Sócio da Fraternitas, diretor executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, prefacia livro apresentado hoje
«Aprender a
ser cigano hoje – Empurrando e puxando as fronteiras» é o título do livro de
Mirna Montenegro, que procura analisar a forma como as pessoas ciganas
concretizam a sua “maneira cigana de educar e de aprender”, demonstrando que
são “gestoras conscientes da sua aprendizagem”, da sua autopromoção e do seu
desenvolvimento, que pode inclusivamente dar contributos significativos ao
sistema educativo português.
Doutorada em
Educação, Mirna Montenegro tem trabalhado a área da escolarização de crianças
de etnia cigana e a acção educativa das comunidades ciganas, e foi a
responsável pelo Projeto Nómada (1995-2004), desenvolvido pelo Instituto das
Comunidades Educativas, com origem no Projecto de Alfabetização Informal e
Comunitária (1993-95), desenvolvido no Centro de Animação Infantil e
Comunitária da Bela Vista (Setúbal), entre 1992 e 1995.
O livro será
apresentado por D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, esta quinta-feira, 3
de Setembro, na Feira do Livro de Lisboa (Auditório Sul, às 18h).
O Prefácio
deste livro é da autoria de Francisco Monteiro, sócio da Fraternitas, diretor
executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos.
PREFÁCIO
Este trabalho da Doutora Mirna Montenegro
condensa, de certa forma, o trabalho de toda uma vida que a autora dedicou às
pessoas de etnia cigana, sobretudo às crianças, em diversos locais do país. A
um conhecimento profundo e autónomo da pedagogia cigana, a Doutora Mirna aliou
uma dedicação, uma empatia e um viver e sentir por dentro as realidades e os
dramas da educação das crianças ciganas no nosso país, formando, ao longo dos anos,
pistas vivenciadas que, em dada altura, foram subscritas pelo próprio
Ministério da Educação, que foram objeto de diversas publicações e que,
agora, condensou de forma mais abrangente na sua notável tese de doutoramento.
Nascida em Moçambique, tendo vivido na Argélia,
na Suíça e em França, a autora é licenciada e tem mestrado em Educação de
Adultos e Intervenção Comunitária, e, agora, doutoramento em Educação; o seu
trabalho com a escolarização de crianças de etnia cigana e logo com a ação educativa
das comunidades ciganas remonta a 1992. Autora de "Aprendendo com os
Ciganos: processos de ecoformação", Educa, Lisboa, 2003, coordenou três
dos Cadernos do Instituto das Comunidades Educativas, Setúbal: "Educação
de Infância e Intervenção Comunitária", 1997, "Ciganos e
Educação", 1999, "Ciganos e Cidadanias", 2007, tendo ainda
participado na organização de "Ciganos Aquém do Tejo - Propostas de
Actividades Nómadas para o Ensino Básico", Projeto Nómada, Instituto das
Atividades Educativas, Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas,
Porto, 2004.
A autora trabalhou como educadora de infância
particularmente com a comunidade cigana no Bairro da Bela Vista em Setúbal,
desempenhou funções de coordenação, dinamização e formação no âmbito de diversos
projetos de intervenção educativa no Instituto das Comunidades Educativas, foi
responsável pela conceção e pelo desenvolvimento do Projeto Nómada, fruto da
experiência implementada pelo Projecto de Alfabetização Informal e Comunitária
desenvolvido pelo CAIC - Centro de Animação Infantil e Comunitária da Bela
Vista.
A partir dos conceitos fundamentais do Projeto
Nómada tais como "a participação das famílias nas atividades
socioeducativas dos filhos", "a interação social enquanto encontro de
culturas e espaços de aprendizagens interculturais", "a ecoformação
enquanto modalidade de formação de professores e educadores (e demais atores
sociais)" e "a dinamização e constituição de grupos culturais ciganos
que promovam a dignificação da cultura cigana", a autora/investigadora,
com "serenidade, maturidade e também com afectividade" propõe-se
"perceber essa(s) forma(s) de viver a ciganidade e arriscar 'dar voz' aos
vários modos de viver 'à maneira cigana'". Os conceitos de "processos
de socialização", "aprendizagens experienciais",
"identidades pessoais e sociais" e "mudança social"[1] e as
suas interações de causa-efeito constituem a "terminologia Mirniana"
subjacente ao presente trabalho.
Esta obra não poderia prescindir de um olhar
atento e demorado por parte da autora sobre os meandros da cultura cigana,
antiga e atual, a partir de numerosas e demoradas entrevistas que visam
"dar voz"[2] aos protagonistas das diversificadas e, no entanto,
unificantes vivências ciganas. Respeito, fraternidade, coerência, liberdade e
eficácia, característica esta que envolve flexibilidade, prudência, atenção,
sensibilidade, alegria, coragem e "transcendência para se
superar"[3], são apontados como traços dominantes da cultura cigana. Os
papéis bem definidos, embora em processo de evolução, do homem e da mulher
ciganos, são descritos em detalhe.
