Ao longo da história da humanidade, o patriarcalismo foi hegemónico em muitos períodos e lugares, proibindo a mulher de participar da vida pública. Entretanto, desde os primórdios até hoje, as mulheres, mesmo sem serem notadas, sem serem contadas, muitas vezes silenciadas, continuam atuantes nas comunidades. É preciso vasculhar os textos da história, perceber a sua presença e descobri-las atuantes, ontem e hoje.
Mulheres na Bíblia contra o patriarcalismo
O protagonismo do Movimento das Mulheres atualmente é crescente e tem sido imprescindível para que elas se unam, se organizem e sigam nas lutas. Isso faz-nos recordar o protagonismo de inúmeras mulheres na Bíblia como, por exemplo, aconteceu com o Movimento de Mulheres liderado pelas filhas de Salfaad - Maala, Noa, Hegla, Melca e Tersa - que lutou pela superação do patriarcalismo. Que bom que o escritor bíblico tenha conservado o nome delas. Elas viram a injustiça patriarcal que estava na lei segundo a qual a herança passava de pai para filho (não para filha - Cf. Num 27,1-11). Elas rebelaram-se, pois estavam a ser excluídas do direito de ter terra, porque não tinham irmãos. E numa manifestação deram o grito:«Queremos ter direito à propriedade da terra» (Nm 27,4).
Depois de um discernimento, em assembleia entenderam que esta seria a vontade de Deus e assim o movimento das mulheres da Bíblia conquistou mais um direito que lhes era negado. As mulheres passaram a receber a herança do pai, do mesmo modo que outros parentes próximos. Travava-se assim a luta pela igualdade e dignidade entre homem e mulher. O livro de Números termina com esperança, pois em Nm 36,1-12 aparecem os líderes da tribo de José a alertar para o perigo de as mulheres casarem com homens de "fora da tribo", pois elas levavam consigo a terra da herança dos pais e, assim, passo-a-passo, a terra, herança dos pais, poderia ser perdida. O líder Moisés convoca uma assembleia e após discussão aprofundada chega-se à seguinte conclusão: «Mulheres, vocês podem casar-se com quem quiserem, mas sempre dentro de algum clã da tribo do seu pai» (Nm 36,6). Assim se conquistava mais uma Lei para assegurar que a terra pertence a Deus e não deve ser vendida (Lev 25,23).
Além das parteiras do Egito – Séfora e Fuá -, de Mirian, Débora, Judite, Rute, Jael e tantas outras do Primeiro Testamento, as mulheres referidas no livro de Números integram o grande Movimento de Mulheres de luta na Bíblia.
E as mulheres no Movimento de Jesus?
No Século I da Era Cristã, a função das mulheres restringia-se à vida familiar, onde desde a infância se exercitavam na organização interna da casa (oikia). Como as assembleias cristãs funcionavam no interior das casas, a mulher tinha um papel eclesial ativo. A criação de “Igrejas domésticas” possibilitou uma maior influência e participação da mulher.
Muitas interpretações acabaram por esconder a presença e o protagonismo das mulheres no Movimento de Jesus, antes e depois da Ressurreição de Cristo. Urge relativizarmos certas compreensões que foram postas na nossa cabeça e que não resistem a perguntas simples, mas profundamente eloquentes, como aquelas feitas por crianças. Diante do quadro da Santa Ceia, uma mãe, desejosa de fazer a sua filha crescer em sensibilidade religiosa, diz: «Vê como é bonito Jesus reunido com os doze apóstolos ao redor da mesa, partilhando o pão!» A filha, de apenas 6 anos, retrucou subitamente: “«Mamã, porque só há homens nesta mesa? Onde estão as mulheres? Porque não está aí Maria, a mãe de Jesus? E Maria Madalena, que tanto amava Jesus, porque não está aí? E as crianças que Jesus tanto amava, onde estão? Não acredito que Jesus fosse um homem machista capaz de excluir as mulheres e as crianças desse momento tão importante que é a ceia.»
