Comunicado de Redes Cristianas sobre o anúncio do Seminário Teológico Internacional «Por uma teologia fundamental do sacerdócio», organizado pela Congregação para os Bispos

São muitas as questões relativas ao sacerdócio e à relação deste com a Igreja no seu conjunto que precisam urgentemente de reflexão, discernimento e tomada de decisões. A existência de duas classes diferenciadas, uma delas vetada às mulheres e aos leigos casados e que ocupa os principais cargos de responsabilidade na Igreja é algo que se tem mantido, apesar da abertura iniciada no Concílio Vaticano II, até aos nossos dias. Se a isso juntarmos a forte crise de vocações sacerdotais desde há muitos anos, vemos como se foi chegando a situações nada desejáveis e grotescas em muitos casos: grupos de católicos que não podem celebrar a Eucaristia por muito tempo, algumas mulheres encarregadas de uma paróquia como administradoras e autorizadas para animar as celebrações da Palavra, mas que necessitam que um padre administre os sacramentos de vez em quando, embora ele esteja escassamente ligado à comunidade paroquial, sacerdotes de idade avançada a cargo de muitas localidades e comunidades...

O sacerdócio partilhado por todos os batizados não avança nem é consolidado, por mais que se fale da corresponsabilidade dos leigos e dos passos que foram sendo dados, há que reconhecê-lo, em diferentes âmbitos eclesiais, mas que continuam a ser insuficientes.

Tudo isto pode levar a uma primeira impressão positiva do anúncio do Seminário «Por uma Teologia Fundamental do Sacerdócio», apresentado no dia 12 de abril, no Vaticano, e previsto para fevereiro de 2022.

Não obstante, ao ler o conteúdo da nota de imprensa, temos de expressar a nossa preocupação pelos seguintes aspetos:

A intervenção do cardeal Ouellet, prefeito de Congregação para os Bispos, na conferência de imprensa, destaca a importância do carácter sinodal na Igreja e faz referência aos três sínodos realizados nos últimos anos, mas não encontramos na nota de imprensa qualquer anúncio de um processo de preparação do seminário que se anuncia estendido a todo o Povo de Deus, como, sim, aconteceu nos outros casos. Num tema tão essencial, somos informados de que não vão ser abordadas questões pastorais, mas teológicas que fundamentam a pastoral, que seria uma consequência. Parece-nos crucial que os fiéis batizados sejam consultados (sensus fidei) e que as contribuições teológicas que sejam apresentadas reflitam a pluralidade existente entre os especialistas sobre o que deve ser o sacerdócio ministerial em relação com a sua missão na Igreja Povo de Deus.

No programa, já estabelecido, sem contar, aparentemente, com esse processo de consulta, os títulos das comunicações não levam a pensar que, realmente, vão ser abordadas as questões que, a nosso ver, permitiriam avançar para uma Igreja de iguais, com participação ativa de todos os seus membros nas comunidades e em todos os âmbitos eclesiais. Ao contrário, é possível pensar que se vai refletir sobre como fundamentar as raízes do sacerdócio, como se deve melhorar a preparação nos seminários e como se pode conseguir mais vocações, se bem que, na nota de imprensa, se fale de todo o tipo de vocações dos batizados e de articular melhor a relação dos sacerdotes com os leigos e comunidades religiosas. É importante assinalar que na nota de imprensa há parágrafos que parecem indicar que se mantém o caráter místico a vocação sacerdotal, o que a diferencia do sacerdócio comum de todos os batizados. No entanto, o sacerdócio comum de todos os batizados é essencial e primário, pertence à essência da koinonia ou comunidade; o ministerial é subordinado, pertence à diakonia, como todos os outros ministérios que estão «ao serviço» da comunidade.

A questão de celibato será tratada, mas não será fundamental. Temos dificuldade em compreender este posicionamento. Por muitas razões, pensamos que o celibato deve ser uma escolta pessoal e não uma condição para ser sacerdote. Pode-se entender no contexto do século XXI que o anunciado seminário acabe sem abrir as portas ao celibato opcional, à ordenação de mulheres em igualdade com os homens, ou que se mantenha a discriminação por orientação sexual?

Obviamente, não sabemos o que acontecerá em fevereiro de 2022, mas com este comunicado queremos pedir ao Vaticano e, em especial, ao Papa Francisco que se atrevam, sem medo, a abordar questões que são urgentes desde há demasiado tempo. A desconexão entre a hierarquia e amplos setores eclesiais é cada vez maior e a Igreja precisa de mudanças profundas para ser credível no seu compromisso como Evangelho de Jesus. O contexto histórico atual é essencial na abordagem da Igreja como comunidade e dos ministérios como serviço, se se quer, como se pretende na nota de imprensa, que «marque uma etapa na busca da Igreja e estimule novas iniciativas e publicações». .
 
As conclusões dos sínodos anteriores, especialmente o da Amazónia, os processos sinodais que estão em processo em países como Alemanha ou Austrália, e estão a ser preparados outros, ou iniciativas que estão a ser encetadas na América Latina após o Sínodo da Amazónia, são sinais de esperança para a Igreja. Perguntamo-nos que reflexo vão  ter todos eles no seminário teológico que se está a preparar.

Redes Cristianas, abril de 2021

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