“'O que sei' sobre os grupos ciganos é fruto de
duas décadas de trabalho com 'eles' e de leituras sobre 'eles'. Neste saber
experiencial adquirido e construído, já não se distinguem as partes que advêm
de cada contributo. Já fazem parte de mim, como uma segunda pele, da qual já
não me consigo despir, mesmo que o quisesse."[4] Entre os objetivos deste
estudo está o de "compreender e desocultar como as pessoas ciganas percepcionam
os processos de apropriação de elementos da cultura maioritária, tornando-os
seus, isto é “à maneira cigana” (que eu designo por aciganar[5]), e de
transformação de elementos da(s) cultura(s) tornando-os “à maneira dos
senhores” (que eu designo por apayonar[6]), identificando, descrevendo e
explicitando esses processos de trocas e empréstimos culturais.
Na síntese desta obra, a que a própria autora
chamou "síntese possível", aparecem as fronteiras que existem:
"há aquela barreira que nunca passa, senhor aqui, cigano ali" que
"em determinadas situações e contextos, podem 'regidificar-se' " ou
'flexibilizar-se'; e aparecem as interações entre as culturas, as
interinfluências ou pela via "psicoafectiva" ou por força da própria
evolução das idiossincrasias, entre as quais se distingue, por um lado, o
"orgulho em ser cigano" e, por outro, a "docilidade"
trazida pelo "aumento da penetração da Igreja Evangélica" e que é
considerado, pela autora, como "um novo regulador endógeno das
práticas sociais e culturais" ciganas. Relevante ainda "a influência
nas comunidades ciganas, nomeadamente nas gerações mais jovens" da
"emergente comunidade virtual cigana"[7].
Da gestão das mudanças depende a gestão dos
limites das fronteiras. Neste trabalho, a autora quis "realçar o carácter
fluido, flexível e instável das fronteiras que separam mas, também, que unem as
pessoas". Esse movimento "é também um movimento carregado de
dignidade na sua ciganidade."[8]
No âmbito da grande especialidade da autora, a
educação, esta obra analisa "a forma como as pessoas ciganas implementam a
sua 'maneira cigana de educar e de aprender', demonstrando" que são
"gestoras conscientes da sua aprendizagem[9], da sua autopromoção[10] e do
seu autodesenvolvimento." Daí se depreende uma preciosa lista de
"princípios educativos a ter em conta no sistema educativo
português", relativamente "à diversidade cultural das crianças e
jovens ciganos, através de uma educação intercultural". Entre "as
implicações destas práticas educativas para a construção e reinvenção da
escola" realçam-se "a organização dos grupos" e "a
metodologia pedagógica" cujas vantagens são, entre outras, "a efetiva
participação das famílias na vida da escola" e "a efetiva vivência de
processos democráticos de partilha de saberes e de poderes, a tão apregoada
cidadania ativamente democrática".[11]
Da sua experiência "nas animações nos
mercados e na rua, na dinamização dos grupos culturais ciganos, na participação
nos vários tipos de celebrações ... abordando o conceito de ecoformação, nomeadamente
a importância da improvisação educativa" subjacentes à
"ciganidade", a autora conclui que para as pessoas ciganas "a
vida vive-se, não se pensa", e, privilegiando "a importância da
realidade", para elas "a verdade não se pode compreender se não for
experienciada".[12]
A autora termina "a síntese
possível"da sua obra, focando "uma das noções que mais" a
influenciou, quando conviveu "com as crianças e famílias ciganas: a
relação com o espaço e o tempo na gestão da proximidade geográfica e afetiva.
... A relatividade do tempo é coerentemente vivida com a mesma relatividade
atribuída ao espaço, em que as 'coisas' são percebidas de forma mais ou menos
próxima consoante a intensidade e densidade afetiva das experiências. ... As
pessoas ciganas não viraram as costas ao progresso ainda que tenham escolhido,
cuidadosamente, o que lhes seria útil para manter uma forma de vida
'essencialmente' cigana, enformando o conceito de 'resistência feita de
flexibilidade', conseguindo 'adaptar as condições mutáveis para permanecerem,
aparentemente, 'iguais', fazendo com que a sua identidade seja uma perceção
assente no tempo e na história que exige uma interação contínua entre as
pessoas através do tempo.[13]
Na multiplicidade de estudos, investigações,
análises, literatura sobre, com e pelos ciganos, faltava esta reflexão vivida
profundamente, apaixonadamente pela Doutora Mirna Montenegro, em que pessoas e
grupos ciganos com quem contactou e cujas vidas partilhou, são trazidas nas
suas mãos com infinito respeito e carinho para a ribalta do conhecimento, em
contacto com uma cultura que acolheu, ou não este povo, para, através desta
oportuna e preciosa revelação mútua, aumentar a perceção recíproca e tentar
balbuciar um rumo, ou rumos, de permutas existenciais para o futuro que será
necessariamente partilhado.
Francisco Monteiro
________________________________________
[1] Introdução.
[2] ibidem.
[3] ibidem.
[4] Capítulo 1.
[5] Adquirir hábitos ou modos de cigano, in
Diccionário on line de Português (http://www.dicio.com.br/aciganar/).
[6] Comportarse y
vivir como un payo y no como un gitano. In Fundación Secretariado Gitano
(http://www.gitanos.org/servicios/prensa/glosario/terminos.html ). Mas, em Portugal, diz-se apayonar.
[7] Capítulo 6.
[8] ibidem.
[9] ibidem.
[10] ibidem.
[11] ibidem.
[12] ibidem.
[13] ibidem.

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