Pedaços de uma vida — testemunho de mulher que casou com um padre dispensado

O repto lançado por uma filha há tempos — “mamã, escreve, por favor, algumas passagens da tua vida para que eu saiba responder corretamente a questões que as tuas netas me colocam…”, e o pedido agora feito pelo nosso estimado editor da FRATERNITAS, vêm dar-me um empurrão para deixar plasmados na escrita alguns pedaços da minha vida.

Como cuidadora do marido, portador de Alzheimer há uns anos, tenho procurado participar em programas que nos ajudem a viver e conviver. Além de outros, o “EU no musEu”, baseado no estudo de peças de arte, que decorre uma vez por mês, (desde março através de uma plataforma), é uma atividade que agrada, particularmente ao Luís. Uma vez que me (nos) foi pedido um vídeo para falar de uma obra das estudadas desde setembro de 2019 que nos dissesse algo, para a sessão do próximo dia 21, dia nacional do Alzheimer, começo por transcrever, mais ou menos, o conteúdo desse vídeo, supervisionado pelo Luís:

“Esta escultura transporta-me a diversos momentos da minha vida por representar Inácio de Loyola, cofundador da Companhia de Jesus. E foi um jesuíta que, ao constatar as muitas carências do povo angolano, lançou o repto a voluntários e deu início a um movimento de leigos, então conhecido por AFRIS (Auxílio fraterno, religioso, de instrução e social). Parti então com um grupo de jovens em 1969 para Angola onde, numa visita a colegas, me foi apresentado um Sr. que hoje é meu companheiro de vida e pai dos meus filhos”.
 
Esse Senhor, apresentado a 1/12/1969, era o Sr. Capelão Militar que vim a encontrar 2 anos depois porque uma sua ex. paroquiana e minha colega lhe pedira para adquirir algo no casão militar.
De regresso à então metrópole, recebi do meu namorado de há anos uma carta onde afirmava que não se sentia capaz de me tornar feliz. Ele, que algumas vezes me colocara a pergunta “se um dia a Igreja aceitar casados no sacerdócio, não te importas de ser a mulher do padre?”, agora deixava-me de boca aberta!
 
Mas tudo é o que tem que ser. Certo dia, a referida colega diz-me que o Sr. Padre, agora regressado a Angola, lhe pedira o meu contacto. Preparava-me eu para acompanhar uma cunhada até Moçambique onde meu irmão cumpria serviço militar quando começo a receber uma e mais outra carta do Sr. Capelão Militar… Decidi então deslocar-me ao Paço Episcopal da diocese a que ele pertencia. Aí fui recebida pelo secretário que conhecia o Luís de há muito tempo e me disse que ele só tomava uma decisão depois de a ter amadurecido…,que pedira a dispensa das ordens sacerdotais em…, portanto, que Deus me agradeceria tudo que pudesse fazer para o ajudar…
 
Decidi então partir e, ambos concluindo que poderíamos caminhar juntos, iniciámos o processo   para a realização do matrimónio. A demora da resposta, mais de um ano, (justificada pelo falecimento do Bispo de Benguela…), levou o Luís a escrever uma carta aberta enviada às 2 dioceses e a um seu amigo sacerdote nela referindo a data prevista. Constrangidos, porque ambos éramos docentes e pretendíamos realizar a cerimónia em férias… casámos civilmente em março de 1974 em casa dos padrinhos, familiares do Luís. A cerimónia religiosa foi realizada no dia da Sagrada Família, num templo, a igreja de Santa Ana, onde o noivo celebrara algumas vezes a Eucaristia…
 
Eduarda Cunha
(mulher do Luís Cunha, padre da diocese de Viseu dispensado das obrigações sacerdotais)

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