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Não será o amor próprio o maior de todos os bens? Ensinamentos de Erasmo de Roterdão
Aquele que aprende a arte de viver
consigo próprio não cai no aborrecimento.
Dizei-me por obséquio:
- quem se odeia a si poderá, acaso,
amar alguém?
- quem discorda de si poderá, acaso,
concordar com outro?
Será capaz de inspirar alegria aos
outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio?
Só um louco, mais louco ainda do que a
própria Loucura, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal opinião.
Ora, se me excluirdes da sociedade,
não só o homem se tornará intolerável
ao homem,
como também, toda vez que olhar para
dentro de si, não poderá deixar de experimentar o desgosto de ser o que é, de
se achar aos próprios olhos imundo e disforme,
e, por conseguinte, de odiar a si
mesmo.
A natureza, que em muitas coisas é
mais madrasta do que mãe, imprimiu nas pessoas, sobretudo nas mais sensatas,
uma fatal inclinação no sentido de cada qual não se contentar com o que tem,
admirando e almejando o que não possui: daí o facto de todos os bens, todos os
prazeres, todas as belezas da vida se corromperem e reduzirem a nada.
Que adianta um rosto bonito, quando
contaminado pelo mau cheiro?
De que serve a juventude, quando
corrompida pelo veneno de uma melancolia senil?
Como podereis agir em todos os deveres
da vida, quer no que diz respeito aos outros, quer a vós mesmos, se não fordes
auxiliados por esse amor próprio que não hesita em tomar sempre o meu partido
em qualquer desavença?
Vivendo sob a proteção do amor próprio
ficais encantados pela excelência do vosso mérito e vos apaixonais pelas vossas
insignes qualidades.
Se vos desgostais de vós mesmos, convencei-vos
de que nada podereis fazer de belo, de gracioso, de decente.
Portanto, é necessário que cada qual faça
a si mesmo uma boa coleção de elogios, em lugar de ambicionar os de outros.
A felicidade consiste, sobretudo, em
querer ser o que se é. Ora, só o divino amor próprio pode conceder tamanho bem.
Em virtude do amor próprio, cada qual está contente com o seu aspeto, o seu
talento, a sua família, o seu emprego, a sua profissão, o seu país, etc.
Se Deus não se mostrou avarento na
concessão de dons aos seus filhos, mais pródigo se revelou ainda ao
conceder-lhes o amor próprio. Com efeito, não será o amor próprio o maior de
todos os bens?
Erasmo de Rotterdam
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