Texto de Eugénio Fonseca, Presidente da Cáritas Portuguesa, em revista
Além-Mar, julho-agosto 2020. Foto: Cáritas (Facebook)
Recuso-me
a fazer uma leitura providencialista da pandemia que está a atingir
o mundo.
Também
não a posso fazer com uma atitude ateísta. Acredito, firmemente, no
Deus revelado por Jesus Cristo como nosso Pai (cf. Lc 11, 1-4) e,
segundo a designação de S. João, como Amor em plenitude (cf. I
João 4,16). Ora, um Deus assim não quer o sofrimento e a morte dos
seus filhos e filhas, que ama infinitamente sem qualquer forma de
discriminação.
Por
outro lado, não é um malabarista que, como Criador do Universo,
dispõe dele conforme as suas conveniências. O verdadeiro Deus não
é assim. Além do amor que d’Ele emana, o que me apaixona em Deus
é ter assumido o risco de nos ter criado livres e inteligentes, com
todas as condições para fazermos opções e capacidades para
continuarmos a recriar, potenciando, com Ele, a obra da Criação
(cf. Gn 1, 28).
Se
permite o sofrimento é para que dele tiremos o bem necessário.
Assim deve ser entendido o surgimento da covid-19. Esta desgraça
veio recordar-nos que “dominar a terra” não é utilizá-la a
nosso bel-prazer; que somos criaturas interdependentes, incluindo não
só as humanas; que o respeito pelos outros, particularmente pelos
mais débeis, é um dever inalienável; que temos ainda muito a
conhecer sobre a Natureza e a vida; que há valores inegociáveis,
dada a sua essência.
Outras
conclusões ainda hão de surgir?!
Esta
pandemia também veio lançar desafios à ação da Igreja Católica.
Ninguém questionará a sua exemplar colaboração para que a
contaminação do vírus não tivesse maior amplitude, enfrentando
até fundamentalismos internos. Contudo, entre outras ações
pastorais, esta pandemia veio chamar a atenção para a necessidade
urgente da renovação da pastoral social, que tem de ser capaz de
ler os sinais dos tempos e dar-lhes respostas por antecipação e não
por reação. Até porque nos impele a isso a intervenção do
Espírito Santo, que não se dá bem com o marasmo do “sempre se
fez assim”, como nos recordou o Papa Francisco (cf. Evangelii
Gaudium, 33), mas é a “força motriz” da renovação de
todas as coisas (cf. Ap 21,5).
Deixo
a minha modesta opinião sobre o que me parece urgente renovar.
Assim:
(i)
Assumir a prática organizada da caridade como essencial para a
credibilidade da fé incarnada, e das razões da esperança que a
Igreja tem de ser para o mundo.
Fazer,
de verdade, preferência pelos mais pobres;
(ii)
Fazer tudo para que cada paróquia, ou unidades pastorais, tenham um
grupo bem organizado para que, em nome da comunidade cristã, se
promovam ações de caridade libertadora. Esta ação não se pode
esgotar nos centros sociais paroquiais;
(iii)
Renovar os grupos existentes, promovendo a cultura intergeracional
com vista ao imperioso rejuvenescimento;
(iv)
Capacitar os agentes da pastoral social para que possam fazer bem, o
bem que devem fazer;
(v)
Criar dinamismos de parceria com outras organizações civis e de
comunhão intraeclesial.
Se
não se olhar a sério para esta dimensão evangelizadora da Igreja,
continuaremos a ter católicos muito religiosos, mas pouco cristãos.

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