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Frei Betto: «Não é uma pandemia, é uma sindemia – significa que a doença infeciosa não pode ser enfrentada de forma isolada»
«Sindemia – conceito
formulado pelo epidemiologista Merrill Singer, em 1990 – significa que a doença infeciosa não pode ser enfrentada de forma
isolada. Ela se entrelaça com fatores sociais, políticos e económicos. como a
desigualdade social, a distribuição da riqueza e o acesso a bens essenciais
como a moradia e o saneamento»
«Portanto, o problema não é só a Covid-19. É o capitalismo
sindémico que prioriza a lógica perversa da acumulação privada de riqueza. Vemos
isso, tanto nas propostas que aparecem com frequência na grande comunicação
social sobre a privatização da saúde pública disfarçada de parceria
público-privada, quanto na corrida da iniciativa privada para importar vacinas
que só estariam ao alcance de quem tem recursos
para procurar assistência em hospitais e clínicas privadas.»
«O
negacionismo, somado à falta de credibilidade da política, favorece a indiferença
(dos jovens) diante da ameaça do vírus.»
«Mais uma vez o capitalismo fala mais alto, pois
ignorar a ciência permite não destinar recursos para o atendimento de
emergência, para os hospitais de campanha, para a importação de insumos
sanitários e vacinas, etc.»
«Os ricos podem pagar pela vacina e,
assim, pular a fila daqueles que merecem prioridade, como os profissionais de
saúde e os idosos. Mas será que também estão dispostos a custear a imunização
dos seus motoristas, das suas empregadas, dos seus cozinheiros e dos que dão
manutenção às suas piscinas?»
«Os vírus passam de animais maltratatados para humanos
maltratatados»
Sabe-se
que endemias como a gripe aviária e
a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) tiveram a sua origem na criação
intensiva de animais em cativeiro destinados ao consumo humano e ao
processamento pela indústria de
alimentos.
No
livro Big Farms, Big Flu (traduzido
para o português como «Pandemia e agronegócio», o epidemiologista Rob Wallace,
especialista em agroecologia, descreve como são processados os animais
consumidos pelos humanos e como isso facilita o surgimento de novas modalidades
de vírus. O capitalismo transformou a natureza num laboratório onde se aplicam
todos os tipos de processos para forçar
o aumento da produção e o monopólio dos bens naturais, como é o caso dos
transgênicos e das sementes “suicidas”, que o agricultor não consegue
reproduzir e é obrigado a adquirir de gigantes dos gigantes dos venenos
agrícolas como a Monsanto.
No
artigo "Capitalismo pandémico",
o filósofo espanhol Santiago Alba Rico ressalta
que hoje há mais mortes por infecções hospitalares do que por gripes, apesar de
todos os protocolos higiénicos adotados. Se isso acontece nos hospitais, diz
ele, imaginem o que acontece nas fazendas, nos currais! O que esperar de
animais submetidos ao confinamento, a uma iluminação permanente, a coqueteis de
antibióticos e alimentos químicos?
E Santiago Rico reflete: «Os vírus passam
de animais maltratatados para humanos maltratatados», principalmente aqueles
que por razões sociais e de idade têm menos defesas naturais: os pobres e os
idosos.
Frei Betto, em https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)32000-6/fulltext
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