica, na sua página de Facebook.

«Nunca fui pároco. Também não sou médico ou profissional de saúde. Ou seja: não vivo tão facilmente exposto a lidar com situações limite.

Mas, não sendo uma coisa nem outra, já me morreram literal ou quase literalmente nos braços, seis pessoas.

Revejo nesta tarde esses momentos. Revejo-me, jovem padre, a abraçar uma senhora que apenas tremia e não largou a minha mão enquanto pôde. Não sei quantas vezes lhe disse: «Meu Deus e meu Pai, aqui me tens. Amo-te!» Eu não sabia dizer-lhe mais nada. Por isso, nos últimos minutos estive calado, acariciando-lhe o rosto e beijando suavemente as suas mãos.

Revejo-me, acordado a meio da noite, porque minha mãe me veio dizer que o avô Aguiar estava a respirar pior. Corri para o quarto e, percebendo a hora, pedi que me deixassem só. O avô não falava há semanas; mas eu falei-lhe com todo o amor de que fui capaz e disse-lhe: «Grande chefe, vamos despedir-nos. Se me ouve, oiça que agradeço a Deus tudo o que foi na nossa casa e me ensinou». E eis que ele, o homem da guerra há semanas calado, deu-me a última lição, numa surdina ímpar: «Meu filho, está tudo controlado». Só soube responder-lhe: «Deus o abençoe, avô»
Minutos depois deixei o quarto. Na cozinha todos os olhos se pregaram aos meus: «E….?». «Ele manda dizer que está tudo controlado».

Revejo-me, por fim, no dia da despedida do meu Amigo Padre Dâmaso. Fui a Lisboa despedir-me dele. Vi os seus braços a quererem abraçar e aquele peito arfante cheio de palavras. Encostei a cabeça ao seu coração. Porque o senti a perceber-me , juntou-se a nós a oração de outros amigos e administrei-lhe a Santa Unção. Depois despedi-me, com a frase que com que ele sempre respondia às minhas provocações: «Este cónego de Braga é mesmo muito marroto!»
Quando o Alfa Pendular se detinha em Braga, o telemóvel disse-me: «O seu amigo partiu!»

Para que escrevo isto?… Porque é assim que espero morrer!… Amado. Acompanhado. Como vela que se extingue na concha amorosa das mãos!...

Ler mais:
«Em três palavras descreve-se como "padre", "do Gerês" e "optimista". Não se deixa definir pela doença. Uma entrevista ao Igreja Viva. Suplemento do Diário Do Minho:

E à Agência Ecclesia:

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