O
repto lançado por uma filha há tempos — “mamã, escreve, por favor, algumas
passagens da tua vida para que eu saiba responder corretamente a questões que
as tuas netas me colocam…”, e o pedido agora feito pelo nosso estimado editor
da FRATERNITAS, vêm dar-me um empurrão para deixar plasmados na escrita alguns
pedaços da minha vida.
Como cuidadora do marido, portador de Alzheimer há uns anos, tenho procurado participar em programas que nos ajudem a viver e conviver. Além de outros, o “EU no musEu”, baseado no estudo de peças de arte, que decorre uma vez por mês, (desde março através de uma plataforma), é uma atividade que agrada, particularmente ao Luís. Uma vez que me (nos) foi pedido um vídeo para falar de uma obra das estudadas desde setembro de 2019 que nos dissesse algo, para a sessão do próximo dia 21, dia nacional do Alzheimer, começo por transcrever, mais ou menos, o conteúdo desse vídeo, supervisionado pelo Luís:
“Esta escultura transporta-me a diversos momentos da minha vida por representar Inácio de Loyola, cofundador da Companhia de Jesus. E foi um jesuíta que, ao constatar as muitas carências do povo angolano, lançou o repto a voluntários e deu início a um movimento de leigos, então conhecido por AFRIS (Auxílio fraterno, religioso, de instrução e social). Parti então com um grupo de jovens em 1969 para Angola onde, numa visita a colegas, me foi apresentado um Sr. que hoje é meu companheiro de vida e pai dos meus filhos”.
De regresso à então metrópole, recebi do meu namorado de há anos uma carta onde afirmava que não se sentia capaz de me tornar feliz. Ele, que algumas vezes me colocara a pergunta “se um dia a Igreja aceitar casados no sacerdócio, não te importas de ser a mulher do padre?”, agora deixava-me de boca aberta!
Eduarda
Cunha
(mulher do Luís Cunha, padre da diocese de Viseu dispensado das obrigações sacerdotais)

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