Como Jesus cuida e cura: «Qualquer doença é uma contradição à vida plena desejada pela Senhor para cada um de nós»


No relato da “jornada de Cafarnaum” (cf. Mc 1, 21-34), Jesus e os quatro primeiros discípulos, tendo saído da sinagoga, vão para a casa de dois deles, Pedro e André.
Assim como havia uma dimensão pública da vida de Jesus, assim também havia uma dimensão privada: a vida vivida com os seus discípulos, ou com os seus amigos, a vida em casa, onde falavam, ouviam, comiam juntos e descansavam. Estas também são dimensões humanas da vida de Jesus, às quais, infelizmente de modo muito fácil, não prestamos atenção, mas fazem parte da realidade, do ofício do viver quotidiano...
 
Agora, tendo entrado na casa de Pedro e André, percebem que ninguém os acolhe: deveria ser a tarefa da sogra de Pedro, mas uma febre a mantém na cama. Jesus, informado sobre o assunto, aproxima-se dessa mulher acamada, toma-a pela mão e faz com que se levante. Ele faz gestos simples, muito humanos, afetuosos: toma na sua mão aquela mão febril, estabelece uma relação cheia de afeto e, em seguida, com força, ajuda-a a levantar-se.
 
Os gestos de Jesus que curam não gestos de um curandeiro profissional, não gestos médicos, muito menos gestos mágicos. Se estivermos atentos, compreendemos que, a exemplo de Jesus, a um doente, devemos sobretudo aproximar-nos, fazer-nos próximos, tirá-lo do seu isolamento, pegando a sua mão na nossa, num contacto físico que lhe diga a nossa presença real e, por fim, fazer algo para que o outro se levante do seu estado de prostração.
 
Essa ação com que Jesus liberta a mulher da febre pode parecer pouca coisa (“um milagre desperdiçado”, escreveu um exegeta!), mas a febre é o sinal mais comum que nos mostra a nossa fragilidade e preanuncia-nos a morte, da qual toda doença é indício. Qualquer doença é uma contradição à vida plena desejada pela Senhor para cada um de nós.
 
Jesus aparece, assim, como aquele que faz levantar, ressuscita – verbo egheíro, usado para a ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5, 41) e para a própria ressurreição de Jesus (cf. Mc 14, 28; 16, 6) – cada homem, cada mulher da situação de mal em que jaz. Ele dá “os sinais” do reino de Deus que vem, onde “não haverá mais morte, nem luto, nem lamentação, nem dor, quando Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos” (cf. Ap 21, 4; Is 25, 8).
 
O que é destacado como fruto desse “fazer levantar” por parte de Jesus é o serviço imediato, a pronta diakonía por parte da sogra de Pedro. Levantada do mal, cabe a nós o serviço aos outros, porque servir o outro, cuidar do outro é viver o amor para com ele: o amor ao outro é querer e realizar o seu bem.
 
Pedro sintetizará a vida de Jesus numa pregação relatada pelos Atos dos Apóstolos: “Jesus de Nazaré passou fazendo o bem e curando todos os que estavam sob o poder do diabo” (Act 10, 38),
 
Enzo Bianchi, monge da Comunidade de Bose

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