A cena do diálogo de Jesus com a mulher samaritana foi
recriada pelo evangelista João (João 4, 5-42), mas permite-nos conhecer como
era Jesus: um irmão universal enviado por Deus que sabe dialogar sozinho e amigavelmente com a mulher
samaritana, pertencente a um povo impuro, odiado pelos seus irmãos judeus. Um homem que
sabe escutar a sede do coração humano e restaurar a vida das pessoas.
Junto ao poço de Sicar, ambos falam sobre a vida. A mulher
convive com um homem que não é o seu marido. Jesus sabe disso, mas não se
indigna nem recrimina. Fala-lhe de Deus e explica-lhe: «Se conhecesses o dom de
Deus, tudo mudaria, até a tua sede insaciável de vida.» No coração da mulher,
desperta uma pergunta: «Será este o Messias?».
E hoje?
Algo não está bem na nossa Igreja se as pessoas mais
solitárias e maltratadas não se sentem escutadas e acolhidas pelos que dizemos
seguir Jesus. Como vamos introduzir no mundo o seu evangelho sem «nos
sentarmos» a escutar o sofrimento, o desespero ou a solidão das pessoas?
Algo não está bem na nossa Igreja se as pessoas nos veem
quase sempre como representantes da lei e da moral, e não como profetas da
misericórdia de Deus. Como vão «adivinhar» em nós aquele Jesus que atraía as
pessoas para vontade do Pai, revelando-lhes o Seu amor compassivo?
Algo não está bem na nossa Igreja quando as pessoas,
perdidas numa obscura crise de fé, perguntam por Deus e nós falamos de controle
de natalidade, de divórcio ou de preservativos. De que falaria hoje com as
pessoas aquele que dialogava com a samaritana tratando de mostrar-lhe o
melhor caminho para saciar a sua sede de felicidade?
Algo está mal na nossa Igreja se as pessoas não se sentem
amadas por quem são os seus membros. Dizia Santo Agostinho: «Se queres conhecer
uma pessoa, não perguntes o que pensa, pergunta o que ama». Ouvimos falar muito
sobre o que a Igreja pensa, mas os que sofrem perguntam-se o que a Igreja ama,
quem ama e como os ama. Que podemos responder desde as nossas comunidades
cristãs?
Sentindo-se acolhida, a samaritana confessa a própria sede
profunda, a do Messias, e ouve Jesus responder: «Eu sou o Messias que tu esperas.» O encontro com Jesus transformou-a em nova criatura e habilitou-a para ser
testemunha e também evangelizadora: ela correu para a cidade para
anunciar a todos que encontrou o Messias, fonte de todo dom.
É assim também para nós, que recebemos no batismo o Espírito
Santo e o nome de cristãos: somos chamados a discernir nos nossos corações a
fonte que jorra o Espírito e nos torna amigos de
Cristo e suas testemunhas entre homens e mulheres da Casa Comum.
José António Pagola e Enzo Biachi

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