As questões colocadas por essa menina fez-me contemplar com olhar mais penetrante o tradicional quadro da Santa Ceia e acabei por constatar que o artista quis, provavelmente, indicar a presença de duas mulheres a participar da Ceia de Jesus. Duas pessoas que participam na ceia não têm barba, nem bigode, traços característicos de todos os outros apóstolos. A ternura da fisionomia indica tratar-se de dois rostos femininos. Uma está à esquerda e outra, à direita de Jesus. Seriam a Mãe de Jesus e Maria Madalena? Ou seria a apóstola Júnia, a quem o apóstolo Paulo envia uma saudação no final da Carta à comunidade Cristã de Roma (cf. Rm 16,7)? Ou seriam mulheres atuantes que, desde a Galileia, seguiram Jesus (Lc 8,1-3), como discípulas, não arredando o pé de acompanhar Jesus até à Cruz? As mulheres foram as primeiras a fazer a experiência que as levaram à conclusão: Jesus ressuscitou e vive em nós. Sabemos os nomes de algumas delas: Maria (chamada Madalena), Joana (mulher de Cuza), Suzana, Maria (a mãe de Tiago o menor) e Salomé (cf. Mc 15,40-41).
Na Galeria Nacional de Arte de Dublin, na Irlanda, dois quadros sobre o jantar dos/das discípulos/as de Emaús (cf. Lc 24, 13-35) chamaram-me muito à atenção. Um quadro destaca que o jantar foi feito por uma mulher escravizada. Um facho de luz solar destaca a escrava a preparar o jantar, enquanto os/as discípulos/as conversavam com Jesus na sala. Outro quadro mostra um jantar com muita fartura com a participação de quatro homens, duas mulheres, cão, gato, papagaio etc.
Segundo o livro de Atos dos Apóstolos, quem estava reunido no momento em que acontece o primeiro Pentecostes sobre a Primeira Comunidade Cristã? Por dezenas de séculos foi colocado na cabeça do povo que o Espírito Santo tinha descido apenas sobre os doze apóstolos e Maria, a mãe de Jesus. Infelizmente, essa é uma interpretação reducionista e apologética que visa enfatizar a presença do Espírito Santo "quase" que somente nos líderes da Igreja Instituição. Rastreando o primeiro capítulo de Atos dos Apóstolos, concluímos que estavam reunidos: «Os onze e Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas» (Lc 24, 10); «algumas mulheres, Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos» (At 1, 14); «Galileus» (At 1, 11); Cléofas e a sua esposa («os discípulos» de Emaús – Lc 24, 13.18). Em Lc 24, 13 diz-se que dois discípulos fugiram de Jerusalém após a condenação de Jesus à pena de morte. Um deles chamava-se Cléofas (Lc 24, 18). Em Jo 19, 25-26 temos notícia de que Maria, mulher de Cléofas, estava ao pé da cruz, juntamente com outras mulheres. Um princípio de interpretação bíblica diz que a Bíblia se autoexplica, ou seja, uma passagem pode ser iluminada por outras passagens bíblicas. É difícil pensar que Cléofas iria fugir do centro de perseguição, deixando a sua esposa sob o risco de ser crucificada também, pois a presença dela ao lado de Jesus poderia atiçar a ira dos seus executores. Se Cléofas está acompanhado da sua esposa Maria, temos aqui mais uma vez as mulheres ajudando os homens a experimentar a Ressurreição de Jesus.
É, provavelmente, esse grupo, citado acima, especificado como «cerca de 120» (cf. At 1,15-26), que faz a experiência do Primeiro Pentecostes cristão, que escolhe Matias para ser apóstolo (em substituição de Judas Iscariotes), que também participa da Ascensão, do primeiro Pentecostes da comunidade crista. É muito provável que tenham existido muito mais mulheres no Movimento de Jesus e, sendo bem mais próximas de Jesus, do que muitas tradições religiosas insistem em negar.
Enfim, no passado e no presente, mulheres guerreiras fizeram e fazem a diferença em lutas pela construção de “um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres», como aponta Rosa Luxemburgo.
Frei Gilvander Moreira, em Dom Total

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