A escritora Lídia Jorge considera que entre vários padres
subsiste uma ignorância em relação a criações elementares da arte e da cultura,
que é preciso corrigir para aproximar a Igreja de mais pessoas. Ao mesmo tempo,
diz que muitas homilias sobre o mesmo texto bíblico se repetem ao longo de
décadas, indiferentes às mudanças no mundo.
«Pede-se à Igreja que os seus sacerdotes sejam cultos» e
«tenham acesso a obras literárias, instrução do ponto de vista de gosto pela
música, pelo teatro, pelas várias expressões da cultura», afirmou a escritora
durante o 14.º Encontro Nacional de Referentes da Pastoral da Cultura, que
decorreu através de meios digitais, no dia 28 de abril (de 2021).
No encontro organizado pelo Secretariado Nacional da
Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, a autora sublinhou que o
desenvolvimento da sensibilidade para a cultura deve ser acompanhada pela
«capacidade de dialogar com as pessoas».
«Muitas vezes» fala-se com padres «que não leram nada, a não
ser obras fundamentais da teologia», mas «são incapazes de perceber o que a
obra de James Joyce, ou outra, lhes pode dar», referiu.
Como exemplo da «espécie de aversão» que em alguns meios
clericais existe em relação à cultura, contou às cerca de duas dezenas de
participantes um encontro, «estranho», com um padre, que lhe declarou: «Quando
os sacerdotes começam a falar de poesia, temos tudo estragado (…) [porque] se
entra num caminho que não se consegue dominar.»
Ao lembrar a obra Verbo – Deus como interrogação na
poesia portuguesa, com seleção de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia
(ed. Assírio & Alvim), a escritora sustentou que há «poemas que podem
perfeitamente circular pela Igreja, pelos crentes, e fazer parte das
celebrações».
«É importante perceber que há toda uma cultura que está a
passar debaixo dos nossos olhos», afirmou, antes de lamentar a existência de
homilias que, «ano após ano», são proferidas «como se não corresse o tempo,
como se de ano para ano não houvesse alterações».
Para Lídia Jorge, «as pessoas têm medo de falar do que vem
nos jornais, medo de criar a sua própria narrativa; mas isso aprende-se. Devia
haver um aprendizado da narrativa».
«A homilia é um momento importantíssimo» que «tem de ser
aproveitado com a maior amplitude possível, com dados culturais vários; se isso
não acontece, as pessoas vão à missa como foram há dez anos ou como irão daqui
a dez anos, sem a noção de que o mundo se transforma», assinalou.
Neste sentido, a escritora defendeu que o texto canónico
proclamado nas celebrações deve ser «acrescentado com a narrativa do nosso
tempo, que tenha a capacidade de chegar às pessoas através de novas parábolas
sobre a parábola».
Depois de evocar um padre que, nas pregações, contava não só
«histórias da Bíblia», mas também «histórias da vida», a escritora observou que
se mais sacerdotes aproximassem o Evangelho dos acontecimentos do dia a dia,
«as pessoas sentiriam a Igreja muito mais próxima».
«Há uma espécie de assepsia, que a palavra dita e narrada
não pode tocar neste mundo, há um tabique muito forte», observou, ao responder
à pergunta sobre como os católicos podem estar mais presentes no mundo da
cultura.
A Igreja tem lançado «uma espécie de cortina perante os
vários espaços culturais, não os faz seus, não os interioriza, pode assistir a
uma ou outra coisa, ser amiga de uma ou outra pessoa, mas não os transforma
naquilo que é a sua pregação», acrescentou a escritora.
Rui Jorge Martins, Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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