«Passamos a maior parte da nossa vida no Sábado Santo: esperando, ansiando, imaginando… - entrevista ao padre James Martin, jesuíta


«Passamos a maior parte da nossa vida no Sábado Santo: esperando, ansiando, imaginando. Esperamos que as coisas melhorem. Esperamos que a vida mude. Esperamos por…»
 
Juan Salvador Pérez, da revista SIC, entrevista o padre James Martin, jesuíta dos Estados Unidos. Este fala sobre quatro temas: encíclica Fratelli Tutti, pobreza, paciência e oração. 

Ele é escritor e editor-geral da revista America. Em 2017, o Papa Francisco nomeou-o consultor da Secretaria de Comunicações do Vaticano. É autor de best-sellers do New York Times e comentador frequente da vida e dos ensinamentos de Jesus e da espiritualidade inaciana inspirada na vida e nos ensinamentos de Santo Inácio de Loyola. Autor de inúmeras publicações, o seu mais recente livro intitula-se Learning to pray, a guide to everyone (Ed. Harper One, 2021. Em tradução livre: Aprendendo a rezar, um guia para todos).
 
Fratelli Tutti
«Todos estão interligados»
«Misericórdia é vontade de entrar no caos da vida de outra pessoa»
 
Todos irmãos, algumas das palavras que definem a proposta do pontificado de Francisco. Esta encíclica é um apelo urgente à fraternidade e à amizade social como meios de reconstrução, de cura, de um mundo ferido. Como realmente nos tornamos irmãos? Como nos tornamos irmãos concretamente? Quando somos verdadeiramente irmãos? Estas são questões importantes. Para mim, poderia resumir-se a grande encíclica do Papa Francisco Laudato Si' numa frase poderosa que ele usa: «Tudo está interligado.» E talvez uma maneira de resumir Fratelli Tutti seja com a frase «Todos estão interligados».

Ser irmãos e irmãs não é apenas cuidarmos um do outro, por mais importante que seja, mas fazermo-nos amigos. Isso, o que significa? Significa dedicar um tempo para escutar-nos um ao outro, criar um vínculo com os outros em momentos difíceis e até chorar com eles. E rir também!

Uma das minhas expressões favoritas neste ponto vem de um professor jesuíta de teologia moral do Boston College, James F. Keenan. A sua definição de misericórdia é brilhante, mas também pode ser usada como uma definição de amizade e de ser irmão ou irmã de alguém. Ele diz que é a “vontade de entrar no caos da vida de outra pessoa”. Isso é o que se necessita.
 
Pobreza
«Fomos condicionados, pelo menos no Ocidente, a ver os pobres como ameaças, mais que como nossos irmãos e irmãs necessitados.»
 
A filósofa espanhol Adela Cortina vem destacando enfaticamente que existe uma espécie de rejeição cultural à pobreza. Define-o como aporofobia: fobia, temor ao pobre. E apela-nos para superamos esta conduta excludente e antidemocrática: como devemos atuar diante da pobreza? O que devemos fazer diante desta realidade?

Essa ideia faz-me sentido. Durante as últimas décadas, fomos condicionados, pelo menos no Ocidente, a ver os pobres como ameaças, mais que como nossos irmãos e irmãs necessitados. Nos Estados Unidos, por exemplo, os ricos convenceram a classe média de que os pobres são seus inimigos, dispostos a tirar-lhes coisas que supostamente os pobres não merecem. Sucede o mesmo em todo o mundo, com pessoas que veem os refugiados e migrantes, não como pessoas necessitadas, mas como ameaças, como pessoas a temer, como o “outro”.

Tudo isto opõe-se à mensagem do Cristo, que não só era pobre, mas também se ocupou dos pobres e especificamente nos pede, nos exige, cuidar dos pobres. Assombra-me escutar os políticos ocidentais a ignorar ou a negar este facto: faz parte do ser cristão cuidar dos pobres.

Talvez a melhor maneira de abrandar os corações e conseguir uma conversão entre as pessoas é apresentando-lhes os pobres, seja pessoalmente ou por histórias. Isto faz parte da “cultura do encontro” da qual fala o Papa Francisco. É muito mais difícil etiquetar alguém como indigno ou como uma ameaça se conhecemos a sua história. É inclusive melhor se pudermos escutá-lo a contar a sua história pessoalmente. Há uma razão para Jesus ensinar em parábolas, isso é, em história: tinham a capacidade de nos converter.
 
Paciência
«Passamos a maior parte da nossa vida no Sábado Santo: esperando, ansiando, imaginando. Esperamos que as coisas melhorem. Esperamos que a vida mude. Esperamos por…»
 
Hoje, a humanidade atravessa tempos difíceis. Os tempos difíceis demandam atitudes virtuosas e entre essas virtudes destaca-se a paciência. Patientia vem do latim patis, que significa «sofrer». Hoje entendemo-la como a capacidade de suportar adversidades. O que nos exige ser pacientes nas circunstâncias atuais? Quanto de sofrimento há em ser paciente?

Passamos a maior parte da vida esperando. Poderíamos dizer que a maior parte da nossa vidas não é vivida no espantoso terror da Sexta-Feira Santa ou na alegria suprema do Domingo de Páscoa, mas em algum lugar entre os dois. Passamos a maior parte da nossa vida no Sábado Santo: esperando, ansiando, imaginando. Esperamos que as coisas melhorem. Esperamos que a vida mude. Esperamos por uma vacina. Parte dessa espera é a paciência.

A espera cristã é mais do que uma espera cega, como se não soubéssemos o que vai acontecer ou se tudo dependesse do destino. A espera cristã supõe esperança. Confiamos que a mudança é sempre possível, que há sempre uma nova vida no horizonte e que nada é impossível para Deus. Foi isso o que os discípulos descobriram no domingo de Páscoa.
 
Oração
Uma pequena placa numa casa de retiro resumiu isso: «O que tu procuras está à tua procura.»
 
Em que consiste a oração de quem não crê? E qual é a oração daquele que crê?

Essas são perguntas difíceis! Acho que se pode discordar de algumas pessoas que dizem que quem não crê pode rezar. Certamente alguém que não crê pode meditar, e muitos fazem-no. Mas se a pessoa resiste completamente à ideia de Deus, então seria difícil “rezar”, porque a oração é encontro pessoal com Deus.

Mas se há um pouco de curiosidade sobre a possibilidade da existência de Deus, então acredito que Deus pode trabalhar com isso! Portanto, o agnóstico, o que dúvida ou o que procura, certamente pode rezar. Nesse caso, uma das coisas mais importantes é que aquele que busca reconheça que o próprio desejo de oração vem de Deus. Ou seja, muitos desses sentem que estão a orar simplesmente por curiosidade. Mas a estes eu digo sempre: «É assim que Deus os está a atrair.»

De que modo Deus faz isto? Uma pequena placa numa casa de retiro resumiu isso: «O que tu procuras está à tua procura.»

Como o que crê ora quem procura? De muitas maneiras! Mas, no fundo, ora honestamente, com confiança e, em seguida, com aceitação. E do modo que quiser. Não existem maneiras erradas de rezar. Qualquer caminho que aproxime de Deus é o caminho certo para qualquer pessoa.

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