Aprender a curar como Jesus – reflexões dos Doutores da Igreja S. Bernardo, S. Pedro Crisólogo, S. Jerónimo e Santo Agostinho


«Gostaria muito de saber porque é que Deus quis vir ele próprio até nós»
S. Bernardo (1091-1153), monge de Cister e doutor da Igreja
 
«Jesus tomou-a pela mão e fê-la levantar-se» (Mc 1, 29-39). Que condescendência de Deus que nos procura, e que dignidade do homem assim procurado!...
 
«Que é o homem, Senhor, para que faças caso dele e ponhas nele a tua atenção?» (Job 7,17).
Eu gostaria muito de saber porque é que Deus quis vir ele próprio até nós e porque não fomos antes nós que fomos até ele. Porque é o nosso interesse que está em causa. Não é habitual os ricos irem à casa dos pobres, mesmo quando têm a intenção de lhes fazer bem.
 
Era a nós que nos convinha ir ter com Jesus. Mas um duplo obstáculo nos impedia: nossos olhos estavam cegos e ele vive numa luz inacessível; nós jazíamos paralisados nos nossos catres, incapazes de esperar a grandeza de Deus. Foi por isso que o nosso bom Salvador e o médico das nossas almas desceu das alturas e moderou para os nossos olhos doentes o brilho da sua glória. Ele revestiu-se como que duma lanterna, quero dizer, desse corpo luminoso e puro de toda a mancha, que ele assumiu.
 
 
«Eis o motivo que conduziu Jesus a casa de Pedro…»
S. Pedro Crisólogo (cerca de 406 - 450), bispo de Ravena, doutor da Igreja
 
«Jesus aproximou-se dela e tomou-a pela mão» (Mc 1, 29-39). Quem escutou com atenção o evangelho deste dia sabe por que razão o Senhor do céu entrou numa humilde casa daquela povoação. Uma vez que, por bondade, veio socorrer todos os homens, não espanta que ele entre em todos os lugares.
 
«Tendo chegado a casa de Pedro, Jesus viu a sogra dele de cama, com febre» (Mt 8, 14). Eis o motivo que conduziu Jesus a casa de Pedro: não o desejo de se pôr à mesa mas a debilidade daquela doente; não a necessidade de tomar uma refeição mas a ocasião de realizar uma cura. Veio exercer o seu poder divino e não tomar parte de um banquete com homens, porque não era vinho mas lágrimas o que se derramava em casa de Pedro...
 
Cristo não entrou, pois, naquela casa para tomar o seu alimento, mas para restaurar a vida.
Deus anda à procura dos homens, não dos bens humanos. Quer dar bens celestes; não deseja encontrar as coisas terrestres.
 
Assim, Cristo veio cá abaixo para nos tomar com ele; não veio procurar as coisas que nós possuímos.
 
 
«Cada um de nós tem a sua febre. Então que Jesus se aproxime de nós…»
S. Jerónimo (347-420), padre, tradutor da Bíblia, doutor da Igreja
 
E se Jesus pudesse aproximar-se de nós e curar, com uma só palavra, a nossa febre (cf. Mc 1, 29-39)? Pois cada um de nós tem a sua febre. Então que Jesus se aproxime de nós, que nos toque com a Sua mão. Se o fizer, a febre desaparecerá imediatamente, porque Jesus é um excelente médico.
 
Jesus é o verdadeiro, o grande médico, o primeiro de todos os médicos. Ele sabe descobrir o segredo de todas as doenças: Ele não toca nos ouvidos, nem na testa, mas na mão, quer dizer nas más ações.
 
Jesus aproxima-se da doente, pois ela não podia levantar-se nem correr na frente de quem vinha a sua casa. Ele, médico misericordioso e compreensivo, abeira-se do seu leito. Aproxima-se de sua inteira vontade. Toma a iniciativa da cura. Aproxima-se dessa mulher, e o que lhe diz? « Tu deverias ter corrido à minha frente. Deverias ter vindo à porta acolher-me para que a tua cura não seja só o resultado da minha misericórdia, mas também o da tua vontade. Mas uma vez que estás aí prostrada pela febre e que não te consegues levantar, sou eu que venho até junto de ti! »
 
Jesus aproxima-se e manda-a levantar-se... Pega-lhe na mão. Quando se está em perigo, como Pedro no mar, quase a submergir, Jesus dá a mão e levanta. Jesus manda levantar esta mulher, pegando-lhe pela mão: com a Sua mão, pega-lhe na mão. Ó bem-aventurada amizade! Ó maravilhoso contacto! Jesus pega nesta mão como um médico: Ele comprova a violência da febre, Ele, médico e remédio. Ele toca-a e a febre desaparece. Que Ele toque também a nossa mão, que cure as nossas obras.
 
Mas não me dirão onde está Jesus? «Ele está aqui, presente; no meio de vós, diz o Evangelho. No meio de vós está Aquele que não reconheceis.» (Jo 1, 26). Tenhamos fé e também nós comprovaremos a presença de Jesus.
 
 
«Como ela não se conseguia erguer sozinha, é o Senhor que a levanta»
Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona e doutor da Igreja
 
«Aproximando-Se, Jesus tomou-a pela mão e levantou-a» (Mc 1, 29-39). Com efeito, esta doente não conseguia levantar-se sozinha; estando acamada, não conseguia ir ao encontro de Jesus. Mas este médico misericordioso aproximou-Se da cama dela. [...] Ele aproxima-se sempre mais, para curar ainda mais.
 
«E levantou-a.» Como ela não se conseguia erguer sozinha, é o Senhor que a levanta. «Ele tomou-a pela mão e levantou-a.» Jesus toca-lhe e a febre desaparece. Desejemos que Ele toque na nossa mão para que, assim, os nossos atos sejam purificados. Que Ele entre em nossa casa: levantemo-nos da nossa cama, não fiquemos deitados. Jesus encontra-Se à nossa cabeceira e nós permanecemos deitados? Vamos lá, levantemo-nos! [...] «No meio de vós encontra-se Alguém que não conheceis» (Jn 1, 26); «o Reino de Deus está dentro de vós» (Lc 17, 21). Tenhamos fé e veremos Jesus presente no meio de nós.

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