A nossa sociedade é uma sociedade sem dor. Mas a dor torna-nos humanos

Nascido em 1959, em Seul, Byung-Chul Han estudou Filosofia, Cultura alemã e Teologia em Freiburg e Munique e ensinou Filosofia e Estudos Culturais na Universität der Künste de Berlim. Autor celebrado pela grande imprensa ocidental, Han ficou conhecido pela sua crítica à contemporaneidade, em particular ao neoliberalismo e à transformação digital. Em 2020, ele dedicou um livro ao tema do sofrimento que fala à geração da pandemia. Com o título Palliativgesellschaft. Schmerz heute ("A sociedade paliativa. A dor hoje"), o livro denuncia uma sociedade que se autodestrói ao tentar se transformar "um oásis permanente de bem-estar que pode ser obtido por via médica".
 
Entrevista com Byung-Chul Han, por Marco Ventura, publicada por La Lettura. Tradução: Luisa Rabolini.
 
A sociedade seria dominada pela algofobia, "medo generalizado da dor". Somos "hipersensíveis" como a princesa na ervilha, escreve você, e tendemos a viver em "estado de anestesia permanente". Em que sentido, então, a nossa é uma sociedade sem dor?
Não digo que vivemos numa sociedade sem dor. Hoje temos até uma epidemia de dores crónicas. Eu digo que a dor tem uma dimensão social e que, portanto, qualquer crítica à sociedade tem de se confrontar com a dor. Em vez disso, hoje a dor é reduzida aos aspetos médicos e farmacológicos. E quando é colocada exclusivamente nas mãos da medicina, a gente não a entende mais.
 
Nesse sentido, você acusa o neoliberalismo.
Na sociedade neoliberal pós-moderna, as tensões psíquicas aumentam por meio da pressão por eficiência ou outras motivações, e isso pode levar à dor crónica. Comparei a autoexploração neoliberal a um servo que pega o chicote das mãos de seu senhor e se chicoteia para ser o senhor, aliás, para ser livre. Esse impulso neoliberal pela performance e a autoexploração deixa-nos doentes.
 
O nosso problema com a dor está ligado à solidão?
No livro, menciono o cuidado primário da cura em Viktor von Weizsäcker. Quando a irmãzinha vê o seu irmãozinho a sofrer, ela conhece uma saída. Ela toca onde dói. O contacto aplaca a dor. Hoje vivemos numa sociedade atormentada por uma crescente solidão, sem contacto ou dedicação humana. Distanciamento social! Eu me pergunto se a dor não é o grito do corpo que pede proximidade e dedicação, até mesmo amor. O cuidado primário de cura não pode ser substituído por um analgésico.
 
Você denuncia uma "sociedade paliativa" cúmplice de uma "ideologia do bem-estar permanente". Mas querer livrar-se da dor, querer pelo menos limitar a dor, não é um objetivo legítimo?
Todas as experiências intensas são dolorosas, mesmo o amor intenso. Hoje evitamos as intensidades por medo da dor. Até mesmo o amor hoje deve ser despotencializado numa fórmula voltada para o consumo e o prazer. Qualquer perceção intensa é dolorosa. Dolorosamente belo não é uma contradição. Percebemos o mundo hoje através do smartphone, que torna tudo consumível e disponível e reduz tudo à dimensão da tela. Acredito que o smartphone é um analgésico digital.
 
No livro, você não fala da medicina paliativa.
Utilizo a expressão 'sociedade paliativa' em sentido metafórico, para designar uma sociedade que não consegue lidar com a dor. A sociedade paliativa nada tem que ver com medicina paliativa. De resto, insisto que proximidade, dedicação e contacto são mais importantes do que os analgésicos. O setor paliativo de uma clínica não pode substituir a dedicação e o amor. A história que o paciente conta ao médico no início do tratamento norteia o processo de cura. Que médico pode dizer de si mesmo que sabe ouvir? Hoje ouvimos cada vez menos. No meu livro L’espulsione dell’Altro («A expulsão do Outro», Nottetempo, 2017), dediquei um capítulo inteiro à arte da escuta. O capítulo começa com as palavras: «No futuro, talvez haja uma profissão chamada o ouvinte. Alguém que presta atenção ao outro mediante pagamento. Você vai ao ouvinte, caso contrário não há ninguém disposto a escutar o outro.»
 
