«A compaixão é a forma mais humana de expressar amor ao próximo, débil ou não»

Em tempos de pandemia e distância social de segurança, recuperar a compaixão e a proximidade ao estilo de Jesus Cristo é essencial nas nossas sociedades para não deixarmos de ser humanos.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 40-45) inspira-nos:
Naquele tempo, veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo. 

Meditação 
A compaixão, vivida à maneira de Jesus Cristo nunca afirma que é natural o sofrimento ou a injustiça dos outros, especialmente dos mais excluídos.
 
A compaixão cristã é baseada em gestos e não em discursos – ainda que sejam palavras ditas na oração. Se a compaixão não tiver efeitos práticos, repercussões na outra pessoa, na comunidade e na sociedade, torna-se "pena".
 
No Evangelho escrito por São Marcos, as curas feitas por Jesus Cristo são altamente significativas: as suas mãos, no sentido do tato, desempenham um papel fundamental. Às mãos de Jesus associam-se os verbos estender, tocar e levantar, para significar a ação libertadora de Jesus ao entrar em contato com os corpos considerados malditos, impuros. No original, o verbo grego aptw, traduzido por tocar, significa «segurar, manter a posição por um tempo». Ao tocar, Jesus cura, liberta, fortalece. O toque de Jesus faz recuperar a identidade negada, torna as pessoas novas criaturas.
 
Quem sofre anseia, acima de tudo, «ficar limpo». E é esse o pedido do leproso que se dirige a Jesus.
 
Jesus, comovido, aproxima-se, toca no leproso e limpa-o. E assim mostra-nos que é a compaixão que cura as pessoas. O verbo grego kadarizw para dizer «limpar» é repetido três vezes, verbo que também significa «libertar». Jesus Cristo faz, não só que a doença desapareça, mas também restaura no leproso, marginalizado, excluído, a sua condição humana plena: restaura sua condição social e a sua integração religiosa.
 
Hoje, vemos esta mesma atitude nos cuidadores dos doentes.
 
Compaixão é um choque interior que nos faz empatizar com quem sofre (com-paixão significa literalmente sofrer-com) e mobilizamo-nos para uma ação eficaz de ajuda.
 
A compaixão está associada à compreensão. Porque compreendemos que o outro é igual a mim, ativa-se em nós o movimento que nos leva a tratá-lo como gostamos de ser tratados.
 
A compaixão está associada a união. A prática da compaixão é uma forma eficaz de ultrapassar a separação.
 
A compaixão está associada ao amor-próprio. É praticamente impossível sentir compaixão enquanto estamos instalados na autocensura, na culpa ou, simplesmente, na indiferença ou distância emocional de nós mesmos. É necessário cultivar a aceitação amorosa de nós mesmo, da humildade, para que a aceitação se expanda e abrace todos os seres.
 
A compaixão está associada à doação, porque é ação marcada pelo desejo do bem para todos, do serviço generoso e da gratuidade. A compaixão é a forma mais humana de expressar amor.
 
A libertação só é possível por meio de um relacionamento profundamente humano. Jesus liberta, humaniza porque trata os outros com humanidade.
 
Jesus Cristo põe-se ao serviço do homem sem condições. O que temos que fazer é servir aos outros como Jesus faz. O único absoluto para Deus é o bem das pessoas que criou por amor.
 
A experiência de ser amado por Deus é o primeiro passo para não excluir os outros. Mas se partirmos da ideia de um Deus que exclui, encontraremos mil razões para excluir em seu nome. Isso é o que continuamos a fazer hoje.
 
Contra os microrganismos infeciosos, o Evangelho diz que o amor, a saúde, a alegria de viver também podem ser contagiosos.
 
A felicidade só é possível ali onde nos sentimos acolhidos e aceites. Onde falta acolhimento, falta vida; o nosso ser paralisa-se; a criatividade atrofia-se. Por isso uma «sociedade fechada é uma sociedade sem futuro, uma sociedade que mata a esperança de vida dos marginalizados e que finalmente se afunda a si própria» (Jorgen Moltmann).
 
São muitos os fatores que convidam os homens e mulheres do nosso tempo a viver em círculos fechados e exclusivistas. Numa sociedade em que crescem a insegurança, a indiferença ou a agressividade, é explicável que cada um de nós trate de assegurar a nossa «pequena felicidade» com aqueles que sentimos iguais.
 
As pessoas que são como nós, que pensam e querem o mesmo que nós, dão-nos segurança. Por outro lado, as pessoas que são diferentes, que pensam, sentem e querem de forma diferente, produzem preocupação e medo.
 
Habituámo-nos a aceitar apenas os mais próximos.
 
Ingenuamente pensamos que, se cada um se preocupa em assegurar a sua pequena parcela de felicidade, a humanidade continuará a caminhar em direção ao seu bem-estar. E não nos apercebemos que estamos a criar marginalização, isolamento e solidão. E que nesta sociedade vai ser cada vez mais difícil ser feliz.
 
Por isso, o gesto de Jesus assume uma especial atualidade para nós. Jesus não só limpa o leproso. Estende a mão e toca-o, quebrando preconceitos, tabus e fronteiras de isolamento e marginalização que excluem os leprosos da convivência. Os seguidores de Jesus devemos sentir-nos chamados a levar a amizade aberta aos setores marginalizados da nossa sociedade.

Pepa Torres, Enrique Martinez Lozano e José Antonio Pagola

Comentários