Poucas questões incomodam tanto o homem, pois ele tem consciência de si mesmo, como enfrentar a realidade do mal, presente, como está, em todos os âmbitos da sua existência.
O bem, o mal e os deuses
O confronto com o mal – que durante séculos ocorreu no campo
da experiência religiosa até ao surgimento do pensamento
racionalista-positivista (que, aliás, nunca deu uma resposta totalmente
satisfatória) – teve no mundo antigo, como solução comum, a crença em elementos
sobrenaturais — ou deuses — com diferentes atributos, até extravasar na
dualidade bem-mal, corporificada em duas divindades sempre em conflito em meio
do qual o ser humano se encontra inevitavelmente.
O mal e o único Deus
Esta questão, no entanto, tem outra resposta no pensamento
religioso de Israel em que o monoteísmo rejeita por princípio a existência de
qualquer deus paralelo a Javé.
Será, então, Deus a única causa de tudo o que acontece – de
bem e mal – àqueles que Ele criou e Lhe são subordinados?
O monoteísmo judaico, com a influência do pensamento
filosófico grego, gera a ideia de Deus perfeito – perfeição entendida como a
ausência de qualquer defeito.
Anteriormente, o conceito de perfeição originalmente
associado ao Senhor de Israel consiste mais no amor absoluto traduzido numa
presença incondicional e fiel em todas as vicissitudes da existência humana, e
não tanto na ausência do que é considerado um defeito ou deficiência. Esta ideia de perfeição é seguida por Jesus
de Nazaré quando propõe: «Eu vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por
aqueles que vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai celeste, que faz
nascer o seu sol sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos [...] Tu,
pois, sê perfeito como o teu Pai celeste é perfeito »
Como Deus perfeito não pode ser causa do mal, o monoteísmo
judaico extraiu a solução para o duelo bem-mal do pensamento religioso persa:
admitir junto com o único Deus a existência de entidades que, embora
subordinadas, passam a ser responsáveis pela existência do mal e da calamidade
humana, porque são indutoras do mal.
Jesus de Nazaré e o espírito impuro
Na visita do Jesus à sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1, 21-28),
Ele é desafiado por um “espírito impuro”. Trata-se de uma forma semítica de se
referir ao que o pensamento grego chama diabo.
O “espírito impuro” desafia Jesus tentando, primeiro,
afastá-lo da sua presença: «Que temos nós contigo, Jesus de Nazaré? Vieste para
nos destruir?» Trata-se de uma fórmula comum no Antigo Testamento que indica
rejeição e indignação.
Ato seguido, o “espírito impuro” tenta invocar o poder de
Deus presente em Jesus com a menção do seu nome e da sua realidade mais
profunda — Jesus de Nazaré, o Santo de Deus—, proferindo-o como encantamento
para adquirir poder sobre o próprio Jesus.
No entanto, a resposta de Jesus ao desafio do “espírito
impuro”, longe de se enredar nas complexas fórmulas dos exorcismos daquela
época, vem cheia de poder na forma de uma ordem breve e exaustiva: “Cala-te e
sai dele!»
Deste modo, Jesus reduz o mal a uma entidade administrável
na medida em que está subordinada a Deus.
Espírito impuro e comportamentos autodestrutivos ou antissociais
Para Jesus de Nazaré, os efeitos de estar possuído por algum
espírito impuro podem ser resumidos como comportamentos autodestrutivos ou antissociais e que, do
ponto de vista psicológico e ético, podem muito bem ser entendidos como uma
espécie de refúgio buscado por quem se sente superado pela desgraça e a
calamidade; ou como violência de quem se faz servo da cobiça e do desejo de
dominar.
E, se levarmos em conta que o que se diz do indivíduo também
pode ser afirmado do corpo social, não é, então, estranho observar sociedades
literalmente doentes ou “possuídas” por um espírito impuro de ruína ou de
destruição.
Em suma, a possessão por espíritos impuros pode ser
entendida, tanto individual quanto coletivamente, como a submissão a forças e
atitudes negativas como consequência de um sentimento profundamente vivenciado
de derrota ou de prepotência.
De forma análoga à ação de Jesus, os discípulos deverão estar
atentos ao que faz acontecer o mal, e invocar o poder de Deus, o único capaz de
gerar sentimentos de paz, justiça, fraternidade, com os quais se vence o mal.

Comentários
Enviar um comentário