Presbíteros para nosso tempo: o que é preciso refletir?


Há quem tenha quase que uma verdadeira devoção (do ponto de vista psicanalítico, bem mais que isso) por padres: pela figura e pelo que se pensa que eles representam. 

Há, também, quem tenha completa aversão por tudo aquilo que é clerical. 

O que não se pode negar é que o catolicismo atual não se compreende sem esse figura na sua trama religiosa.

O Concílio Vaticano II procurou resgatar uma eclesiologia de comunhão, na qual a hierarquia reocupasse o lugar que a ela cabe na eclesialidade: a do serviço ao povo de Deus.

O atual Código de Direito Canónico, posterior ao derradeiro Concílio, reforça um modelo de Igreja na qual a hierarquia está bastante ligada ao poder. Párocos são, nessa perspetiva, quase que senhores feudais, segundo legisla o Direito Canónico.

O catolicismo atual, com vistas às perspetivas de futuro, precisa pensar, com responsabilidade e abertura, o ministério presbiteral na vida da Igreja. 

É preciso não romantizar o ministério ordenado. 

Falar em vocação na vida da Igreja é um desafio, pois não se trata de uma eleição, tal qual nos moldes bíblicos o povo de Israel se compreendia (e compreende). A apropriação da compreensão de "que tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110,4), aplicando-a ao ministério ordenado, é uma desonestidade intelectual e bíblica sem tamanho; sem contar a ideologia que isso abarca.

Pode-se, sim, compreender a vocação como um chamamento de Deus, mas isso precisa de ser bem compreendido. A vocação, antes de mais nada, é um clamor interno que a pessoa precisa discernir.

No repensar do ministério ordenado, é urgente que avancemos na compreensão de que o exercício presbiteral não se restringe à administração dos sacramentos e, ainda menos, na administração jurídica da paróquia. 

Nos nossos tempos, a legitimidade do exercício do ministério presbiteral depende do compromisso testemunhal de uma vida disponibilizada ao serviço do Evangelho. Isso significa que o ministério ordenado deve espelhar-se em Cristo Servo Sofredor, tal dcomo nos apresentam os Evangelhos. 

Orgulhem-se de serem chamados pastores, de facto, os presbíteros que se deixem conformar e configurar pelo paradigma do Bom e Belo Pastor: aquele que realmente dá à vida pelas suas ovelhas, cuidando do rebanho «governando-o não à força, mas de boa vontade, tal como Deus quer; não por um mesquinho espírito de lucro, mas com zelo; não com um poder autoritário sobre a herança do Senhor, mas como modelos do rebanho» (1 Pe 5, 2-3).

No artigo - clicar para ler: Ezequiel, de sacerdote a profeta, Solange do Carmo recorre a esta importante figura veterotestamentária, para refletir sobre a importância de uma atenção e sensibilidade por meio dos presbíteros, para bem compreenderem o seu papel, na atualidade.

Reuberson Ferreira, no artigo Que padres para nossos tempos?, reflete sobre a importância de se pensar a figura do presbítero segundo as exigências próprias do tempo, ao passo que provoca a atualidade do ministério, segundo três perspetivas que precisam se entrelaçar: o ético, o académico e o místico.

César Thiago Alves, no artigo Vale a pena ser padre em nosso tempo?, busca o caminho de resposta à pergunta levantada, refletindo a partir de fundamentais aspetos, urgentes no nosso tempo.

Felipe Magalhães Francisco, teólogo, em Dom Total 

Comentários