Geografia do Amor, por Eça de Queiroz, em «Prosas Esquecidas»


Quando um homem ama uma mulher e não consegue meio de correspondência com ela, o homem é uma ilha.

Se encontra um primo que o aproxima da ninfa, então forma uma península, e o tal primo, que é a porção de terra que a liga ao continente, é um istmo.

Se a menina tem uma amiga que, reconhecendo a nossa paixão, a incita a que nos corresponda, nos sorria e nos afague, essa amiga, metendo-se pelo mar das nossas ilusões, é um cabo.

Se, em vez da amiga é uma tia, ou qualquer parente, pessoa elevada, então é um promontório.

Se alcançamos o consentimento da mamã, que nos defende dos furacões do papá, tal mamã é um porto.

Se, porém, não nos defende, mas se mostra indiferente a que lhe cortejemos a filha, é simplesmente uma bacia.

Todas as paragens em que podemos falar à donzela, regra geral ao abrigo de todo o compromisso com os papás, chamam-se ancoradoiros ou enseadas.

Quando nos correspondemos por intervenção da criada, é esta um estreito que une os dois mares!

Se a criada não é muito escrupulosa, pode considerar-se canal.

Se é difícil conquistá-la, tem de chamar-se um baixio.

Constituem uma barra todos os obstáculos que se nos opõem até chegar à jovem.

Os conhecidos de ambos, que auxiliam os nossos planos, são as correntes que entram para o mar, são os rios.

Se a relação aquece, a corrente é quente, mas, se a relação gela, a corrente é fria.

Se for quente, é do “Golfo”, se for fria, é do “Árctico”.

Quando os amantes confiam reciprocamente os seus segredos, há uma confluência.

Finalmente (quando dão o nó, se não sabem nadar), casar é morrer afogado.

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