«Não foi uma bênção do Céu tal relação»? — testemunho de mulher que casou com um padre dispensado

Para responder ao desafio que me foi proposto, de contar a história do meu matrimónio, começo por:
 
1. recuar vinte e sete anos e ter presente a pessoa do João, viúvo, com duas filhas de 14 e 13 anos, e eu, solteira, bem entrosada na paróquia (catequista, coordenadora da catequese, leitora) e numa C.V.X. (Comunidade de Vida Cristã, espiritualidade inaciana). Elas, as filhas, longe do pai, fisicamente falando, mas bastante bem… Ambos, com a mesma atividade profissional a vivermos longe um do outro…
2. ter presente certas pedras nos caminhos versus Uma, rejeitada, Que Se tornou Pedra Angular…
 
Certas pedras! Umas agilizam o caminho. Lá diz Fernando Pessoa em “Ser Feliz”: Pedras no Caminho? Guardo-as todas! Um dia, vou construir um castelo. Outras são tropeço ou podem ser tropeço! Uma destas poderia ser a pessoa de minha mãe, com quem vivia. Uma sogra que, sim, amava e se relacionava de um jeito fora do comum com os dois genros, mas, “nada de e com a Igreja”, anti-clerical quanto bastasse, e só de ouvir falar de padres!... Como transmitir a esta mulher/MÃE/… a entrada de um padre (ainda que dispensado do exercício do seu ministério) num edifício familiar tão unido, tão sólido, portanto?
 
Interveio a vivência da nossa fé e o primeiro milagre começou com a sua primeira resposta instantânea:
- Que interessa isso?!!!! Interessa é que cada um ajude o outro a ser feliz!…
E o matrimónio deu-se em Dia de Santo Inácio, na minha paróquia, celebrando também o assistente s.j. da CVX.
 
Sucederam-se seis anos de milagres. Desses seis, três anos, lá longe na terra e casa do João onde vivia antes, e outros tantos aqui na casa dela, a três. E o que declarei sobre a relação sogra-genros, voltou a repetir-se com o terceiro, até ao momento da partida de cada um. E eu dizia-Lhe: Eu não acredito!...
Não foi uma bênção do Céu tal relação?!...

O João continuou os vinte anos em que por cá ainda viveu, a orar por ela… Aqui em Coimbra, foi “aproveitado” para serviços paroquiais (catequese - Crisma; pontualmente, como Ministro da Comunhão) e na comunidade (no Instituto Universitário Justiça e Paz), graças a dois PADRES, respetivamente, o Mons. João Evangelista Ribeiro Jorge e o, ainda não bispo, Pe. João Lavrador. Que gratidão!...

 
Ao longo de vinte e seis anos de matrimónio, o João dedicou-se também a escrever poesia, essencialmente acrósticos, por mim reunida num dossiê — a “genérica”, incluindo também a família, e, a referente à vida matrimonial fui arquivando no livro - “Prenda de Amor”, de Graça Gonçalves. No primeiro, destaco um longo acróstico à pessoa da mulher que também tomou para si a condição de mãe, chamava-a mesmo — Mãe, escrito logo após a sua partida, esta, num dia seguinte ao meu dia de aniversário e poucos dias após à nossa saída da sua casa para a nossa residência/lar/igreja doméstica!… Este livro integra o manancial escrito com muita regularidade no Dia dos Namorados, no Dia da Mulher, no meu dia de aniversário natalício e no dia de aniversário do nosso matrimónio. Inicia-se com a memória de leituras bíblicas do A.T. e N.T. em torno de — “Os dois serão um só”, seguem-se “Os 10 Mandamentos para uma vida a dois”, o poema por mim transcrito “O Casamento”, em “O Profeta” de K. Gibran, e todo esse material com os sobrescritos. Há páginas em branco, pois claro, que decerto são escritas nas mesmas datas LÁ na Casa do Pai…Os anexos são postais meus a si dirigidos, no dia da sua ordenação sacerdotal — 15 de agosto, … Um deles inclui a Oração de Sº Inácio — “Tomai, Senhor, e recebei…” Desses outros, seleciono:
O Senhor te abençoe e te guarde.
Faça brilhar a sua face sobre ti
e te dê a sua misericórdia.
Volva para ti o seu olhar
e te dê a sua paz.
O Senhor esteja sempre contigo
e faça com que tu estejas sempre com Ele.
(Santa Clara)
 “Deus queira que aumente entre os bispos, os presbíteros e o Povo de Deus em geral igual apreço pelo sacerdócio casado. Se Deus o quiser, porquê manter-se afincados a uma lei e, pela mesma lei, tratar de modo diferente os presbíteros que se sentiram chamados a dois sacramentos em simultâneo, ordem e matrimónio?”
Dumar Espinosa
 
Urtélia
(Mulher do João da Silva, padre da diocese de Lamego dispensado das obrigações sacerdotais)

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