«O clericalismo integrista ameaça a fé» - artigo de José Maria Castillo

«Um dos perigos mais graves e ameaçadores que tem atualmente a fé em Jesus e no seu Evangelho é o integrismo clerical» - escreve José Maria Castillo (na foto com o Papa Francisco).  «Porque insiste em convencer-nos de que há determinadas questões que são "problemas de fé", que são de grande importância, quando na realidade não são "dogmas de fé". Nem têm como "prejudicar a nossa fé". E é que o clericalismo fundamentalista se apega aos costumes e práticas da Antiguidade, que os homens do clero nos apresentam como verdades de fé, quando na realidade não o são. E o pior é que não se trata apenas de coisas que não pertencem à fé, mas também coisas que causam dano aos que querem crer em Deus e ser bons cristãos.

Tornando mais clara esta questão: em vez de falar de “problemas”, no plural, deveríamos falar do “problema” que a Igreja precisa enfrentar e resolver o mais rápido possível. Refiro-me ao enorme problema que representa o desinteresse pelo "facto religioso", que está a aumentar, principalmente nos países mais industrializados. Cada dia as igrejas estão mais vazias. O que se faz e o que se diz nas igrejas interessa cada vez menos à maioria das pessoas. Cada vez mais também diminui o número de padres. Além disso, segundo as leis eclesiásticas, podem ser ordenados sacerdotes apenas homens (não mulheres) e ademais têm de ser homens solteiros.

Assim sendo, estamos realmente certos de que Jesus, o Senhor, quando deu início à Igreja, quis e estabeleceu que nesta Igreja não se pudesse celebrar a Eucaristia, senão quando um homem, e nunca uma mulher, pudesse presidir a celebração? E mais, também temos certeza de que o celebrante tinha que ser celibatário?

De nada disto temos certeza. Dos apóstolos de Jesus, sabemos que eram casados e que afirmavam o direito de viajar com suas esposas (1 Cor 9, 4-5; cf. 1 Cor 7, 3. 4. 5. 10-11. 12-14. 16) (cf. R. Aguirre, Do movimento de Jesus à Igreja Cristã, Palavra Divina, 2009, 227-231). Também é sabido que, nas cartas pastorais, não só se permite, mas até se exige que quem pretenda ser um líder da Igreja, deva por isso mesmo ser casado e educar bem os filhos, porque “quem não sabe governar a própria casa, como cuidará bem da casa de Deus?” (1 Tim 3, 2-5. 12; Tit 1, 6).

Quanto às mulheres, o próprio professor Rafael Aguirre demonstrou que “no movimento missionário cristão, encontramos muitas mulheres e muito ativas. Aparecem, às vezes, colaborando em pé de igualdade com Paulo, ensinando como missionárias itinerantes; são designadas como apóstolos, diáconos, protetoras ou dirigentes”. Algo que, além do mais, era normal na sociedade e na cultura da Roma antiga. O professor Robert C. Knapp sintetiza as suas pesquisas dizendo: “Apresentei numerosas provas do papel ativo das mulheres comuns nas suas próprias vidas, nas vidas dos seus familiares e na vida fora do âmbito familiar, incluindo contratos comerciais, de propriedade e de administração de terras e de atividades sociais e religiosas públicas” (Los olvidados de Roma, Madri, Ariel, 2015, 113).

Por outro lado, na religião de Israel, nunca se rejeitou o casamento dos sacerdotes. E no que diz respeito ao sacerdócio das mulheres, na religião mais antiga conhecida, a religião da Mesopotâmia (s. IV a.C.), os ministros do culto eram tanto os homens como as mulheres (Jean Bottéro, La religión más antigua: Mesopotamia, Madrid, Trotta, 147-152).

O puritanismo, com todas as suas implicações, foi introduzido na Igreja a partir do século iv. Como se justificou esse puritanismo? Não certamente no Evangelho, que nunca tratou do tema da sexualidade. Sabe-se que o puritanismo, que marcou o pensamento medieval, teve sua origem nos séculos iv e v antes de Cristo, em Pitágoras e Empédocles, que tomaram essas ideias dos xamãs do Norte da Europa (cf. ER Dodds, Los griegos y lo irracional, Madrid, Alianza, 2001, 133-169). Do século i ao vii, estas ideias foram assimiladas lentamente pelos cristãos (R. Gryson, Les origines du celibat ecclésiastique du premier au septième siècle, Gemblous, Ed. Duclout, 1970). Ou seja, o celibato não tem a sua origem na Bíblia e menos ainda no Evangelho. Assim como também não se pode fundamentar no Evangelho a marginalização das mulheres, seja na sociedade seja na Igreja.

Então, pode a autoridade eclesiástica suprimir a lei do celibato eclesiástico e permitir que as mulheres presidam a Eucaristia? Para responder adequadamente a esta pergunta, é absolutamente necessário responder a outra questão prévia: qual deve ser determinante, no governo da Igreja, o pensamento dos gregos ou o ensinamento do Evangelho? Por que não temos a liberdade e a audácia de dar a esta questão a resposta apropriada?

É possível que haja cristãos e, mais em particular, clérigos que tenham a convicção de que a doutrina dos sacramentos foi fechada e definitivamente afirmada no concílio de Trento (Sess. VII. Denz.-Hün. nn. 1600-1613). No entanto, é preciso saber que isso não é assim. Porque, ao tratar do tema dos sacramentos, os bispos e teólogos do Concílio de Trento discutiram se o que estavam a debater eram "erros" ou "heresias". E as opiniões dos “padres conciliares” ficaram de tal forma divididas que não conseguiram chegar a um acordo, como consta amplamente no vol. V das Ata do Concílio. Portanto, não é doutrina de fé que os sacramentos da Igreja sejam o que são e tenham de ser celebrados como se celebram.

Posto isto, se os sacramentos são para o bem dos fiéis cristãos, é um dever da autoridade da Igreja legislar e celebrar os sacramentos de maneira que todos os crentes em Cristo – estejam onde estiverem e vivam onde viverem – possam celebrar e participar neles, sobretudo na Eucaristia, ainda que para isso seja necessário que a celebração seja presidida por um padre casado ou por uma mulher ordenada para exercer o ministério sacerdotal. Isso é tão importante e tão urgente que aqueles que exercem a autoridade na Igreja têm a responsabilidade de tornar possível, que não haja sequer uma paróquia ou uma comunidade cristã que não possa celebrar a Eucaristia, pelo menos uma vez por semana.»

José María Castillo, https://www.religiondigital.org

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