Uma espiritualidade do viver quotidiano, para padres e leigos: «Deveríamos estar todos ao serviço uns dos outros»

Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista, propõe um estilo de vida alternativo. Inspira-se na obra do espiritual Henri Nouwen intitulada Uma espiritualidade do viver. O texto, publicado em Unisinos, segue a ordem: isolamento (solidão), comunidade (celebrar) e ministério (fazer).

Solidão que faz descobrir-me que sou amado,
comunidade onde celebramos juntos esta dádiva
e ministério que nos leva a servir na gratuidade,
eis as três grandes colunas de sustentação de uma espiritualidade do viver.

Eis o texto:
«Creio que a dor mais profunda do ser humano é a de não sentir-se amado. 

A famosa ideia de progresso estabelece os padrões de felicidade que devemos alcançar para sermos reconhecidos. A sociedade moderna prega um progresso linear, mas não sabe onde quer chegar. Simplesmente avançamos, mas sem ter uma meta a alcançar. Vivemos projetando-nos em situações que ainda não existem. Deixamos de habitar com intensidade o presente.

A sabedoria que os mestres espirituais nos propõem consiste em não preencher a nossa vida com atividades, em não se preocupar com o que temos de fazer no dia seguinte, mas simplesmente em viver cada momento como se fosse o último.

Isolamento (solidão). Tudo deve começar por aqui. Na solidão descobrimos o amor próprio. Inicialmente, devemos entender que não necessitamos da aceitação da sociedade para sermos felizes. Devemos amar-nos como somos, com os nossos dons e limites.

O problema moderno é forçar-nos a entrar em padrões estabelecidos, como a moda, a cultura do consumo, o sistema financeiro que nos dá uma falsa sensação de liberdade, etc.

A solidão consiste num estilo revolucionário porque resgatamos o livre-arbítrio. As novas tecnologias, apesar das inúmeras vantagens, manipulam nossos dados e privacidade. As grandes empresas impõem, quotidianamente, as suas propagandas que criam padrões de homogeneidade, fortalecendo assim a ditadura do igual. Neste sistema não há alternativas.

A solidão é crítica porque me faz tomar distância para refletir sobre o que realmente vale a pena.

Comunidade (celebrar). Se é na solidão que descubro que sou amado independente dos padrões sociais de aceitação, então estar em comunidade se trata de viver a unidade na pluralidade, ou seja, celebrar juntos os dons de cada um, sem processos seletivos.

A dimensão social do ser faz parte da alma política de cada indivíduo. A convivialidade é algo intrínseco a existência humana. Quando dizemos comunidade nos referimos a capacidade de respeito incondicional que se deve prestar a cada pessoa.

O sistema atual é excludente porque seleciona os mais fortes. Trata-se de um neodarwinismo disfarçado. O desafio consiste em criar espaços comunitários mais celebrativos, nos quais se trabalhe o acolhimento das diferenças, sem sufocar a identidade pessoal de cada um.

Ministério (fazer). Este é o último passo, mas não menos importante, do estilo alternativo de vida que estou a propor. 

Alguém que se descobriu amado e que aceita celebrar esta dádiva com as diferenças, sem impor nada, torna-se realmente um ministro sensível aos apelos da vida.

A dimensão do fazer não é um mero executar de atividades. Ministrar é o mesmo que servir. Como ministros deveríamos estar todos ao serviço uns dos outros. A lógica que impera é aquela da gratuidade.

Mais uma vez, tem-se aqui um contraste com a sociedade moderna, pois a mesma parte do pressuposto da eficiência e eficácia.

No entanto, um modelo de vida alternativo baseia-se no dom de si, ou seja, cada um é convidado a entrar em cena e contribuir com algo de bom, independente dos seus limites humanos. Para despertarmos a tal dimensão deveríamos aprender a ter mais contacto com a realidade da dor alheia. É emocionante, por exemplo, ver em lares de idosos os próprios idosos, a maioria esquecidos pelos seus familiares, a servir os mais frágeis: uns a ajudar a levar a comida à boca, outros a empurrar as cadeiras de rodas daqueles que não têm forças nos braços; e tantos outros exemplos que poderíamos citar. Isso trata-se de um fazer que humaniza. Por outras palavras: o segredo está em experimentar aquilo que achamos desnecessário, pois não nos trará reconhecimento e produtividade. Mas é só nesta lógica que se encontra a felicidade.

Solidão que faz descobrir-me que sou amado, comunidade onde celebramos juntos esta dádiva e ministério que nos leva a servir na gratuidade, eis as três grandes colunas de sustentação de uma espiritualidade do viver. E você, não acha que chegou o momento de olhar a vida a partir desta ótica?»

Comentários