As reflexões de Walter Kasper – cardeal alemão de 87 anos, teólogo muito apreciado, com uma brilhante carreira académica e presidente emérito do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para as relações religiosas com o judaísmo – caracterizam-se pela sua clareza, simplicidade e profundidade de sensibilidade humana e teológica.
Os discípulos viram Jesus a orar e pediram-Lhe que os ensinasse a fazê-lo. Se Jesus orava, isso significa que a oração não é uma renúncia à dignidade humana, mas sim o exercício de uma faculdade espiritual que toca as raízes do ser, que, para os cristãos, é um Deus Pai onipotente no amor, medita o cardeal Kasper.
Os três primeiros pedidos vão ao essencial.
O discípulo não ora como uma criança pequena, mas, com a invocação “abba” dirige-se com respeito a uma pessoa em quem tem confiança, que ele reconhece como fonte de vida, de paternidade que guarda, ama, protege e dá vida (embora um certo número de pessoas do nosso tempo podem ter ou tiveram uma experiência muito negativa do próprio pai...).
O nome identifica as pessoas, a sua identidade profunda. O nome “YHWH” qualifica o Deus da Bíblia como um Deus de amor, presente para salvar, em plena liberdade de modos e de tempos. Permanece incapturável e não manipulável. O seu nome não pode ser pronunciado em vão, mas santificado, isto é, reconhecido como totalmente outro em relação à realidade mundana.
Embora o conceito de reino permaneça mais ou menos estranho à conceção moderna, ele desempenha um papel central na Bíblia. Jesus anuncia a realeza de Deus que se aproxima até tocar o mundo dos homens e mulheres. Ele o anuncia com a palavra, torna-o visível com os prodígios, tenta ilustrar a sua natureza com parábolas muito eficazes.
O reino de Deus não é de tipo político, mas um reino de vida, paz, amor, justiça, fraternidade. Conjuga-se nos frutos do Espírito lembrados na Carta aos Gálatas. É uma realeza que se instaura não de modo surpreendente, mas discreto, respeitando a liberdade do ser humano e, ao mesmo tempo, possuindo um poder automático próprio, capaz de produzir resultados exaltantes a partir de começos pequenos e insignificantes. Um poder “dentro” das coisas, como o do fermento na massa.
O mal no mundo existe e não pode ser negado nem explicado. Nem Jesus fez isso, ele que também o assumiu até o fim, derrotando-o na cruz. Cada um deve vigiar sobre os seus próprios comportamentos que tendem ao mal, porque Deus não renuncia ao julgamento sobre o agir humano.
O primeiro pedido social é do pão para viver com dignidade todos os dias. Pão também no amanhã confiado à hospitalidade e talvez também o pão supersubstancial que alude à Eucaristia. O ser humano pede pão a Deus, mas nem por isso não se compromete com um trabalho digno e com a solidariedade de partilhá-lo com as pessoas e com os continentes em dificuldade e empobrecidos pela malvadeza organizada dos poderes fortes.
Uma necessidade pessoal e social forte é a do perdão. É preciso pedi-lo a Deus, é preciso estar disponível para concedê-lo ao próximo. Os dois perdões estão ligados. O perdão é uma nova criação possível somente a Deus e ao seu Santo Espírito. Desse modo, a vítima, o homem e a mulher feridos pelo mal, recebem na oração a possibilidade de não permanecerem para sempre prisioneiros do ódio, da amargura, mas de chegarem a vencer o mal com o bem, recuperando a serenidade e rompendo, dessa forma, o círculo vicioso que só multiplica a violência, talvez até legalizada. O perdão pacífico, embora não exclua o justo curso da justiça humana.
O mundo está cheio de tentações para o mal e também de provações que permitem o crescimento da pessoa no seu amadurecimento. As tentações, não só e nem tanto as sexuais; há muito piores. São aquelas contra o amor ao próximo, o facto de buscar habilmente a própria vantagem, de fazer com que pague caro quem nos enganou, de nos fazer viver bem e de fazer os outros viverem mal, de reacender a fofoca, o abuso de poder, as grandes tentações do dinheiro etc.
«Fazei com que, para nós, que somos fracos, essas tentações, entendidas no sentido de provações, não se tornam tentações ao mal. Guiai-nos e protegei-nos da tentação, não permitais que caiamos na tentação» (pág. 138).
… mas livrai-nos do mal!
Por fim, não se pense que o mal, o Maligno, o Diabo, não existe mais, e a oração para sermos libertados dele inclui os três aspetos com que ele está presente no mundo. O Diabo tem a estrutura de um ser, como os seres livres. Hesitamos com razão – continua Kasper – em reconhecer ao diabo a dignidade de pessoa, e acrescenta: «Joseph Ratzinger acerta o alvo quando afirma que o diabo é uma pessoa em degradação, a caricatura e a perversão de uma pessoa. Ele tem em si como que uma careta, uma loucura e, na realidade, é louco» (pág. 140).
Embora não seja mencionada por Kasper, acho que a oração de libertação da tentação também pode ter uma notação escatológica e, portanto, também pode se referir à trágica possibilidade de cair na tentação decisiva e última da perda da fé.
Roberto Mela, teólogo e professor, em Settimana News

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