«Este é o modelo para o fiel leigo: atolados até o pescoço no barro do mundo, e modelar aí os tijolos para a edificação do Reino de Deus»

Aos 17 anos, Madeleine Delbrêl declara-se descrente, ateia, depois de estudar Filosofia e Artes. Mas Deus tem planos para ela…

Nasceu, em 1904, em Mussidan, França. Filha e neta de ferroviários, foi batizada e fez a primeira comunhão.

Ao longo da sua infância, morou em vários lugares, e nunca foi capaz de se sentir em casa ou fazer amigos em qualquer lugar.

Aos 15 anos, sente a vida como um absurdo. Aos 17, escreveu um tratado intitulado: «Deus está morto – Vida longa à morte!», que expressava a sua visão de que a morte é a única certeza na vida.

Gostava de conversar com filósofos e namorou com um estudante de Filosofia ateu na Sorbonne. Inesperadamente, o seu noivo interrompe o noivado para entrar na Ordem dos Pregadores, os Dominicanos. Logo em seguida, o seu pai fica cego. Um vazio inunda a vida de Madeleine.

Ao mesmo tempo, ela começa a perceber que a vida não parecia absurda para os seus amigos cristãos. E pensa: se Deus existir, é agora que preciso Dele. No contacto com jovens cristãos, ela examina a hipótese de Deus e dedica tempo à oração.

Por meio do escutismo, e com a ajuda do padre Jacques Lorenzo, capelão do grupo, ela vai descobrindo lentamente a sua vocação: colocar os conselhos evangélicos na vida laical no coração do mundo.

Torna-se assistente social e, com 29 anos, trabalha na periferia operária em Ivry-sur-Seine, a única prefeitura comunista da França. Exatamente ali, Madeleine pode confrontar o ateísmo marxista e o Evangelho de Jesus Cristo. E 49 anos mais tarde, seria publicado postumamente o seu livro “Ville marxiste, terre de mission” [Cidade marxista, terra de missão], em que ela avalia as teses do marxismo como autêntico desafio à descoberta de Deus.

Foi nas ruas, em contacto com os mais pobres, que Madeleine encontrou o Deus que antes negava. Acotovelando-se com os comunistas, colabora no que julga possível, mas nega-se a qualquer ação que representasse um ato direto contra Deus.

Como leiga, ela funda uma comunidade de mulheres chamada La Charité, mais tarde será conhecida como “Equipes Madeleine Delbrêl”. O seu lema? “Ser Cristo ali”. O seu método? Contacto com as pessoas onde elas vivem, fazer amizade, recebê-las em casa, ajudar-se mutuamente. No seu livro “Nós, gente da rua” desenvolve o seu “método” de ser uma leiga cristã mergulhada em plena missão.

E assim temos uma definição para o leigo: gente da rua! Não é gente da sacristia nem do presbitério. Misturam-se à gente comum – inclusive os ateus – e irradiam um amor que não se encontra em outros meios.

A causa de beatificação de Madeleine Delbrêl foi introduzida em Roma em 1990. A 26 de janeiro de 2018, o Papa Francisco autorizou a Congregação para a Causa dos Santos a promulgar o decreto que reconhecia as virtudes heroicas de Madeleine, tornando-a Venerável.

Curiosamente, o jornal italiano “Avvenire”, em matéria de 27/01/2018, define Madeleine Delbrêl como “uma das maiores místicas do Séc. XX”. Mística? Sim. Sem visões, sem êxtases, sem estigmas, mas irradiante de amor, demonstrando que existe uma mística do serviço ao próximo, certamente mais útil ao nosso tempo que outras variantes medievais.

O documento 105 da CNBB, que dá as linhas gerais para o Ano do Laicado, fala da espiritualidade de comunhão e missão. “Em sua inserção no mundo, os cristãos leigos são convidados a viver a espiritualidade de comunhão e missão. Comunidade missionária, a Igreja está voltada ao mesmo tempo para dentro e para fora, num movimento de sístole e diástole. A espiritualidade de comunhão e missão tem seu fundamento na comunidade trinitária e no mandamento do amor.”

“O outro não é apenas alguém – prossegue o Documento -, mas um irmão, dom de Deus, continuação da Encarnação do Senhor. As atitudes de alteridade e gratuidade são expressão da espiritualidade de comunhão. O outro é diferente de mim. E essa diferença nos distingue, mas não nos separa. Espiritualidade de comunhão e missão significa respeito mútuo, diálogo, proximidade, partilha, benevolência e beneficência.” (nº 193)

Madeleine Delbrêl encaixa-se com perfeição neste quadro. Alegre e bem-humorada, é delicada sem perder a firmeza. Com notável capacidade de empatia, ninguém estava excluído do seu círculo de relações. Algo parecido com o antigo comentário sobre os primeiros cristãos: “Vejam como eles se amam!”

Estes três homens políticos santificaram-se na sua missão mundana

Em 1945, terminada a II Guerra Mundial, a Europa devastada estava em ruínas tanto no plano material quanto no plano social. O fim dos combates não trouxe a paz. A guerra deixara uma herança de inimizades, ressentimentos, desconfianças.

Em 1950, um leigo católico francês, Robert Schuman, ministro de Estado – cujo processo de beatificação corre na Santa Sé –, propôs a formação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Esta seria o germe inicial da atual União Europeia.

Schumann logo teve o apoio de um leigo católico alemão, o chanceler Konrad Adenauer – cujo processo de beatificação também decorre na Santa Sé.

