Na década de 1930, um grupo de mulheres da Igreja Reformada, da Suíça de língua francesa, tomando como modelo Cristo, que frequentemente se retirava para orar, redescobriu a importância do silêncio na escuta da palavra de Deus. Conhecido como as Damas de Morges, elas promoviam retiros espirituais, que estavam abertos a outros, e gradualmente encontraram uma casa regular para esses retiros em Grandchamp, um pequeno povoado próximo ao lago Neuchâtel.
A seguir,
surgiu a necessidade de um ambiente permanente para a oração e a hospitalidade.
Assim, uma mulher, que mais tarde seria chamada Irmã Marguerite, se alojou em
Grandchamp. A ela se uniram rapidamente duas outras mulheres. Geneviève
Micheli, a iniciadora dos retiros, orientou esse modesto início em oração e
animou as três primeiras irmãs nessa caminhada. A pedido delas, tomou-se a
primeira madre na comunidade em 1944.
Não tendo
experiência nem um livro de celebrações ou uma regra monástica, e como nesse
tempo não havia comunidades monásticas nas Igrejas da Reforma, as primeiras
irmãs voltaram-se para monastérios de outras confissões em busca de orientação.
Elas abriram-se aos tesouros de outras tradições. Tinham de aprender tudo: como
viver uma vida baseada na Palavra de Deus e contemplação diária, como viver em
comunidade e como receber outros em clima de hospitalidade.
As primeiras
irmãs sofreram com a divisão dos cristãos – especialmente a Madre Geneviève –
que por isso compreendeu a total importância do trabalho ecuménico e teológico.
No entanto, esse trabalho teve de ser fundamentado no que era essencial para
ela, a oração à luz de João 17, 21: «Que sejam um, como tu, Pai, estás em mim e
eu em ti; que também eles estejam em nós para que o mundo creia que tu me
enviaste.»
Ela procurou
dedicar a sua vida à unidade em Cristo e por Cristo, até o dia em que Deus
seria tudo em todos. A vocação ecuménica da comunidade foi, portanto, não uma
escolha, mas um dom, uma graça recebida desde o começo e nascida da pobreza.
Encontros decisivos
A graça do
ecumenismo foi confirmada e estimulada por vários encontros decisivos. Um
desses encontros para a comunidade iniciante foi com padre Paul Couturier.
Sendo um padre católico em Lyon, ele foi um dos pioneiros do ecumenismo e da
Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, como a conhecemos hoje. Desenvolveram-se
profundos laços entre ele e as primeiras irmãs, e ele acompanhou-as fielmente
na sua jornada espiritual, como se evidencia na sua correspondência. Em 1940,
ele escreveu a Madre Geneviève:
Nenhum
retiro espiritual deve ser realizado sem que os cristãos saiam com um agudo sofrimento
pelas separações e com a determinação de trabalhar unidos pela unidade com preces
ardentes e progressiva purificação... Para mim, o problema da unidade é primariamente
e fundamentalmente um problema de orientação de nossa vida interior. Assim, se
compreende quanta importância eu dou ao seu pedido e ao trabalho dos retiros espirituais.
Oremos intensamente, em outras palavras, deixemos Cristo livremente entrar em
nós.
Um outro
encontro muito importante foi com Roger Schutz, o futuro Irmão Roger de Taizé,
que visitou Granschamp em 1940. A sua busca foi encorajada pela das irmãs com
as quais ele mantinha contato. Laços de comunicação desenvolveram-se ao longo
dos anos e aprofundaram-se em 1953, quando a Comunidade de Grandchamp adotou a
Regra e o Ofício de Taizé, imediatamente após a sua publicação. O Irmão Roger
escreveu:
A
constante busca pela unidade harmoniza o ser humano: gera pensamentos que levam
a atos e nos faz estar em ação. Esse equilíbrio é adquirido até onde nos
esforçamos – em passos sucessivos – para ser consistentes com o que há de melhor
em nós mesmos e com o que está em nosso mais íntimo ser: Cristo em nós.
