Entrevista a Patricia Gualinga, uma dos três indígenas nomeados para a Conferência Eclesial da Amazónia
Nasceu a Conferência Eclesial da Amazónia. O novo organismo, fruto do Sínodo, é presidido pelo cardeal Hummes. Dos três representantes indígenas nomeados, dois são mulheres: "Nós merecemos, levamos adiante comunidades inteiras, não devemos ficar invisíveis", afirma Patricia Gualinga, indígena quíchua, do Equador: "Eu, mulher secular e indígena no meio dos bispos"
Menos de cinco meses após a publicação de "Querida Amazónia", a exortação, ou melhor, a carta de amor escrita pelo Papa Francisco após o Sínodo na Região Pan-Amazónica de outubro de 2019, nasceu oficialmente em 29 de junho a Conferência Eclesial da Amazónia. Um fruto no meio do deserto humano, social e económico causado pelo Covid, que pôs de joelhos uma parte de um mundo já sofrido e que até agora causou mais de 13 mil vítimas. Para conduzir o novo organismo foi eleito, após três dias de assembleia através da web, o cardeal Claudio Hummes, presidente da REPAM.
Significativa, a escolha de colocar ao seu lado três representantes indígenas; entre estes Patrícia Gualinga, da comunidade Quíchua de Sarayaku (Equador), realidade que Vatican Insider teve o privilégio de conhecer de perto. Ativista de direitos humanos, que esteve várias vezes na ONU para denunciar as condições de vulnerabilidade em que vive a sua população, Patrícia explica qual será o seu papel na Conferência eclesial e como isso representa um passo à frente para as muitas mulheres da Amazónia que aspiram a uma maior participação na Igreja: "Nós merecemos isto, não somos invisíveis".
Patricia, única leiga e indígena num organismo eclesial composto principalmente por bispos. O que isto significa para você?
"É certamente uma honra, mas principalmente uma grande responsabilidade. Raramente, para não dizer nunca, leigos e muito menos indígenas foram envolvidos em instituições da Igreja. A minha nomeação, junto com a de Dario Siticonatzi e a da irmã Laura Vicuña, ajudará a oferecer uma visão, a partir de dentro, dos povos indígenas, do que eles sofrem e do seu empenho na defesa dos seus territórios. Será também uma maneira de se entender que tipo de acompanhamento a Igreja deve oferecer a estas pessoas".
Que tipo de mensagem envia a sua presença na Conferência Eclesial às tantas mulheres indígenas para as quais o Sínodo pedia uma participação mais ampla na Igreja?
"É sem dúvida um passo adiante, ainda que seja só pelo fato de nunca ter acontecido antes. Para mim pessoalmente, repito, trata-se de uma responsabilidade enorme, porque através de mim quer dar-se visibilidade a muitas mães, avós, irmãs, filhas que vivem na Amazônia. Mulheres que dão suporte às famílias e comunidades inteiras e aspiram a uma presença maior nos espaços da Igreja. Nós, mulheres, merecemos, precisamos agir, falar, não devemos ficar invisíveis! Espero que isso possa abrir as mentes e as faça refletir sobre as novas transformações que o momento histórico atual exige".
Desde há muitos anos, você traz ao mundo o clamor dos povos nativos. O seu nome é identificado como "ativista dos direitos humanos". Esta nova incumbência que contribuição dará à sua missão?
"Defender a Amazónia e o seu ecossistema é um direito humano vital. Darei prosseguimento ao meu compromisso e não acho que deva mudar, pelo contrário, fazer parte de um organismo com este será um impulso para insistir para que a Igreja seja amiga e aliada da Amazónia e veja nela uma parte vital para o equilíbrio do planeta. Estamos falando de um dos lugares da criação de Deus, importante para a humanidade, mas também para a própria Igreja".
Como se desenvolverá o trabalho da Conferência eclesial? Já foi elaborado um programa de trabalho?
"Trabalharemos a partir do território, ‘cruzando o território’, como solicitado pelos Padres do Sínodo no Vaticano. A Conferência nada mais é do que o resultado da longa jornada que foi o Sínodo, assim como o fruto do documento do Papa Francisco".
Sínodo que recebeu várias críticas porque teriam sido introduzidos na Igreja Católica símbolos e ritos pagãos...
"Sim, eu também li comentários desse tipo. Ainda existe gente que vê a presença de uma pessoa como eu como algo irritual ou mesmo como um sacrilégio. Eu acho que é uma visão triste que impede que se veja o que, talvez pela primeira vez, se está realmente fazendo, ou seja, unir forças para defender os direitos de pessoas que sofrem. Naturalmente, a espiritualidade é transversal: não se trata de impor-se um ao outro, mas de respeitar-se e olhar mais além. É esta a riqueza".
Mas para os indígenas, alguns dos quais se queixaram no passado de uma ingerência da Igreja nas suas culturas e tradições, é positivo ou não que tenha nascido uma instituição deste tipo?
"Muitos acolheram o organismo eclesial como um apoio e uma instância que deu voz às suas propostas. O objetivo é trabalhar a partir do território, o que significa olhar de dentro as necessidades das populações nativas, acompanhando-as, lado a lado, como amigos e não como uma instituição que se vem impor. A verdadeira pergunta, na minha opinião, é outra".
Qual?
"O que significa para a Igreja universal ter uma Conferência eclesial pan-amazónica? Creio que seja um desafio para que se aplique realmente o que diz o Evangelho: estar ao lado dos pobres. Espero que se possa ter um novo reposicionamento da Igreja no território amazónico e não só".
Mas agora há a Covid que agrava uma situação já complexa. O que você fazem para enfrentar a emergência?
"A Amazónia está vivendo muitas emergências, o coronavírus é o último elo de uma cadeia de sofrimentos. Há inundações que afetaram as casas e os cultivos dos povos indígenas; há a contaminação com o rompimento contínuo de oleodutos deteriorados que contaminam com substâncias tóxicas as lavouras ou a água; há a dengue, o paludismo, o abandono do Estado. Estamos tentando agir graças aos voluntários, aliados, amigos. A Igreja "mistura-se" com este grupo: a REPAM trabalha duro, assim como os episcopados locais. O que estamos fazendo é enfrentar a emergência de frente e obter respostas do governo que não assumiu as suas responsabilidades. Na verdade, acho que nunca sequer pensou nisso! Fomos deixados numa condição de abandono. Mas a Amazónia é muito grande e precisa de muitas respostas, diferentes e imediatas".
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