«Não veria mal a possibilidade de termos padres casados dentro da nossa Igreja», D. José Ornelas, presidente da Conerência Epioscopal Portuguesa

D. José Ornelas, bispo de Setúbal e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, não enjeita o fim do celibato obrigatório dos padres e admite que a criação das comissões dedicadas a lidar com casos de abuso sexual de menores possa levar a um aumento das denúncias.

Natália Faria, em Público 21 de Junho de 2020

José Ornelas Carvalho assumiu a presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que acumulará com a Diocese de Setúbal, onde é bispo desde que, em 2015, deixou de ser superior -geral dos Dehonianos. Nesta entrevista, alerta para o perigo da deriva totalitarista. E, não, o fim do celibato dos padres não o assusta.

Como presidente da CEP, como responde aos que acusam este organismo de ser pouco eficaz?
Esta pandemia veio pôr em relevo a necessidade de recriar tudo, de rever modos de estar e actuar. E também a CEP tem de se interrogar e de ver como trabalha e como intervém no interior da Igreja e do país. Na última assembleia, foi aprovado um documento com a nossa visão sobre a sociedade, à luz da pandem ia. Não foi uma tarefa fácil, mas mostrou que, no essencial, a CEP não está dividida. Agora, não estar dividida é uma coisa, aprendermos a colaborar melhor é outra. E, aí sim, precisamos de trabalhar melhor e em rede, para integrarmos todas as forças activas da Igreja. Isso é um desafio, mas é-o para todas as instituições.

Finda a pandemia, conseguirá a Igreja acabar com os velhos clericalismos que o Papa critica, para se tornar mais circular?
Disso não tenho dúvida. Mas antes de mais é preciso entender que a CEP não é propriamente um órgão de governo, é-o no sentido em que os bispos no seu conjunto formam uma instância colegial de orientação da Igreja em Portugal. Mas o presidente da CEP não é uma entidade legislativa. São os bispos que colegialmente caminham juntos e esse caminhar juntos é que deve ser desenvolvido, respeitando a identidade de cada diocese. Falava na perspetiva de a CEP se poder afirmar como voz político-moral da sociedade... olhe que o problema não é tanto de falta de falar, é da falta de se ouvir. Mas, sim, precisamos de estar mais activos e de perceber as diversas correntes, visões e linguagens. Na Igreja temos uma tradição, mas isso não pode ser significado de paralisia.

Num mundo que evolui rápida e radicalmente, a Igreja tem de encontrar novos modos de se dirigir a este mundo e à sua realidade complexa e fecunda. A CEP apelou a um reforço da presença do Estado na sociedade e na economia. Vê margem para isso numa altura em que o peso da despesa pública vai regressar a valores próximos dos 50% do PIB?
O documento tem de ser lido no seu conjunto e com ele não quisemos voltar à ideia de uma economia planificada e estatizada. O documento não é um programa de nacionalizações, mas um alerta no sentido de dizer que o Estado tem de criar condições para que o país seja capaz de se desenvolver com harmonia. E criar condições não significa que tem de fazer tudo. Pelo

contrário, se o Estado quiser fazer tudo, vai sair muito caro a todos e, além disso e o que é pior, não conta com a criatividad e e a iniciativa da sociedade. Veja-se o exemplo dos nossos bombeiros ou das IPSS [instituições particulares de solidariedade social]: se tivesse de ser o Estado a suportar o custo destes serviços, sairia muito mais caro. O papel do Estado em relação a estas instituições passa por dar-lhes capacidade de sobreviver e de actuar.

Na entrevista, o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CE) diz que “não veria mal” a possibilidade de haver padres casados na Igreja Católica de rito latino – já que eles existem no rito oriental. D. José Ornelas, afirma “Não vejo mal nisso. Agora a discussão não deve ser colocada porque temos pouco padres; deve incidir naquilo que é o sacerdócio e no que ele significa para a Igreja como um dos ministérios fundamentais.”

Comentários