(Irmão Roger de Taizé, Les écrits fondateurs,
Dieu nous veut heureux, Taizé: Les Ateliers e Presses de Taizé, 2011, p.
121.)
Logo depois,
em parceria com os irmãos de Taizé e as Irmãzinhas de Jesus, as irmãs de
Grandchamp foram também chamadas a mostrar com a sua vida a simples presença da
oração e da amizade em pequenas comunidades. Frequentemente, formavam as suas comunidades
em áreas carentes, particularmente na Argélia, em Israel, no Líbano e em áreas
da classe trabalhadora em vários países da Europa. Os profundos laços estabelecidos
com vizinhos e igrejas locais permitiram a descoberta de uma diversidade de
ritos litúrgicos na universalidade da Igreja e abriram espaço para encontros
com outras religiões.
Compromisso individual, na família humana e na criação
A vocação
ecuménica de Grandchamp gera um compromisso com o trabalho de reconciliação
entre cristãos, dentro da família humana e com respeito a toda a criação.
Como uma
comunidade, as irmãs de Grandchamp descobriram rapidamente que a sua vocação
exige que elas incorporem a reconciliação, em primeiro lugar, dentro de cada
uma e entre elas. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, irmãs alemãs e
holandesas (influenciadas pelos eventos recentes), seguidas por irmãs da Indonésia,
da Áustria, do Congo, da República Checa, da Suécia e da Latvia pertencentes a
diferentes denominações, uniram-se às primeiras irmãs da Suíça e da França. A
comunidade atualmente tem cerca de cinquenta irmãs de diferentes origens e
gerações.
Como todos
os batizados, as irmãs sentem-se chamadas a tornarem-se o que já são num nível
mais profundo: seres em comunhão. Como podemos ser assim se não aprendermos
primeiro a aceitar-nos com as nossas diferenças? Diferenças são tanto um dom de
Deus como um formidável desafio. Com uma diversidade de confissões, linguagens,
culturas e gerações, a comunidade enfrenta o desafio de viver a unidade na diversidade
do seu próprio carisma. Essa diversidade também traz diferentes modos de orar,
pensar, agir, estar num relacionamento, bem como uma diversidade de carácteres.
Reconciliação e a não-violência do Evangelho começa no interior e vive
da oração
Como então
pode alguém trabalhar para a reconciliação se não puser em ação a capacidade de
perdoar dia após dia? Acima de tudo, isso requer um trabalho no interior da
pessoa para então trabalhar os relacionamentos, confiando na misericórdia de
Deus. Tudo começa dentro do coração da pessoa, onde se encontra a raiz de toda divisão.
Ali, as profundas feridas esperam ser visitadas a fim de receber a paz curativa
de Deus. A unidade entre nós é assim o fruto da lenta e paciente transformação
de nossas vidas, que o Espírito realiza com nosso consentimento.
A prece
litúrgica é a espinha dorsal do dia de Grandchamp e reúne a comunidade quatro
vezes ao dia. Os variados tempos de culto litúrgico ajudam as irmãs a interiorizar
a vida de Cristo através do Espírito Santo.
O ícone da
Trindade no centro da capela de Grandchamp acolhe as irmãs em silêncio. Ele
convida-as a entrar na comunhão de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito
Santo, para deixar esse amor crescer e fluir entre elas e na direção dos que
chegam como visitantes. Então frequentemente há uma partilha de dons. As irmãs
gostam de dizer que sempre recebem mais do que dão!
Esse
acolhimento promoveu surpreendentes encontros com pessoas que sensibilizaram a
comunidade para a não-violência do Evangelho: Jean e Hildgard Goss, Joseph
Pyronnet e Simone Pacot, que deram início a uma profunda evangelização com as
sessões “Bethesda”. Ao mesmo tempo, o conhecimento das irmãs sobre ecologia cresceu
de modo muito percetível através do cultivo de um jardim orgânico, do uso que
fizeram de produtos agroecológicos, de uma cuidadosa consideração no modo de se
alimentar, do manejo de produtos e do significado de viver em solidariedade. É
por isso que as irmãs têm o cuidado de, por meio do diálogo ecuménico e
inter-religioso, criar laços e fazer trocas com outras comunidades, grupos,
movimentos e pessoas comprometidas, particularmente com redes de comunidades
religiosas ou monásticas no local, e com movimentos dedicados à reconciliação,
justiça, paz e integridade da criação, em nível regional, internacional e ecuménico.