E prontamente aderiu ao sonho da unificação europeia outro leigo católico, o italiano Alcide De Gasperi – de quem, igualmente, está em andamento o processo de beatificação na Santa Sé – e foi presidente e primeiro-ministro da Itália.

Eram três leigos que, periodicamente, se retiravam para mosteiros para um retiro espiritual, e ali, no silêncio e na oração, buscavam as luzes para iluminar as trevas espalhadas pela guerra e pelo ódio do nazismo e do comunismo. Não admira que a bandeira da União Europeia traga o desenho de 12 estrelas. Aquelas mesmas 12 estrelas de Apocalipse 12: «Viu-se no céu um grande sinal… A mulher revestida de sol… e na cabeça uma coroa de 12 estrelas.»

Estamos a falar de três homens públicos. Três políticos… Essa estranha raça que parece leite e azeda de um dia para o outro! Mas estes três não se corrompem no contacto com o mundo. Pelo contrário, eles santificam-se na sua missão… mundana! Sobre raízes cristãs, eles edificaram a atual Comunidade Europeia.

Este é o modelo para o fiel leigo: atolados até o pescoço no barro do mundo, e modelar aí os tijolos para a edificação do Reino de Deus…

Atenção! Não estou a falar de heroísmo! Estou a falar de leigos que buscaram na oração a força para o desempenho da sua missão. O sujeito ativo de que fala o DOCUMENTO 105 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Cristãos leigas e leigos na igreja e na sociedade (Mateus 5,13-14) não é um “ativista”, é um batizado que segue as inspirações do Espírito Santo, contando muito mais com a Graça divina do que com o suor na testa e as mangas arregaçadas.

O Doc. 105 afirma que o leigo deve ser SAL e LUZ: «“Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14), assim Jesus definiu seus discípulos e a missão que a eles conferiu. As imagens evangélicas do sal e da luz, embora se refiram indistintamente a todos os discípulos de Jesus são particularmente significativas se aplicadas aos cristãos leigos/as. Expressam sua inserção profunda e participação plena nas atividades e situações da comunidade humana, sobretudo, falam da novidade e originalidade de uma inserção e de uma participação destinadas à difusão do Evangelho que salva. Sal e luz, símbolos milenares de conservação e iluminação do que deve permanecer, continuar e durar, possuem significados densos, precisos e preciosos para a vida, a identidade, a espiritualidade e missão dos cristãos leigos e leigas. Nem o sal, nem a luz, nem a Igreja e nenhum cristão vive para si mesmo. Sua missão é sair de si, iluminar, se doar, dar sabor e se dissolver. Os cristãos leigos e leigas, na Igreja e na sociedade, devem ter olhares luminosos e corações sábios, para gerar luz, sabedoria e sabor, como Jesus Cristo e seu Evangelho» (n. 13).

Ocorre, porém, que nós somos humanos e não temos Luz própria! Precisamos buscar em Deus essa luz a ser irradiada.

Exemplo admirável de leigo iluninado pela Luz/Graça de Deus 
Conheço um exemplo admirável dessa cooperação com a Graça. Trata-se de um homem negro norte-americano.

Numa fazenda do Missouri, sul dos EUA, nasceu um filho de escravos, em 1860. A sua família foi sequestrada por bandidos e somente o pequeno foi localizado depois. Por um desses factos que o simples acaso não explica, o negrinho da fazenda dos Carver acabou admitido numa escola agrícola exclusiva para negros.

Então, precisou de documentos, mas ele nem conhecia o próprio nome. Escolheu, então, o nome de um americano famoso – George Washington – e o sobrenome de seu ex-dono, um imigrante alemão chamado Carver. George Washington Carver!

Certo dia, já na escola, ele rezava no seu quarto e pediu a Deus:
- Senhor, peço que me dê toda a ciência.

Na mesma hora, ele ouviu uma risadinha interior, e uma voz que lhe dizia:
- É demais para a sua cabeça, George…

Ele resolveu baixar o nível e pediu:
- Então, me dê toda a ciência agrícola…

A risadinha se repetiu e ele ouviu:
- Ainda é demais para a sua cabeça…

George olhou pela janela e viu um pé de amendoim. Na época, uma planta trazida pelos escravos africanos e sem nenhum valor comercial. E ele rezou:
- Então, Senhor, me dê toda a ciência do amendoim!

A risadinha não se repetiu. E ele entendeu que a sua oração tinha sido atendida.

Ao morrer, George Washington Carver deixaria registadas nada menos que 2000 patentes industriais a partir do amendoim. Em 1916, Carver foi eleito membro da Royal Society of Arts, na Inglaterra. Na I Guerra Mundial, o amendoim foi a base para a fabricação de plásticos, pneus, leite e uma centena de outros produtos. A cultura do amendoim cresceu a tal ponto, que os EUA tiveram como presidente… um plantador de amendoim: Jimmy Carter.

Botânico, agrónomo, inventor, bom músico, destacado pintor, Carver recusou o convite para trabalhar no laboratório de Thomas Edison, abrindo mão de excelente salário. Ele optou por dedicar toda a sua vida a ensinar os pequenos agricultores a recuperarem as suas terras e adotarem métodos de plantio mais adequado.

Carver nunca se casou. Ele dizia: – «Nenhuma mulher vai querer viver a vida pobre que eu vivo…»

E tudo começou com uma… oração… de um jovem negro de uma igrejinha pentecostal…


Antonio Carlos Santini
Licenciado em letras – Português e Francês. Professor de Artes e Ciências Humanas. Evangelizador, compositor, autor de vários livros de catequese e poesia,

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