«Mamã, só quero morrer. Quero ir para o Céu, onde não existe mais dor, e viver com Jesus.»
Foram estas frases que Annabel Beam, aos 9 anos, disse à mãe depois de mais de quatro anos de exames, cirurgias, internamentos e medicamentos.
Ela tinha chegado ao seu limite. Com uma doença rara e fatal no aparelho digestivo, já não havia muito mais que Christy e Kevin, a mãe e o pai, pudessem fazer para aliviar o sofrimento.
Tudo começou com uma simples dores de barriga quando Annabel tinha 4 anos. Aos 5 foi operada duas vezes e quase morreu. O diagnóstico apareceu depois: os intestinos deixaram de cumprir a sua função, não consegue fazer a digestão corretamente nem absorve nutrientes.
Annabel passava os dias deitada com um aparelho aquecido na barriga que lhe aliviava a dor e tomava mais de dez medicamentos. A família recebia muito apoio da comunidade da igreja batista de Alsbury, que frequentava.
Quando Annabel disse à mãe que queria morrer, na cama de um hospital em Boston, estava mais fraca do que nunca.
Uma semana depois, pediu à mãe para ir brincar para o jardim com as duas irmãs e Christy ficou surpreendida com a energia repentina.
Annabel trepou a uma árvore e um ramo partiu-se. Caiu de cabeça, de uma altura de nove metros, e ficou presa num orifício do tronco.
Foram precisas cinco horas para que uma equipa de bombeiros a resgatasse.
Um helicóptero levou a criança até ao hospital pediátrico de Fort Worth, onde os testes se prolongaram durante horas. Christy esperava o pior: afinal, ninguém podia sobreviver a uma queda daquelas sem ferimentos graves. Ainda assim, os exames tinham todos o mesmo resultado: negativo.
No dia seguinte, os pais levaram-na para casa e foi aí que ela contou o que lhe tinha acontecido:
- Sentei-me no colo de Jesus e queria ficar lá, mamã, porque não há dor no Céu. Mas ele disse-me que eu não podia, que não era a minha hora e que tinha de regressar, que havia planos na Terra para mim que eu não podia cumprir no céu e que, quando os bombeiros me tirassem de lá, não haveria nada de errado comigo.
Annabel começou a brincar, a rir e os tratamentos foram sendo adiados, primeiro semanas, depois meses.
A mãe pensou que, de facto, era um milagre a filha não ter partido qualquer coisa mas não imaginou mais nada para além disso.
Christy nunca pressionou a filha para que esta lhe contasse toda a experiência mas foi tomando nota de coisas soltas que a criança dizia.
Esta história verídica está relatada no livro Milagres do Céu, escrito por Christy Beam, e no filme O Nosso Milagre, disponível na Netflixe, que, todavia, não é totalmente fiel aos factos.
«Na verdade, não é a nossa história, é a história de Deus. Que Deus nos usasse para partilhá-la é avassalador», disse Christy Wilson Bean à agência noticiosa católica “Aleteia”
Milagres e preconceitos entre os crentes
por José Luís Rodrigues
1. No filme «O Nosso Milagre», os médicos ficam perplexos com a cura e a fé da família inspira toda a comunidade.
O filme está cheio de religiosidade e de experiências de confiança em Deus, momentos de oração e diálogos sobre o acreditar ou não. Os sinais de fé são muitos (por exemplo, a menina, faz oração e sempre se mostra confiante em Jesus que ela diz estar sempre com ela).Também há momentos de descrença e de revolta contra Deus e contra a existência por ser abraçada pela contingência do sofrimento.
2. Gostaria de dar-vos conta de um dos muitos momentos de sinais religiosos. A família habitualmente participa nas cerimónias da sua igreja.
No final de uma cerimónia a mãe da menina conversa com três senhoras, zelosas como são todas as senhoras que andam sempre bem vestidas pelo fato religioso, mas vigias da vida alheia, sentenciam ali sem dó nem piedade, após perguntarem pelo estado de saúde da menina, que ela está doente e não se cura por causa dos pecados de alguém da família, ou os da mãe ou os pecados do pai. Obviamente, que uma mãe que escuta isto, fica revoltada e promete não rezar mais nem colocar mais os pés na igreja. Passado algum tempo, a custo e por pressão do marido voltaram à igreja e há um momento em que o pastor conversa com ela e diz-lhe que tem conhecimento do episódio que se tinha passado com ela e as três mulheres da igreja no outro dia. O pastor remata, «como imagina na igreja entra todo o género de pessoas e eu não posso realizar o teste de QI religioso para ver quem tem capacidade ou não para entrar na igreja». Deve ter servido para que esta mãe se reconciliasse um pouco com o sentido da fé.
3. Todas as igrejas têm gente deste género. O zelo pela «fezada» devora-os, pois não se inibem de mostrarem que a fé não é para ser vivida na perspetiva da libertação, mas com fardos pesados opressivos. No capítulo 9 do Evangelho de São João, Jesus passando viu um cego de nascença, curou-o, os discípulos vendo isto disseram: «Mestre, quem pecou, este ou os seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para se manifestar nele as obras de Deus» (Jo 9, 1-3).
Assim, consideramos que as deficiências que a natureza arrasta não são castigos por causa de pecados nem do próprio nem de ninguém que esteja à sua volta. Claro que não descuremos que muitas das doenças resultam das mais ações e de abusos contra o corpo físico que suporta tudo até certa medida. Mas nenhuma doença é por causa do pecado de ninguém, como conceito apresentado pelas senhoras do filme e como muito boa gente pensa e anda a pregar por todo o lado. O pecado é de outra ordem. É da ordem da vida espiritual quando violentada por ações contrárias aos valores e princípios humanos, religiosos e da conduta da relação de uns com os outros. Estas ações vão arrastar por si mesmas sofrimentos pessoais e sociais, injustiças e violação de direitos e deveres humanos. Mas, nunca como castigo de pecados, porque a ideia de infinita da misericórdia de Deus e o pronunciamento claro de Jesus no Evangelho não confirmam que se pense que as doenças e as desgraças que se abatem sobre a humanidade são o resultado das suas ações pecaminosas.
Está na hora de purificar esta forma de pensar, para que ninguém se imponha sumariamente como juiz, pronunciando sentenças sobre ninguém, ainda mais se passa por situações dramáticas de sofrimento por causa de uma doença. Bem vejo que as nossas igrejas têm gente que com o seu zelo desmedido pela fé são autênticos viveiros para fazer crescer o número dos ateus. As igrejas deviam ser apenas e só regaços onde se aconchegam uns e outros solidariamente na alegria e na tristeza. E isto bastaria para nos ajudarmos uns aos outros. Pois o pecado não mora sempre ao lado, alguns vezes está também na casa do nosso coração, por isso, a ninguém é legítimo atirar pedras a ninguém.
Por José Luís Rodrigues
Título: O Nosso Milagre (Miracles from HeavenI
De: Patricia Riggen
Género: Drama
Duração: 109 minutos.
Amostra: https://youtu.be/c90DAuGs1KI

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