Casa de oração para todos, um local de acolhimento, diálogo e encontro.
O confronto com
o enfraquecimento das forças, da vida e o envelhecimento exige que as irmãs sejam
criativas. Assim como as primeiras irmãs tiveram que depender umas das outras,
as irmãs de hoje dependem de ajuda externa a fim de acolher outras. O trabalho voluntário
que elas oferecem é uma partilha de sua vida de oração e trabalho.
Relacionam-se
com pessoas de todos os continentes que procuram dar sentido às suas vidas, com
cristãos de diferentes denominações, irmãs e irmãos de outras comunidades, às
vezes com judeus, muçulmanos e crentes de outras religiões e também com pessoas
sem nenhuma identidade religiosa. Desse modo, a comunidade deseja tornar-se uma
casa de oração para todos, um local de acolhimento, diálogo e encontro.
As carências
de membros de outras comunidades religiosas abriu um novo ministério para a comunidade
monástica de Grandchamp: é uma nova
graça serem capazes de ser, juntas, um espaço de oração e um sinal de
reconciliação. Assim, por seis anos, uma das irmãs de Granschamp viveu na França
numa irmandade ecuménica composta de irmãs de quatro comunidades religiosas diferentes.
Por vários anos as irmãs têm feito viagens simples, com a duração de três
meses, para experimentar a vida em Israel. Uma das irmãs uniu-se à irmandade
das Irmãzinhas de Jesus para partilhar a vida diária delas. Um pouco depois,
duas outras irmãs experimentaram a vida numa comunidade de Carmelitas de São
José. Hoje, algumas irmãs estão presentes em Taizé de um modo informal. Estas
novas experiências trazem novos dons para a comunidade.
O trabalho
do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) ocupa um lugar importante na oração em Grandchamp.
À segunda-feira, ao fim da tarde, as irmãs oram com as intercessões do Ciclo de
Oração Ecuménica proposto pelo CMI. As irmãs têm tido o privilégio de participar
de várias assembleias do CMI – em Vancouver, Harare e Porto Alegre. Por vários
anos, as irmãs estiveram presentes no Instituto Ecuménico de Bossey, uma pequena
comunidade de oração, hospitalidade e amizade durante os meses de uma escola de
graduação.
A vida
religiosa ocupa um lugar privilegiado – embora bastante escondido – no caminho
da reconciliação das Igrejas. Aí se canta Cristo ressuscitado, o dom da comunhão
que está sempre a ser oferecido e que o Espírito Santo faz brotar numa multidão
de rostos e dons. Isso pode servir como estímulo e crescimento, como fermento
de unidade, porque nos leva às profundidades do mistério da fé, num caminho de
contínua conversão, de transformação. Em algumas circunstâncias, a vida religiosa
pode ajudar indivíduos a irem além de si mesmos. Às vezes, de modo desconhecido
para nós, com repercussões em outras partes do Corpo de Cristo. André Louf
expressou isso com estas palavras:
Numa
Igreja dividida, o monastério instintivamente constitui a “terra de ninguém” do
Espírito. O monastério deve ser uma terra ecuménica por excelência. Ele pode
prefigurar comunhões que existem em outros lugares somente em esperança.
Estejam onde estiverem, os monastérios não pertencem fundamentalmente à
Ortodoxia ou ao Catolicismo, considerando que apenas temporariamente se opõem.
Já são sinais da Igreja indivisa em direção à qual o Espírito está
poderosamente nos dirigindo hoje.
(palestra em 16 de dezembro de 1979 na Catedral de Notre-Dame, Paris,
por ocasião da inauguração do Ano de São Bento).
Para maiores informações visitar: www.grandchamp.org
Comunidade de
Grandchamp, em Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2021

Comentários
Enviar um comentário