A pandemia desempenha um papel importante no seu livro.
Eu escrevi que a pandemia transforma a sociedade numa quarentena na qual a vida enrijece-se como uma sobrevivência. A vida não é sobreviver. A pandemia aguça tendências sociais que já estão presentes. Entre elas está a histeria da saúde. Todas as forças vitais estão a ser usadas hoje para prolongar a vida. Mesmo na pandemia, não deveríamos reduzir a vida à sobrevivência. Apesar de tudo, devemos encontrar possibilidades para celebrar a vida: é importante, justamente na pandemia. Acho problemático que a virologia esteja em primeiro lugar hoje. Em vez disso, psicólogos, pedagogos, sociólogos, teólogos, filósofos e até artistas deveriam estar envolvidos nas decisões para combater a pandemia. Deveria proceder-se a uma avaliação ampla dos bens que estão em jogo nos vários aspetos da vida, em vez de absolutizar a saúde e a sobrevivência, sacrificando a elas tudo o resto.
 
Na pandemia, escreve você, «a fé foi sacrificada no altar da sobrevivência» e «a virologia desautoriza a teologia», e novamente «a saúde é elevada como uma nova divindade». Sem dor não há Deus?
Eu acredito que os seres humanos alcançam o auge da beleza quando oram. É por isso que gosto de ir às igrejas. Sem dor, não conseguirão orar. Pode ser que um dia vivamos num mundo sem dor. O «novo mundo» do escritor Aldous Huxley não conhece a dor. Por se tratar de uma sociedade paliativa, o Estado distribui a droga denominada soma para aumentar a sensação de bem-estar. Mas uma vida sem dor não é humana. Por isso concluo o meu livro com as palavras: «O homem acaba-se para sobreviver. Talvez consiga alcançar a imortalidade, mas ao preço da vida.»
 
Na sua opinião, dor é «verdade», «vínculo», «diferença», «realidade».
A dor surpreende-nos como uma corrente navegável que leva ao mar. Mas a nós parece-nos um beco sem saída, que em nenhum caso pode ser evitado. O meu livro chama a atenção para o facto de que a dor faz parte da vida humana. Onde as separações causam sofrimento, os laços anteriores se revelam como verdadeiros. Apenas a verdade dói. Se as separações não provocam dor, os laços não haviam sido verdadeiros.
 
Você diz que, ao contrário da dor, «a digitalização é anestesia»; é aí que está a diferença entre pensamento e inteligência artificial. A sua afirmação «nunca haverá algoritmos da dor» é muito interessante.
A primeira imagem do pensamento é o arrepio. Por isso, a inteligência artificial é estranha ao pensamento, porque nunca tem arrepios. Os arrepios são uma expressão de comoção e calafrio. A consciência que não provoca arrepios equivale a reduzir a objeto. É incapaz de experiência em sentido empático, o que em si é dor.
 
Uma vez destruída a «dimensão social da dor», na sua opinião sobra apenas uma «sociedade da sobrevivência» que, como a pandemia demonstraria, «será forçada a renunciar aos princípios liberais». Não há mais vida, apenas «não-morte». Não é pessimista de mais?
Não sou pessimista. Pelo contrário: espero da vida mais do que sobrevivência. A sociedade dominada pela histeria de sobrevivência é uma sociedade de ‘não-mortos’. Costumo dizer: estamos muito vivos para morrer, muito mortos para viver. Quando nos preocupamos apenas com a saúde e a sobrevivência, assemelhamo-nos ao vírus, um ser não-morto que se multiplica, ou seja, sobrevive, sem viver.
 
Mas, dessa forma, você corre o risco de cair na atitude oposta à algofobia, na glorificação da dor como caminho para uma espiritualidade superior.
Eu não glorifico a dor. Eu diria: a vida humana sem dor é incompleta. Dor e felicidade são, como diz Nietzsche, irmãos gémeos, que crescem juntos ou permanecem pequenos juntos. Se a dor for inibida, a felicidade acomoda-se numa abafada sensação agradável.
 
Eu insisto. Parece ouvir-se o eco de um "dolorismo" muito problemática do ponto de vista ético.
A dor também faz parte da nossa relação com os outros. Um capítulo do meu livro é dedicado à ética da dor. Hoje costumamos falar sobre o desaparecimento da empatia. Eu perguntava-me: de onde vem essa crescente perda de empatia? Porque somos cada vez menos recetivos aos outros? Acredito que hoje no nosso Ego tornamos o outro um objeto disponível, pronto para o consumo. O outro, como objeto, não sente dor.
 
Ao contrário, a pandemia coloca-nos diante da dor.
A pandemia reforça o desaparecimento da empatia. O outro é agora um possível portador do vírus, do qual convém distanciar-se. A escuta, de que falava antes, pressupõe que eu me exponha ao outro. O aumento da sensibilidade para o outro, o poder de sofrimento com o outro, tem algo de doloroso. O amor como relação empática com o outro assalta-nos e fere-nos. O amor como consumo, por outro lado, não comporta dor. Sem dor, não temos acesso ao outro. É por isso que falo de dor para com o outro. Hoje perdemos a capacidade de perceber o outro na sua alteridade. E o outro, privado da sua alteridade, apenas se deixa consumir.

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