Amar em tempo de pandemia(s): algumas maneiras de responder a «se te amas, e a Deus e ao próximo...»


Do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 22, 34-40):
Um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

Leituras do XXX Domingo Comum aqui: Liturgia.pt

Conjugar o verbo amar em tempo de pandemia(s)
- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, foge da obsessão de que este tempo de crise termine o mais rápido possível para que  possas voltar «ao que era antes». Esse «o de antes» estava absolutamente desequilibrado e é urgente reequilibrar o mundo: o sonho do crescimento e do consumo ilimitados está a ter consequências devastadoras.

- Se te amas, e a Deus e ao próximo, aprende as lições da pandemia: os limites da autossuficiência e da fragilidade comum, a consciência de que, diante do vírus da covid-19, não há outra defesa senão a vacina da solidariedade.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, faz-te novamente as perguntas essenciais, reflete sobre os desafios que se colocam, o sentido da vida, das coisas e do mundo. Prepara-te para defender a vida, apreciá-la como nunca, amá-la, vivê-la; não pelo medo da morte, mas pela alegria de estar vivos.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, pensa em união com os outros e a longo prazo sobre o futuro da condição humana: que decisões e políticas públicas são necessárias para defender a vida e a sua vivência feliz e com deleite.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, desconfina-te mentalmente por rebelião e não por resignação, por esperança e com entusiasmo. Defende uma política e uma economia da vida e pela vida e escuta as reivindicações das gerações futuras sobre que mundo melhor podem esperar.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, apazigua as redes sociais. Não deixes que elas te distraiam nem, sobretudo, destruam a tua vida e os teus sonhos.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, agradece por todos e cada um que está ao serviço da vida cada dia, sem cessar.

- Se  te amas, e a Deus e ao próximo, ilumina com o Evangelho do Amor, tal como Jesus Cristo o viveu, as situações e ideologias onde reina a escuridão. A Palavra de Deus será a tua orientação e com ela orientarás os outros.

Irmã Dolores Aleixandre e Fernando Félix

Para aprofundar
No Antigo Testamento a exigência de ser santo, à imagem de Deus que é santo, incluía o dever de cuidar dos mais fracos como o estrangeiro, o órfão, a viúva (cf. Êxodo 22, 20-26). 

Jesus cumpre a lei integralmente.

Agora, à luz da palavra e do exemplo de Jesus, o amor é a medida da fé, e a fé é a alma do amor. Não podemos separar a vida religiosa, a vida de piedade do serviço aos irmãos, aos irmãos que encontramos concretamente. Não podemos dividir oração, e encontro com Deus nos sacramentos, do ouvir o outro, do estar próximo de sua vida, especialmente de suas feridas. Lembremo-nos: o amor é a medida da fé. Quanto amo? Como está a minha fé? A minha fé é como eu amo. E a fé é a alma do amor.

Jesus aponta-nos as duas faces do amor: a face do Pai e a do irmão. Não nos entrega duas fórmulas ou dois preceitos; dá-nos duas faces, na verdade, um rosto só, o de Deus que se reflecte em muitas faces, porque no rosto de cada irmão, especialmente o menor, mais frágil, indefeso e necessitado, está presente a própria imagem de Deus. E devemos-nos perguntar, quando encontrarmos um destes irmãos, se somos capazes de reconhecer nele o rosto de Deus: somos capazes disto? Desta forma, Jesus oferece a cada pessoa o critério fundamental no qual devemos apoiar a própria vida. 

Mas acima de tudo, Ele deu-nos o Espírito Santo, que nos capacita para amar a Deus e ao próximo como Ele, com o coração livre e generoso.

Cardeal Orani João Tempesta

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